a depressão não tem cara
desde que tornei público aos meus amigos e familiares que tive depressão é de praxe a reação “nossa, mas não parecia!”. disso, como é do meu feitio, projetei a reflexão nos outros: quantos outros tem depressão e não demonstram? pior, não sabem?! oras, de início eu não sabia, estava em negação. demorei um tempo a procurar ajuda.
será por isso que os índices de suicídio são tão alarmantes?
tem se falado muito do setembro amarelo e fico feliz com isso, o assunto está deixando de ser tabu ou piada pra ser visto com a gravidade que merece.
coincidentemente (e curiosamente), a fase mais severa da minha depressão foi em setembro de 2014. então vieram os pensamentos suicidas mas tinha medo de doer muito.
por insistência do meu marido, procurei ajuda. felizmente não precisei tomar remédios mas a batalha foi árdua. foi? é.
ainda sinto oscilar. me questiono, me sinto incapaz, inútil, insuportável. sou estruturalmente melancólica. travo lutas constantes comigo mesma dentro de mim. mesmo em silêncio, o falatório na minha mente é perturbador. graças a terapia e à filosofia encontrei maneiras de me domar. às vezes sou minha pior inimiga.
mas o que dói mais é ceticismo das pessoas. diziam: é frescura, você está assim porque quer, ânimo, tudo vai melhorar. quem dera fosse assim tão fácil…
recorri à pessoas que eram próximas na época, me viraram as costas deixando sempre claro que eu as estava incomodando. ainda me difamaram. contribuíram pra que eu duvidasse ainda mais de mim.
ironicamente, nenhuma destas pessoas me perguntou como eu estava, o que eu sentia, o que me motivava a agir tão desesperadamente por atenção e aceitação. e são pessoas que, provavelmente, até hoje incitam intrigas a respeito.
obviamente ninguém é obrigado a se compadecer, sequer preocupar-se mas não piore esta condição. é um momento de frágil autoestima. não, a pessoa não está querendo confete, ela realmente não vê benefícios em ser quem é. não quer ajudar? pois bem, não atrapalhe.
atitudes e comentários maliciosos me assombram até hoje das mais variadas formas. há um impacto naquilo que dizemos e fazemos às outras pessoas, tenha isto em mente.
e se caso você queira ajudar alguém, ótimo! você pode salvar uma vida! não sei exatamente como mas você encontrará uma forma, aliás, apenas pelo fato de se dispor já vale muito. acredite!
certo e por que estou contando tudo isso? talvez para desabafar mas, em primeiro lugar, para mostrar que a depressão não tem fôrma, padrão. pode estar onde menos se imagina. mostrar que mesmo que você não veja um porquê, a dor existe, está lá e pode tomar um fim trágico.