Clareamento genital e amigas brancas

Parte 1.1

Uma amiga fez um post no Facebook demonstrando seu total espanto, ao descobrir a existência de procedimentos estéticos pra clarear os órgãos genitais. E mais, que mulheres pagam caro por isso. É importante destacar que essa amiga é branca, depois eu explico a relevância da informação.

Parte 2

Eu cresci em um meio majoritariamente branco. Estudei em escolas particulares por toda vida, o que resumiu o meu ciclo de amizade a pessoas e, principalmente, meninas brancas. Isso prosseguiu durante a adolescência e só foi mudar um pouco nos últimos anos. A falta de referências no meu convívio afetou muito a minha autoestima, por mais que essas amigas tentassem sentir empatia, a minha vivência nunca foi a mesma que a delas. Toda essa falta de identificação fez com que eu demorasse muito pra me entender enquanto pessoa negra e me aceitar. Mas principalmente, fez com que eu relevasse, mesmo me fazendo mal, as muitas vezes em que eu me senti oprimida por elas, as amigas brancas.

Parte 3

O meu processo de identificação e reconstrução como mulher negra começou faz uns 5 anos — quando conheci o feminismo negro. À partir de então, passei a questionar e enxergar de outras maneiras toda a minha vivência. Foi quando percebi que o racismo me atingia de maneira mais sutil, por ter a pele mais clara e pela minha classe econômica. E também por isso, sempre foi difícil identificá-lo, principalmente quando vinha de pessoas próximas. Aquele racismo que vai das piadinhas “inofensivas” ao preterimento. O racismo que muitas vezes, aquelas pessoas acreditaram não me atingir, só porque eu não era “tão negra assim”.

Parte 1.2

O tal post me fez lembrar de um episódio, já faz alguns anos. Num encontro entre amigas, não sei bem como chegamos no assunto, mas estávamos falando sobre filmes pornô. Foi quando uma delas disse, sem o menor constrangimento, que as mulheres negras, com a buceta (não lembro se foi essa a palavra usada) muito escura, deveriam fazer um clareamento pra participar dos filmes. Como se isso fosse essencial, como se pra ser mostrado e até mesmo desejado, o órgão genital feminino precisasse ser claro ou pelo menos, não tão preto assim. As outras concordaram, até acharam graça. Todas eram brancas. Eu não consegui reagir, não vieram palavras, era só raiva e um enorme choque que me paralisou. Lembro de ter ficado no celular fingindo não estar ouvindo aquele absurdo, provavelmente elas nem notaram. A noite tinha acabado pra mim. Voltei pra casa me sentindo culpada por não ter respondido à altura, fiquei pensando se eu não deveria ter ao menos sido didática, por serem minhas amigas, e explicado que estavam sendo racistas e reproduzindo machismo, mas eu tinha mesmo essa obrigação? Elas, como amigas (e sem aspas), não deveriam ter pensado em mim antes de fazer esse comentário? Lembrei das muitas vezes em que minha autoestima foi destruída por situações como essa e que, se fosse antes, eu realmente acreditaria que precisava clarear a minha “buceta”.

A amiga do post nunca tinha ouvida falar no tal clareamento genital, ela nasceu branca, nunca teve que ouvir alguém dizer que ela tinha a vagina muito escura e que isso era um problema. Eu não to dizendo que apenas mulheres negras fazem esse tipo de procedimento, eu to dizendo é que de nós, isso é cobrado. Seja no imaginário dos homens, moldado pela indústria pornográfica sempre exaltando mamilos e “bucetas” rosadas, seja pela sociedade racista que sempre desvalorizou nossos corpos e os hipersexualizou da maneira mais suja possível. Pra mulheres negras, questões como essa, são muito mais complexas do que aquela máxima “ pra agradar macho”. É como quando a gente alisa o cabelo, por exemplo, pra ser mais bem vista, pra ser aceita. A gente poderia estar de bem com a cor da nossa genitália, se não nos fosse constantemente lembrado, que é ela feia e deveríamos pelo menos tentar melhorar, já que o padrão a gente nunca vai alcançar. E é assim sobre tudo que diz respeito ao corpo negro, todas as partes dele.

Eu aprendi a amar o meu corpo e o que ele representa, e isso não está necessariamente ligado a me achar bonita. Muitas vezes eu ainda me olho no espelho e não gosto do que vejo mas, diferente de antes, eu não quero ser outra pessoa. Não quero ter a pele branca, o cabelo liso ou o nariz mais fino, muito menos quero clarear o meu órgão genital. Hoje eu sei que o meu corpo também é uma forma de resistir. E sobre as amigas? Ainda são (muito) amigas e também passaram por um processo de desconstrução. Assim como a gente não nasce se odiando, ninguém nasce racista, nos é ensinado. O importante é reconhecer e estar disposto a mudar, agora eu exijo isso das minhas amizades.