Quem vai chorar pelo Museu Nacional?
Dois terços da população brasileira não visita museus ou centros culturais (página 137, gráfico 3). Na cidade que abrigava o Museu Nacional, isso significa que 4,5 milhões de pessoas nunca visitaram o prédio que ruiu. Ou nenhum outro prédio dedicado a história, cultura e arte. Essas pessoas vão chorar pelo Museu Nacional?
No Ceará, a Secretaria de Cultura do estado — a mais antiga do país — está com concurso aberto pela primeira vez na sua história. Das 102 vagas (todas de nível superior), 96 contam com salário inicial de 1300 reais. Menos de 1,5 salários mínimos para quem tenha formação em diversas áreas de ciências humanas e da informação, cultura e arte. Para arquitetura e engenharia civil, as outras 6 vagas, o salário é mais de 1000 reais maior. O governo do Ceará vai chorar pelo Museu Nacional?
A EC95 congela gastos públicos por 20 anos, o que inclui, obviamente, o orçamento destinado a educação, ciência, cultura e arte. O último concurso do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) foi em 2010. O do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — que atualmente está com seleção aberta — foi em 2009. O governo federal — de qualquer partido que seja, haja vista que a tesoura no orçamento de educação e cultura foi prática recorrente em todos os mandatos presidenciais — vai chorar pelo Museu Nacional?
A onda conservadora tenta cercear exposições como o Queermuseu, distorcer discussões históricas, negar séculos de evoluções científicas, e impedir a circulação de quaisquer conhecimentos que não sejam convenientes à sua ideologia retrógrada. A nota do prefeito do Rio de Janeiro sobre o incêndio ignorou totalmente o trabalho executado dentro do prédio, focando no fato de que o casarão foi residência da família imperial. Os conservadores vão chorar pelo Museu Nacional?
Triste fim é o do conhecimento no Brasil. Enquanto queima um museu que há anos funcionava com apenas 60% do orçamento necessário, a ideologia política que mais persevera no país é a de que a educação é maléfica, que a ciência é perigosa, que a cultura e a arte são indesejadas e que a história é desnecessária. Nós vamos chorar pelo Museu Nacional, pelo acervo perdido que, como tudo o que importa na vida, é de valor imensurável, e porque esse episódio é só mais um de uma tragédia anunciada desde que Darcy Ribeiro pontuou que a crise na educação não era uma crise, mas sim um projeto. Nós vamos chorar. Mas quem vai chorar por nós, quando nos matarem por defendermos esses ideais?
