Sociedade em desenvolvimento: o coletivo em foco

Quando ouvimos falar de economia, tomamos um susto e temos a tendência de associar o assunto ao capitalismo, burguesia e outros sistemas opressores. A princípio, não está tão absurda essa conexão de assuntos, por causa da frequência com que ocorrem associados na prática. Com a atualidade, porém, e a nova geração aberta a e à procura de diferentes experiências, de preferência em conjunto e compartilhada, novas propostas vieram surgindo. Novas propostas tiveram que surgir, para atender a esses jovens e adolescentes que já chegavam deslocados, sempre em busca de algo. Em busca de quê?

O tempo inteiro atrás de alguma coisa, parece que de si mesmo. Também em busca de alguma identidade (que dificultosamente o Brasil parece estar conseguindo construir para seu povo). Os padrões já não lhes atendiam, então surgiu a necessidade da mescla, da fragmentação, da reconstrução, e de tudo aquilo que é incerto e híbrido. A economia também teve que se readaptar à contemporaneidade. Deve ser a tal da pós-modernidade chegando em nossas portas em pleno século XXI a todo vapor. Ah, não, vapor não: antiquado demais, moderno demais e só. O moderno não mais nos atende.

E o pós-moderno, de tão flexível e ainda indefinido, parece lidar melhor com a realidade de grupos, da cooperação, da coletividade. Um tipo de economia muito interessante surge ainda na modernidade, logo após o capitalismo industrial, e parece ter tendência a grande aceitação e desenvolvimento nos dias de hoje: a economia solidária.

Uma diferença marcante entre a economia solidária e a economia capitalista está na cooperação entre os indivíduos que compartilham dela, ou seja, os sócios, digamos assim. Na economia capitalista, a que estamos mais acostumados, predomina o capital, onde o lucro é o mais importante de tudo, e a hierarquia é tradição, o que significa que quase nada é construído junto e pensando no bem comum, as ordens e decisões vêm da minoria que está em cargo superior. São pessoas mandando e obedecendo, sem um pensamento e um diálogo coletivos e construídos para atender os objetivos de todos ou pelo menos da maioria.

Economia, o que a gera, o que a movimenta? O consumo. Chegamos numa geração que, em parte considerável, abomina o consumo desenfreado, por fetiche gratuito, sem nenhuma necessidade. É bonito adotar alguma moda? Sim, é até político, e queremos arte em todos os aspectos, inclusive no visual, mas… É preciso comprar e jogar fora o tempo inteiro? É preciso trabalhar tanto, gastando o tempo da vida, gastar tanto dinheiro em artigos supérfluos? Não, não, não, não e não para várias perguntas a situações que nós mesmos aceitamos sem questionar.

O negócio é um negócio colaborativo! Em que a produção, ou principalmente a prestação de serviço, é pensada em conjunto de modo a atender a todos os participantes, bem como à demanda da sociedade. (Lembrando que a demanda da sociedade é, em parte, pensada por alguns poderosos que impõem “sutilmente” o que haverá de ser ou não o foco do mercado, que, por sua vez, gerará lucro e dinheiro para pouquíssimos.

Abstração pura pensar nisso. O capitalismo quase nada de concreto tem, a não ser seus péssimos efeitos).

Eu estava tendo um pouco de preconceito com alguns assuntos depois que comecei a penetrar nos estudos culturais. Estava achando que comércio, empresa, dinheiro nem deveria cruzar meu caminho, muito menos teoricamente. Depois que comecei a ter algumas experiências em relação a estabelecimentos cuja finalidade era econômica, mas que, ao mesmo tempo, ia muito, mas muito, além disso, comecei a me interessar por economia e abordagens afins.

Um dos estabelecimentos de que estou falando é um hostel, ou seja, um albergue, situado num lugarzinho encantador e mágico já tangendo o sertão mineiro. Refiro-me a Nasfadas Eco-hostel. O vilarejo em que se situa é Conselheiro Mata, distrito de Diamantina, local agradável e rico em cachoeiras e minerais. A energia que atravessa a região é inexplicável. Mas até aí é quase algo comum, apesar de não estarmos muito habituados a esse tipo de hospedagem, tendo predominância em nossas terras a pousada ou o camping. Em Ouro Preto, por exemplo, cidade extremamente turística, só recentemente começou a receber esse tipo de estabelecimento, sendo destaque para o Uai Hostel. Cito esses dois locais como bons modelos porque na maioria das vezes encontramos cobrança do mesmo valor do hotel ou é seguido o estilo individualista e privado já costumeiro (lembrando que mesmo nesses dois exemplos sempre há a opção privativa para os que não curtem a mistureba). Dentre várias características, uma delas deveria ser o preço baixo e outra a vivência coletiva, mas nem sempre são levadas em consideração, sendo o nome hostel usado algumas vezes enganosamente. Em outros países ou até estados são mais comuns esses estabelecimentos.

O que o hostel tinha que me chamou a atenção convencendo-me a ir novamente em Diamantina, recentemente visitada e não tão perto de Belo Horizonte, foi sua programação cultural. Claro, as cachoeiras e a natureza local são maravilhosas, assim como os templos religiosos alternativos que aí foram construídos, e eu já tinha vontade de conhecer o distrito. Eu, até então (e até hoje), nunca tinha visto uma hospedagem oferecer cultura no pacote da pernoite com direito ao já tradicional café da manhã.

Então, claro, eu precisava ir lá conhecer isso. Fui, fiquei mais do que pretendia e algumas perspectivas teóricas mudaram.

Mas aí vocês devem estar me perguntando: o que tudo isso tem a ver com aeconomia solidária? Esse hostel de que estava falando, por exemplo, é de um só dono, não é uma grande empresa, então não tem trabalhadores fixos, mas tudo o que nele é construído é pensando coletivamente. Desde a ideia de proporcionar experiências diversas para as pessoas que decidem vivenciar um pouco do ecoturismo ou para os mochileiros ou aventureiros que já fazem isso costumeiramente, até o descanso e a comunhão depois dos passeios à tarde e à noite. Tudo construído juntos, muitas ideias partilhadas. A programação cultural é construída convidando hóspedes-artistas/militantes/viajantes a fazer alguma intervenção cultural. Ou há o festival de cinema organizado pelo próprio dono. Tudo bastante democrático e agradável, conforme o interesse da galera que aí frequenta. O cardápio do almoço também é combinado democraticamente com quem está presente. Enfim, é tudo muito bem dialogado.

Não sei se estou correta, porque não são teorias que domino (e já me sugeriram pesquisar também economia criativa), uma vez que minha área de atuação é a literatura e as letras, mas acredito que esse hostel é um exemplo de economia solidária, porque desde a decisão coletiva nas escolhas até os empregados eventuais que são os hóspedes-amigos-mochileiros- artistas que são convidados a fazer parceria numa relação de trabalho-pagamento muito democrática, nem sempre sendo o beneficiamento apenas em dinheiro, mas às vezes troca de serviços ou trabalhos. E assim é bom para todos que aí convivem. E, além do comum que é a hospedagem e o ecoturismo, estar lá é uma escola, pois aprendemos muito em todos os sentidos, até porque grande parte dos hóspedes e, por consequência, dos trabalhadores, são professores. Lá, é muito conhecimento trocado: quem frequenta? Professores de diversos níveis educacionais e áreas do conhecimento, outros trabalhadores de escolas, trilheiros, ciclistas e galera do ecoturismo amadora e profissional, artistas de diversas áreas, políticos e militantes, enfim, lá sempre se deixa e sempre se traz algum aprendizado. Ah, vale ressaltar que nada é tratado nem com paternalismo nem com maternalismo, é tudo baseado em autonomia e respeito mútuo, construção comum, com ajuda de todos, mas sem nada de bandeja na mão de ninguém.

Vejam vocês como é interessante isso de economia solidária: essa associação que fizemos para criar um blog nosso faz com que estas palavras que buscam retratar algumas experiências e tendências da contemporaneidade cheguem em várias pessoas em quem provavelmente não chegariam, por não fazerem parte do grupo de leitores de cada escritor a princípio. Compartilhar entre leitores variados ampliará a divulgação de cada informação. Ou seja, os colegas escritores do blog ajudarão a divulgar os textos uns dos outros entre seus leitores. Não é fascinante fazer as coisas coletivamente? É às vezes mais do que uma relação empresarial, mas sim um estilo de vida.

O bem comum é a tendência mais bonita que estamos presenciando: finalmente estamos mudando a cara da economia, finalmente estamos buscando algo muito além do capital, muito bom saber que estamos ajudando a reconstruir esse país dando uma carinha mais coletiva a ele e com o foco no sustentável, social e humano. Ao fim, o consumo não é o problema. O adjetivo que lhe acompanha sim: irreflexo. Um consumo pensando no bem de todos não tem problema algum, temos mesmo que consumir — e produzir — e muito (arte, alimento, tecnologia útil etc.).

Como sugestão àqueles que se interessaram pelo assunto e que queiram entender melhor sobre a economia solidária, indico a obra de Paul Singer Introdução à economia solidária (2002), publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo.

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O blog da Benfeitoria é 100% colaborativo. A cada semana publicamos um novo texto de um autor diferente. Entre os escritores estão parceiros, visitantes, clientes e interessados na cidade, criatividade, cultura e economia criativa.

Carolina Leão é bacharel em Letras com ênfase em Literatura de língua portuguesa e espanhola, professora dessas línguas, também de artes, escritora com a primeira obra lançada no fim de 2015, a qual se trata de uma coletânea de contos Avenida de terra — mergulho no abismotempo do eu. É performer em Contos Sonoros, apresentação em que suas narrativas são lidas ao som de seu parceiro, também autoral, Rafael Pinheiro. Fotógrafa, viajante e aventureira por amadorismo.