A cegueira masculina sobre Beyoncé é um exemplo sobre a limitação de nossos cérebros?

“Eu não quero perder a Beyoncé!”. Esse era o choramingo de Amy Winehouse, a última grande lenda da música, em 2004, no Brit Awards. Ela passava por alguns repórteres com certa pressa, até que uma moça pede um pouco do tempo dela para entrevista-la uns segundos. Amy, ainda meio desconcertada, solta alguns “yeah… yeah…” e depois revela que não quer perder a oportunidade de ver Beyoncé, como se fosse uma fanzona. Naquele ano, Beyoncé tentava a carreira solo com seu primeiro álbum e se apresentou com a música que viria se tornar, para os britânicos, o hit daquela década: Crazy in Love.

Desde então, o sucesso de Beyoncé, como sabemos, foi crescente entre o público. Mas a crítica especializada e outros artistas homens sempre lhe cobravam posturas X e Y para ser merecedora dos aplausos de todo o planeta. Esse mesmo que vos escreve também já cobrou muito uma Beyoncé mais madura, conceitual e atenta às questões políticas do Movimento Negro. Afinal, ela não iniciava a carreira solo como uma novata.

A questão é que, com o tempo, a mãe da Blue Ivy foi, de forma paulatina, preenchendo todos os requisitos possíveis para que, hoje, pudesse ocupar o cargo de mulher mais poderosa da música no mundo. Cada vez vimos menos uma Beyoncé que aparece como “pessoa da mídia” e mais como artista e dona de si mesma. E ainda não conseguimos lidar muito bem com isso, com o fato de que quando falamos hoje de Beyoncé, se fala sempre de seu trabalho e muito pouco sobre sua vida. Queen B criou uma ambiência em volta de si mesma que torna quase impossível que se levante questões como “o que ela faz pra manter o corpo”, “como a maternidade mudou a artista”, “qual o tipo de homem que ela gosta”. E assim, ela deixou o trabalho em bastante evidência e isso ainda incomoda muita gente. “Como assim uma mulher jovem e bonita é notícia sobre o seu trabalho e não sobre o fato de ser jovem e bonita?”.

E os homens dessa indústria não sabem lidar bem com isso. E nós também, como espectadores, não sabemos lidar com isso. Porque se a mulher é bela, o assunto que deve rodeá-la é sua beleza. Mas com Beyoncé não tem isso. Então (nós) homens ficamos desconcertados de ver no palco uma mulher dona de si, que mostra o corpo, mas que as manchetes de jornais e sites não a apontam pelo corpo, mas sobre seus pensamentos expressos por meio da música. Então esse corpo negro a amostra se torna um perigo. E é mesmo!

Em 2015, quando Beck ganhou o Grammy de Álbum do Ano, Noel Gallagher criticou Kanye por ter se intrometido no prêmio, por achar que Beyoncé merecia muito mais aquele Grammy. Então o ex-Oasis foi ao fundo do poço e disse que Beyoncé não é artista porque balançar a bunda não é arte e que era isso que ela fazia para viver. Fica muito claro a misoginia nesse evento, pois se Noel acha que isso é a única coisa que Beyoncé faz, isso nos diz muito mais de Noel do que de Beyoncé. Ora, é notório que Beyoncé não é uma performer qualquer, tampouco uma cantora qualquer, em 2015 nós já tínhamos a Beyoncé magnífica que temos hoje e mesmo assim Noel tecia a crítica mais lugar-comum e equivocada sobre uma mulher. Se a única coisa que ele conhece de Beyoncé é a bunda, é porque ele não tem maturidade cerebral para processar tantas informações juntas e só consegue processar aquela que parece a mais fácil e mais apelativa aos seus olhos fáceis. Ou seja, Noel aponta em Beyoncé uma limitação que só existe nele mesmo, afinal, não é culpa dela se ele é unidimensional.

Mas em 2017 Beyoncé viria a perder de novo o Grammy de Melhor Álbum para outra pessoa. Dessa vez uma mulher. Ai gritaram do alto do Vale dos Trogloditas: “Agora vocês não podem nos acusar de machismo!”. Imagina… como não? Se o que vocês fazem pra mascarar o machismo é justamente se esconder atrás de outra mulher? Carlos Santana, dono de vários hits nos anos 2000, seguiu os mesmo passos de Noel e teve a coragem (porque precisa de muita!) de dizer que Beyoncé não era cantora como Adele. Assim disse ele sobre a britânica: “Adele sabe cantar mesmo. Ela não usa dançarinos e grandes cenários e truques, ela apenas ficou lá e cantou, e foi só isso. Por isso ela venceu.”.

Nós homens de fato, mesmo os que trabalham com música, devemos ter um cérebro de merda. Porque não é possível que a gente não consiga perceber as imagens de um telão, a dança, a moda, o corpo, a música e a voz tudo de uma vez só. Será que nosso cérebro é tão fragmentado, que só conseguimos perceber uma coisa por vez? Será que é por isso que eles só conseguem ouvir cantores homens e cantoras que apenas usam a voz como performance? Será que é por isso que o pop masculino, gênero que de certa forma exige performances mais complexas, é tão monotemático?

1) Como é possível alguém dizer que Beyoncé não é cantora?; 2) como é possível alguém que trabalha com música desaperceber que Beyoncé tem uma grandiosa extensão vocal?

Uma vez assisti a um vídeo no Facebook de um pastor evangélico dando algum tipo de sermão sobre a incapacidade do homem de pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo. No exemplo, ele contava um causo sobre um homem que chegava em casa do trabalho e ouvia a mulher lhe contando mil problemas domésticos. Em tom de piada, o pastor dizia que a cabeça da mulher é formada por várias caixinhas e que a cabeça do homem só comporta uma (ou duas, não lembro mais). E que o homem não consegue abrir várias caixinhas e absorver tantas informações. Por fim, o pastor deixava como conselho às mulheres, que elas deixassem os maridos descansarem e celebrava (sim, celebrava!) o fato de que nós homens somos assim mesmo. É porque eu não creio que esse pastor esteja certo que eu fiz esse texto. Não quero crer que meu cérebro só comporta uma caixinha, porque se assim for, os homens estarão fadados à mediocridade. Como algo tão limitado pode ser celebrado? Um cérebro de várias caixinhas é notoriamente superior ao cérebro de uma. Não quero crer que é o meu cérebro masculino que me impede de processar uma performance complexa de música, mas sim o machismo.

É por isso que Beyoncé pra mim é a prova de que o feminismo é possível dentro de um cenário tão machista e competitivo como a Indústria Fonográfica. A própria Adele reconhece que Beyoncé é “monumental” e que merecia o prêmio; Katy Perry, quando apontada como a maior artista feminina de nosso tempo, em tom de comédia pediu que não blasfemassem o nome de Beyoncé; Amy Winehouse, que não chegou a conhecer músicas como ***Flawless, Pray You Catch Me, Daddy Lessons, Mine, Freedom e que, certamente, ficaria feliz por saber do cover de Back to Black (diferentemente de seu pai), estava satisfeita com a Beyoncé de Crazy in Love; Björk, a mais original artista que o mundo já conheceu, revelou ser obcecada por Beyoncé.

De fato, a islandesa, que inclusive curte Beyoncé desde o tempo das Destiny’s Child, revelou ter percebido semelhanças entre o Lemonade e o Vulnicura e que adoraria saber se houve de fato uma inspiração, pois, segundo ela “é importante mulheres creditarem mulheres.”. Ainda segundo Björk, o fato de o Lemonade ter sido lançado num período em que a misoginia mostrou sua face durante as eleições presidenciais nos EUA é um fato importante e que Beyoncé é parte fundamental de uma geração de mulheres que não mais permite que os erros dos homens sejam de responsabilidade delas.

Assim, se de fato o nosso cérebro masculino for feito de apenas uma caixinha, vou deixar que as mulheres me guiem, afinal, elas estão mais aptas que eu para reconhecer a beleza da arte plural de Beyoncé.