
O menino que sempre pulava o último degrau do ônibus
Ontem morreu
O menino que sempre pulava do ônibus
O último degrau;
Suicidou-se.
Tinha pouca idade e talvez tivesse um bom futuro.
Mas teve a vida interrompida e terminada.
Foi-se prematuro.
Sua característica mais marcante era
Que toda vez que descia
Pulava o último degrau da escadinha.
Não era considerado bonito, nem considerado boa gente.
Mas ninguém esquecia
Do degrau que ele pulava contente.
Não falavam com ele em momento algum
Mas eram atentos quando saltava.
Uma rotina já muito comum,
Como uma peça programada.
Mas antes de morrer,
O pequeno artista
Ficou mais de mês
Sem pular o último degrau,
E ao invés, descia um de cada vez,
Com os pés firmes num sinal.
E ninguém falou nada.
Muito menos perguntou.
Apenas pararam de olhar,
Desviaram a cabeça para outro lugar.
Ainda assim,
Semanas mais tarde,
Quando ele não mais podia pular,
Sua morte foi tida com surpresa.
Não conseguiram entender por que
Morreu o menino que pulava o degrau com delicadeza.
Agora o entretenimento não mais existia
Porque havia morrido
Aquele que só como espetáculo vivia.
O que eles não notaram
É que o menino já estava
Completamente morto
Desde a primeira vez que ele não pulou o degrau,
E ninguém notou por puro conforto.
