Tarot card, Leonora Carrington

O menino que sempre pulava o último degrau do ônibus

Benjamin Cícero
Nov 7 · 2 min read

Ontem morreu

O menino que sempre pulava do ônibus

O último degrau;

Suicidou-se.

Tinha pouca idade e talvez tivesse um bom futuro.

Mas teve a vida interrompida e terminada.

Foi-se prematuro.

Sua característica mais marcante era

Que toda vez que descia

Pulava o último degrau da escadinha.

Não era considerado bonito, nem considerado boa gente.

Mas ninguém esquecia

Do degrau que ele pulava contente.

Não falavam com ele em momento algum

Mas eram atentos quando saltava.

Uma rotina já muito comum,

Como uma peça programada.

Mas antes de morrer,

O pequeno artista

Ficou mais de mês

Sem pular o último degrau,

E ao invés, descia um de cada vez,

Com os pés firmes num sinal.

E ninguém falou nada.

Muito menos perguntou.

Apenas pararam de olhar,

Desviaram a cabeça para outro lugar.

Ainda assim,

Semanas mais tarde,

Quando ele não mais podia pular,

Sua morte foi tida com surpresa.

Não conseguiram entender por que

Morreu o menino que pulava o degrau com delicadeza.

Agora o entretenimento não mais existia

Porque havia morrido

Aquele que só como espetáculo vivia.

O que eles não notaram

É que o menino já estava

Completamente morto

Desde a primeira vez que ele não pulou o degrau,

E ninguém notou por puro conforto.

    Benjamin Cícero

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