Sobre os dias em que preferíamos ser uma pedra

Benjamin Cícero
Jul 20, 2017 · 3 min read

Tem dias na vida de todas as pessoas em que preferíamos ser uma pedra ao ter que enfrentar a vida como ela é. Esses dias são mais comuns quando você é depressivo. Estou num dia desses no exato momento.

Para mim, parece que ter que levantar para fazer qualquer coisa já é um trabalho braçal mais pesado do que eu posso suportar. Eu, hoje, simplesmente não me acho bom o suficiente para nada, nem para ser uma pedra, na verdade.

Você já pensou no quão trabalhoso é atrapalhar os caminhos das pessoas por aí? Ser uma pedra é tão cansativo quanto ser uma pessoa com problemas psiquiátricos. Às vezes acho que tudo que fazemos não tem nexo nenhum, e há vezes em que eu tenho certeza disso.

Ando tão desacreditado em tudo que se me fizessem tropeçar eu agradeceria à pessoa por ter me colocado onde eu já deveria estar, no chão.

Esses dias eu simplesmente não entendo muito das coisas. Enterro-me em comida e trabalho e espero que o tempo faça a coisa que faz de melhor, passar.

Num dia que eu quero ser uma pedra eu me finjo de uma. Enrolo-me bem forte num amontoado de cobertor e brinco de estátua comigo mesmo. Se eu me mexer em menos de duas horas eu perco. Nesses dias nem o café mais forte do mundo me deixa feliz. Café fraco não ilumina vidas.

Estou emputecido com a minha escrita. São diversas as vezes em que tento escrever meu livro, e também são diversas as vezes em que penso em apagá-lo e parar de usar o título de escritor. Escritores deveriam ao menos saber escrever, não é mesmo?

Sempre tive o sonho de contar histórias, mas agora que entro na fase adulta da vida percebo que o tempo todo estou copiando a identidade dos outros. Talvez eu não sirva para escrita, e nem para ser uma pedra; há outras profissões no mundo que não necessitam sonhar?

Achei e ainda acho que não sirvo pro trabalho convencional, etiquetar fitas não é para mim. Ou fazer planilhas, para mim é a mesma coisa.

Queria conseguir assumir a pessoa que sempre quis ser pro mundo, mas ela é tímida e tão complexada que o Complexo Golgiense preferiu ser chamado apenas de Golgi perto dela.

Eu queria um aval. Deus poderia fazer isso, se é que ele tá lá — ou não tem coisa mais importante para fazer. Caro Deus, me mande um aval dizendo que estou fazendo as coisas certas, ou um tutorial de como fazer as coisas de maneira correta, sem isso eu vou continuar fingindo ser uma pedra.

Ninguém deveria ser obrigado a viver em dias em que fingir-se de morto é menos trabalhoso do que abrir os olhos. Digo, eu não entendo muito das coisas, muito menos hoje, mas me diga aí, qual a taxa de produtividade de uma pedra?

Exato.

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Benjamin Cícero
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