Pesadelos de Catarina

Deitada na cama, Catarina se debatia e arfava em sofrimento. Todos os dias, às 2h22, a mulher acordava entre gritos e lágrimas, assustada demais para falar qualquer coisa sobre o que tinha acontecido nos seus sonhos.

O marido e a filha de Catarina já estavam acostumados com aqueles episódios diários. Houve um tempo em que Jefferson pedia todas as semanas para que sua esposa visitasse algum psicanalista e buscasse tratamento, no entanto com medo de revirar as feridas do passado, ela sempre dizia não.

Enquanto Jefferson arrumava a filha para a escola e tomava o café da manhã, Catarina ficava na cama por horas, sem ter um horário certo para se levantar. O marido foi até o quarto, beijou a testa dela e se despediu, fazia parte do seu ritual do cotidiano.

Quando Catarina despertava, era possível ver em seu rosto os reflexos de uma noite mal dormida. As olheiras permanentes e a aparência cansada demonstravam sua falta de energia vital. Seus cabelos pretos encaracolados contrastavam com sua pele branca, tão clara que era possível enxergar as veias esverdeadas e azuladas no seu rosto.

Espreguiçou-se lentamente, pegou o celular e configurou para despertar após trinta minutos. Parecia que o seu corpo e a mente nunca estavam preparados para enfrentarem o dia. Catarina tinha tantos sonhos que se fosse inventar de anotá-los, precisaria de um caderno enorme. Nem sempre ela conseguia se lembrar deles e quando se recordava, procurava algum significado para aquelas mensagens do seu perturbado subconsciente.

Novamente, Catarina mergulhou no ambiente dos sonhos, ou melhor, dos pesadelos, já que quase sempre se sentia assustada e acordava desesperada, como se corresse algum perigo. Um cavalo preto de olhos vermelhos estava todo agitado. A criatura estava com tanta raiva que uma baba consistente escorria da sua boca. A mulher estava atordoada, sem entender o que estava acontecendo, até sentir os dentes do cavalo cravados em seu pescoço. O bafo quente fez os seus pelos arrepiarem e a dor fez com que Catarina despertasse no mesmo instante.

Saiu da cama e foi até o banheiro. Olhou-se no espelho e percebeu como parecia uma morta-viva, com seus cabelos bagunçados e olhos vermelhos. Sentiu uma coceira intensa na nuca e ao tocá-la, percebeu que estava sangrando. Tirou a roupa com pressa e entrou no chuveiro em uma tentativa agoniada de limpar sua ferida. Quanto mais água escorria pelo seu corpo, mais sangue descia pelo ralo.

– Isto não é possível… — pensou em voz alta.

Espirrou um antisséptico e procurou no armário algum antibiótico, mas não encontrou. Sentiu o corpo tremer quando pensou no cavalo. Sua pele ardia de febre e mesmo tendo acabado de tomar banho, gotas de suor brotavam da sua testa. Sentiu um nó na garganta e a boca ficando seca.

Andou até a cozinha, se segurando pelas paredes, sentia como se o corpo estivesse desmanchando de tanto calor. Encheu de água o copo e quando ia levá-lo até a boca, o objeto caiu no chão e quebrou em pedaços. Sentiu uma tontura. Os joelhos cederam e os fragmentos do vidro entraram na pele da mulher.

– Catarina, você está bem? — Jefferson disse, preocupado ao ver a mulher machucada e caída.

Os olhos da mulher estavam brancos e o seu corpo se debatia no chão. O marido ligou para a emergência.

– O que está acontecendo com a mamãe? — a filha chorava vendo o estado da mãe.

– A mamãe vai ficar bem, filha.

Catarina viu o cavalo na cozinha, desta vez a criatura estava pegando fogo e parecia estar determinada a matá-la. Viu uma boneca sorrindo para ela e se divertindo da sua condição. Contou até três, aquilo deveria ser um sonho.

***

Os olhos da mulher ardiam, como se tivessem jogado ácido neles. Fez um esforço para se levantar e sentiu algo a segurando. Quando finalmente conseguiu enxergar, Catarina viu dois anjos carregando-a. Girou o pescoço para o lado e viu sua filha sem vida no chão e o marido agonizando.

– Fique calma. Você está segura agora… — um dos anjos tentava tranquilizá-la.

– Nós vamos cuidar bem de você. — Catarina percebeu o sorriso maligno no rosto das duas criaturas.

Catarina tentava falar, mas as palavras não saíam da sua boca; tentava se mexer, mas o máximo de movimento que tinha era o do pescoço, como se os seus ossos estivessem quebrados.

O corpo da mulher estava fraco demais para perceber o que estava acontecendo. Acordava e dormia, sem parar, já não sabia onde estava, o que tinha acontecido ao marido e à filha, aonde tinha ido o cavalo preto e de onde tinham surgido aqueles anjos.

Sentiu uma picada no braço e os tremores pararam. O coração voltava a bater normalmente e a mulher já não respirava mais com dificuldade. Olhou para o próprio corpo e viu que vestia uma camisa de força.

– Onde eu estou? Onde está o meu marido e minha filha? — Catarina tentava se mexer, mas não conseguia. Enfurecida a mulher mostrou os dentes. Exigia que lhe contassem a verdade.

– Então, senhora Catarina, você não se lembra do que aconteceu?

– Tinha um cavalo… Uma ferida no meu pescoço… O copo da água se quebrou… — as palavras saiam com custo de sua boca e os fragmentos de sua memória pareciam não fazer sentido.

– Você teve um surto psicótico. Seu marido nos ligou, mas quando chegamos lá, ele já estava morto.

– Não consigo entender… O que aconteceu? — as sobrancelhas levantavam em sua expressão sem vida.

– O pescoço dele estava quebrado.

– Minha filha. O que houve com ela? — as lágrimas desciam pelo rosto da mulher.

– A pequenina teve a garganta perfurada com um pedaço de vidro.

– Mas… Por que eu fui a única sobrevivente? Quem pode ter feito isso?

– Você ainda não entendeu, não é? — o homem se afastou e Catarina tentou digerir as informações que tinha recebido.

A mulher não conseguia parar de chorar. Catarina fechou os olhos e teve flashes do que tinha acontecido. Viu uma daquelas bonecas que costumava temer quando era mais nova com uma aparência diabólica e não pensou duas vezes, com esforço pegou um pedaço do copo quebrado e bateu nela, lavando as mãos com um líquido escarlate. O cavalo preto estava em chamas e respirava com tanta força que era possível ouvir o ar entrando e saindo do seu corpo. Catarina se segurou na criatura e ao ver a boca aberta com os dentes enormes daquele demônio peludo, ficou com medo de que ele pudesse mordê-la novamente. Sentiu uma força sobrenatural mover os seus braços e girou a cabeça do bicho com força, pondo um fim naquele tormento.

Chorava e ria histericamente ao mesmo tempo. Catarina parecia ter perdido o restante de juízo. A mulher balançava a cabeça para frente e para trás.

– Vai ficar tudo bem… — um homem colocou um comprimido na boca dela e pediu para que ela tomasse água. Sem ter para onde correr, Catarina obedeceu.

O anjo abriu um sorriso maléfico e com uma espada de fogo avançou sem dó em direção à Catarina.

***

Catarina gritou tão alto e sentiu tanto medo, como nunca tinha acontecido antes. A mulher se levantou e foi até o banheiro, onde percebeu que as suas mãos estavam cheias de sangue. A aparência ainda estava péssima.

Os braços carregavam cicatrizes, como se a mulher tivesse se envolvido em algum acidente. Em frente ao espelho, Catarina percebeu que suas pupilas estavam estranhamente dilatadas. O silêncio foi quebrado por um barulho na cozinha.

Não havia tempo para deixar os medos a dominarem, a mulher sentira que tinha dormido demais. Ao entrar na cozinha, Catarina viu o marido e a filha no chão, ambos sem vida. Ela queria gritar que tudo aquilo não se passava de um sonho ruim, mas antes que conseguisse, as portas da casa se abriram e dois anjos a sedaram.

– Eu preciso de ajuda. Eu prometo que vou marcar uma consulta com a psicóloga esta semana… — Catarina dizia com a voz falha para si mesma.

***

– O que está acontecendo com a mamãe? — Catarina reconhecia aquela voz infantil.

– A mamãe vai ficar bem, filha.

Pai e filha aguardavam a melhora de Catarina durante anos. Os dois não aguentavam mais ver aquela mulher atormentada pelos seus pesadelos e ao mesmo tempo inerte na cama, como se estivesse presa em outra dimensão. O médico não havia prometido resultados quando falou para Jefferson sobre aquela droga experimental que estava sendo testada em um dos principais institutos do sono do Brasil.

Catarina sonhou que estava mergulhando em um rio de águas escuras e não conseguia distinguir nada. A mulher nadava sem saber para onde ir, até que ouviu as vozes de sua família e decidiu segui-las. Com muito custo, ela tentava se movimentar, mas uma corda presa a uma pedra a segurava. Era agora ou nunca, Catarina sentia o ar faltando em seus pulmões e a água entrava sem parar pela sua boca. Lutou pela própria vida, ela não queria morrer. Colocou toda a sua força nos músculos frágeis e conseguiu em fim se libertar. Nadava com vontade até encontrar uma luz, conseguir por a cabeça para fora da água e respirar novamente.

Naquele quarto branco do hospital, Catarina abriu os olhos e viu que duas pessoas a estavam observando. No começo estava um pouco confusa, até perceber que eram Jefferson e sua filha. A menina agora era adolescente e o marido estava com os cabelos ficando grisalhos e algumas rugas no rosto.

– Ela acordou do coma! — gritou Jefferson com alegria, pedindo para que o médico e as enfermeiras viessem logo até o quarto.

– Anote que a paciente acordou às 2h22. — o médico pediu à enfermeira e sorriu diabolicamente para Catarina.

Ao ouvir aquelas palavras, a mulher percebeu que estava ligada em diversos aparelhos. Enquanto a família chorava emocionada, as lágrimas escorriam pelos olhos de Catarina que já não sabia se realmente tinha acordado ou tudo não se passava de mais um sonho. Os seus pesadelos pareciam não ter fim.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.