Dia de nascer — e é pic, pic, pic.
Entre o nascer e o morrer tem o meio do caminho.
Não sou muito da astrologia. Mas, gosto das historinhas todas que envolvem tudo — as humanas e não tão humanas assim. Na mitologia grega, escorpião, é regido por Plutão e consequentemente Hades. O maior escorpiano de todos, Hades, deus do submundo.
Quando Hades aparecia na superfície, todos fugiam. Apesar de não buscar almas para o submundo Hades trazia consigo a energia do submundo. Aquelas podridões que ninguém quer encarar e que a gente costuma encarar só diante a morte. Cabia ele aliviar as almas de deixarem esse fardo para trás. Hades vivia, em sua plenitude no submundo, até ser flechado por Eros e conhecer Perséfone, deusa das estações, sua futura esposa.

Existe algo belo em morrer — tanto em vida quanto em morte. Hoje, eu nasci, num corpo de menino, com uma cabeça nem tanto de menino e pensando nas coisas mais coloridas possíveis. Cresci, amei, gritei, brinquei e caí. Assim como todo mundo que faz até seus vinte e tantos. Lembrete: antes de 25 é vinte e poucos. Acho que vivi a vida como um filho da Hades.
Tive que morrer muitas vezes em vida. Mais vezes que minhas mãos possam contar. Como Hades, tive que abrir mão da solitude do submundo, para buscar a vida — que numa língua bonita chama Eros. A vida perdeu a cor muitas, muitas e muitas vezes enquanto Eros me atravessava de um jeito atordoante.
Não posso e, na verdade, não consigo mentir. Viver não tem sido fácil. Acredito que isso se deve, entre mil coisas, que a gente não se propõe a morrer em vida. Encarar a própria alma nas suas profundezas em vida, e dentro das possibilidades, a alma dos demais é um processo divino. Tenho acreditado que não há nada mais sagrado que o humano. E acho que o sagrado é grande.
Nesse sentido, não há nada mais divino do que se deixar morrer em vida. Enterrar a criança machucada, o amor que foi embora, o avô que nunca conheceu, o amor que nunca aconteceu, o filho que nunca se foi e a pessoa que nunca será. É um processo que poucos deuses e poucas pessoas se permitiram viver.
Não há porque temer tal momento. É definitivo: ele chegará. Assim como meu aniversário e assim como o próximo. Assim como o dia que nem eu e nem as pessoas que eu amo estarão mais aqui. Nesse dia, a morte nos obrigará ver a vida. Ou a vida nos obrigará ver a morte. O fim está próximo e que ele seja o mais próximo possível, que seja em vida e colorido.
Acredito que será. A vida não tem graça se não for assim. Ver que o que você era não é, o que você foi não vai ser e possivelmente a única coisa que a gente tem tá aqui, hoje, em nossa volta. A felicidade e a tristeza são momentos de microssegundos. Aquela coisa de impermanência.
Por isso, esse desabafo. Eu tenho vivido um tempo muito difícil, e acredito que não seja só eu. Acredito que Eros me atravessou novamente e de um jeito pouco esperado e eu sai da onde eu estava. A Persefoné era linda.
Ainda tô de ressaca, mas não vejo a hora dele voltar de novo, e possivelmente, ele virá. Assim como tudo que a gente quer. O curso de mestrado, o filho que ainda não chegou, o dia bonito de amanhã. Pra isso tudo isso acontecer a gente só tem que ter uma condição básica: não ter e deixar esse não ter morrer.
Mas acho que pra isso Hades há de surgir. Por isso, comemoremos tudo. O pic, pic, pic, a vida e a morte. Acho que esse é o único jeito possível de viver. Afinal, entre o nascer e o morrer, só tem isso: viver.
E um colorido trem de cores pra todos nós.
Lucas, agora com 26.