A Transformação da Sala de Aula — Uma necessidade de Disrupção

A Escola de Atenas — A Escola de Atenas (Scuola di Atene no original) é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael e representa a Academia de Atenas. Foi pintada entre 1509 e 1511 na Stanza della Segnaturasob encomenda do Vaticano.

Não há mais que se falar em “se” devemos mudar a educação, mas em “como” e “qual” o melhor caminho para que possamos fazer com que a educação possa atender aos anseios futuros de nossa sociedade.

É indiscutível que estejamos vivenciando um momento social-econômico disruptivo, diretamente relacionado a forma que a tecnologia impactou nossas vidas nos últimos anos. Como estamos inseridos diretamente nessa mudança, pouco pensamos como essa evolução afetou nossas relações e, mais que isso, em qual velocidade isso ocorreu.

Apenas para ilustrar, a imagem abaixo demonstra a evolução do número de usuários da Internet desde 1995 até 2013, ou seja, por um período menor que 20 anos:

Podemos relacionar essa curva de crescimento com os hábitos de compra na internet quando atrelamos o crescimento do faturamento das vendas por esse meio no Brasil:

Por óbvio, esse crescimento demonstra que há efetivamente uma mudança no comportamento das pessoas que, ao invés de se dirigirem fisicamente aos estabelecimentos, passam a dispor da comodidade de comprarem diretamente dos seus dispositivos eletrônicos, afetando fortemente a forma como se consomem os produtos.

Essa mudança de hábito, com uma simples reflexão, afeta:

  • A forma como é feito o relacionamento com o consumidor;
  • Planejamento de expansão do comércio;
  • Criação de centros de distribuição;
  • Fluxo de logística reversa;
  • Legislação consumerista, contratual, tributária, criminal, etc;
  • Reformulação dos postos de trabalho para atender a essa nova dinâmica em que a loja física não é mais necessária e a figura do vendedor fica relativizada.

Além dessas mudanças, que reforçaram o advento da Web 2.0 (alguns já defendem que vivenciamos a Web 3.0), a escalada das redes sociais também modificou a dinâmica de nossas interações sociais.

Outro grande impulsionador da nossa mudança de comportamento são os smartphones e tablets, dispositivos que simplesmente revolucionaram a forma como consumimos a informação e nos mantém conectados as redes sociais. Algumas redes sociais, inclusive, como Instagram e Periscope só funcionam por meio da utilização desses gadgets. Ao caminhar nas ruas, um olhar um pouco mais atento permite observar o quanto as pessoas hoje estão conectadas, dependentes e interdependentes desses dispositivos. Até mesmo o sistema Metropolitano de São Paulo (Metrô), hoje faz campanha para que as pessoas não utilizem os aparelhos enquanto se deslocam, tanto para evitarem acidentes quanto para fazerem com o fluxo de pessoas ocorra de forma normal.

O mais impressionante de todas essas transformações é que o primeiro smartphone que ditou o rumo de todas as demais marcas, o iPhone da Apple, teve sua primeira versão lançada em junho de 2007, ou seja, apenas 8 anos atrás do momento em que escrevo este texto, um pequeno “cisco” na história. Jamais presenciamos avanços parecidos em nenhum outro momento da história e, a analisar os fatos recentes, a tendência é de uma aceleração cada vez maior desse processo, com impactos incomensuráveis em nossas vidas. A esse cenário evolutivo abrupto, com verdadeiros “saltos” evolutivos, dá-se o nome de disrupção tecnológica.

Os próprios modelos econômicos, acostumados a cenários de previsibilidade, controle, estagnação, escassez, manobras com resultados tidos como óbvios, já não mais apresentam as respostas esperadas, trazendo uma grande interrogação em relação ao futuro de diversas nações, sejam países desenvolvidos ou em economias em desenvolvimento. O bloco composto por Brasil, Rússia, Índia e China, no momento atual, enfrentam exatamente um problema em termos de arrefecimento econômico baseado em políticas econômicas que não mais respondem às exigências do atual mercado globalizado.

Pois bem, e o que a metodologia educacional e a escola têm a ver com isso?

A organização escolar, como coloca Hamilton (1992) é um instrumento de “eficiência social”. Hamilton (1992) elabora uma pesquisa no sentido de identificar panorama histórico e a evolução e origem dos termos “sala de aula” (classroom) e curriculum, especialmente nos períodos que abrangem a era medieval até a idade moderna, em meados da 1ª Grande Guerra Mundial. Nesse contexto, visa traçar uma relação entre as mudanças sociais ocorridas ao longo da história e as mudanças pedagógicas que acompanharam essas transformações.

Nesse contexto, ao contrário da maioria dos autores que defendem que a educação nada mais é que um mecanismo de controle social das classes dominantes, prefere a utilização do termo “eficiência social”, de forma a analisar a concepção de eficiência social relacionada à forma pedagógica expressa naquele ambiente.

Em relação ao processo de aprendizagem, Hamilton afirma que ele é fruto de três interações distintas, quais sejam, “socialização”, “educação” e “escolarização”. Focado na análise histórica desta última, observou que o processo de escolarização teve início com a Igreja Católica, que o utilizava como meio de simplesmente disciplinar seu quadro de professores e pregadores, fruto das transformações pós instituição do celibato clerical. Já os Calvinistas e Luteranos, utilizavam a escolarização como mecanismo de disciplinação da população em geral, ou seja, com um viés indubitavelmente político. Para os economistas da era moderna, pós revolução industrial, a escolarização deveria servir de modo a atender às necessidades do mercado de trabalho e à manutenção do crescimento econômico. Desde a Segunda Revolução Industrial, vivenciamos um modelo de educação inglês focado em atender às necessidades do mercado de trabalho, moldando a mão de obra para ocupar cada espaço na sua respectiva cadeia hierárquica.

Assim, é possível concluir que o processo de escolarização, mais especificamente suas mudanças pedagógicas, sempre estiveram intrinsecamente relacionadas às mudanças sociais vividas em cada momento da sociedade, de tal forma que se confirma a ideia de que a escolarização é um processo de “eficiência social”, utilizada de forma a atender a um interesse social qualquer, seja político, administrativo ou econômico. Da mesma forma, a concepção dos termos “sala de aula” e “currículo” foram afetados de forma a corresponder às necessidades dos processos de escolarização que nunca estiveram a serviço dos indivíduos, mas daqueles que tinham o controle do poder econômico.

Some-se isso ao ciclo experiencial proposto por John Dewey em 1938 (que gira em torno de OBSERVAÇÃO > REFLEXÃO > CONCEITUALIZAÇÃO > APLICAÇÃO) que predomina nos sistemas que se julgam inovadores até hoje, com pequenas evoluções conceituais, temos uma situação anacrônica e ao mesmo tempo paradoxal, de fazermos parte de uma sociedade altamente moderna, permeada por um sistema de ensino que pouco evoluiu nas últimas décadas.

As figuras abaixo são bastante icônicas e demonstram o fato narrado:

Sala de aula do século XIX
Sala de aula do século XXI

Como é possível se verificar, por mais que estejamos imersos em profundas mudanças, teimamos em nos manter atrelados a um sistema educacional que não mais corresponde ao momento em que vivemos, formando aqueles que serão os futuros condutores da sociedade para um futuro emergente, baseado em conhecimentos e experiências do passado que supostamente deverão trazer soluções para um futuro ainda não revelado.

Não se trata de dizer que uma metodologia esteja certa ou errada, mas sim obsoleta. Por serem as metodologias apenas reativas, ou seja, concebidas sob um acontecimento ou experiência anterior, necessitamos sempre de um fato pretérito como base para que surjam novas propostas e soluções a partir da observação e reflexão sobre aquele fato, sempre analisado de forma isolada.

Aprender a partir de um fato pretérito também tem seu valor, mas precisamos começar a deixar de adotar modelos fechados que nos levem a igualmente “modelar” nossa consciência, fazendo com que percamos a criatividade e, muitas vezes, soluções de problemas que deixam de ser efetivamente resolvidos por não se enquadrarem dentro de um esquema esperado ou proposto de mudança. Necessitamos criar consciências que busquem a ruptura de padrões e tragam soluções inovadoras, nosso momento demanda isso.

O sistema existente é reativo e pouco criativo, pois tendemos a esperar um modelo pronto para resolvermos a maioria das situações. Isso faz com que percamos o processo criativo, tendendo a reproduzir soluções pouco eficazes e nada profundas.

O caminho é criar um conceito de metodologia baseado na emancipação da consciência do aluno, como um agente de mudança de um futuro emergente e real, entregando a ele seu papel de protagonista na construção de uma sociedade mais próspera, justa e humana, por meio do desenvolvimento de uma visão em que se busque a consciência coletiva ecossistêmica em detrimento da atual visão meritocrática egocêntrica, que já se demonstrou insuficiente para trazer equilíbrio e justiça social ao redor do globo.

Diante disso, colocados que estamos em um cenário extremamente reprodutivista, necessitamos unir mentes e esforços na criação de uma nova consciência transformadora, que reflita efetivamente no momento em que estamos inseridos e na educação que estamos proporcionando, ou seja, se ela é suficiente para corresponder ao cenário que vivenciamos e será capaz de formar as gerações futuras, responsáveis por ditar os rumos da sociedade nos próximos anos.

Qual a sua ideia sobre a educação do futuro?

Referências Bibliográficas

HAMILTON, David (1992). A Trajetória de Uma Pesquisa Histórica: sobre as origens dos termos classe e curriculum. Trad. Tomas Tadeu da Silva. Teoria & Educação, Porto Alegre, vol. 6, pp. 3–52.

SENGE, Peter et Al (2004). Presença: Propósito Humano e o Campo do Futuro. Trad. Gilson César Cardoso de Sousa. Cultrix, São Paulo.