Transporte da produção. Foto: Matheus Bernardes

MARCAS DA EVOLUÇÃO NO CAMPO

A vida no campo sempre foi repleta de desafios. Historicamente, o homem proveniente da atividade agrícola tinha uma rotina de trabalho rudimentar. Essa realidade vem mudando profundamente desde que a mecanização passou a integrar esse cotidiano.

Por Matheus Bernardes*

Vieram cercas, porteiras, aramados/ Veio o trator com seu ronco matraqueiro/ E no tranco sem fim da evolução/ Transformou a paisagem dos potreiros/ E ao contemplar o agora de seus campos/ O lugar onde seu porte ainda fulgura/ O velho taura dá de rédeas no seu eu/ E esporeia o futuro com bravura”**

Atualmente, os processos de transformação da vida no campo estão condicionados à inovação tecnológica. A mecanização é responsável pela expansão das áreas de cultivo e facilitar a vida do trabalhador rural. Tal processo mudou a rotina da produção e as relações de trabalho nas zonas rurais. O homem, que sempre foi dependente da natureza e da produção proveniente do campo, teve sua realidade alterada pela mecanização, que prossegue inovando-se a passos largos.

Visitamos os municípios com maior produção de arroz e soja na fronteira oeste do Rio Grande do Sul — Alegrete, São Borja e Uruguaiana. Suas produções são de, respectivamente, 56.762 ha (representação de hectare, unidade de medida de área. Cada ha equivale a 10.000 metros quadrados) de arroz e 23.750 ha de soja. Em São Borja, são plantados em torno de 60.000 ha de soja. Já em Uruguaiana são cultivados 81.555 ha de arroz. A partir daí, coletamos entrevistas com produtores rurais, de diferentes portes, para entender como a mecanização do campo transformou suas vidas em diferentes âmbitos.

Colheitadeiras, semeadeiras e tratores foram os principais maquinários agrícolas que possibilitaram a produção em grande escala. Com eles a produtividade rural ganhou rapidez e melhor custo-benefício, contribuindo, inclusive, para uma maior oferta de matérias e bens para exportação. A passagem do trabalho braçal para o mecanizado ajuda o produtor a preparar o solo para a plantação e faz a manutenção da lavoura, revolucionando desde o plantio a colheita.

Colheita do arroz. Foto: Matheus Bernardes

Esse processo não transformou apenas o modo de trabalho do homem, mas também outros aspectos formadores da sua vida. No interior da cidade de Alegrete, a 40 quilômetros do centro da cidade, seguindo aproximadamente uma hora de carro por estrada de chão, o produtor rural José Dilsom Berriel, “Dico” como é conhecido, 50 anos, teve sua vida atravessada pela lida do campo. “Desde novo eu ajudava na lavoura, eu morava com o pai aqui fora e tinha um lavoureiro que plantava no campo. Eu era obcecado por trator, sempre gostei, deixava o cavalo e ia para o trator. Então, quando começavam a trabalhar na lavoura de arroz eu ia ajudar e eu sempre tinha na cabeça que eu ia plantar arroz” afirma saudoso.

O jovem que gostava do maquinário hoje cultiva uma área de 30 hectares (medida que equivale a 30 campos de futebol) de lavoura de arroz. Nesse trabalho, desde os 17 anos, Dico conta que iniciou sua plantação quando adquiriu o primeiro trator. “O meu primeiro trator foi um Massey Ferguson 50X que era do pai. Ele comprou do mesmo produtor que plantava no campo dele. Esse produtor adquiriu um trator maior e resolveu vender aquele pequeno. O pai comprou para fazer as primeiras plantações de pastagem no estabelecimento a troco de uma camionete. O produtor queria a camionete, o pai queria o trator e eles trocaram” relata rindo do ocorrido. “Era um trator equipado com tudo, foi a primeira compra. Depois veio o segundo e agora — há dois anos — o terceiro”.

Dico e o trator que foi trocado por uma camionete. Foto: Matheus Bernardes

A aproximadamente sete quilômetros de distância, ainda no município de Alegrete, o também produtor de arroz, Luiz Humberto Bernardes, 55 anos, cultiva 12,5 hectares. Desde os 18 anos no serviço rural, Luiz Humberto lembra que em 1989 comprou seu primeiro trator para iniciar com a lavoura, “Um Ford 4.600, ao longo do tempo fui adquirindo um trator maior, um TL 75 tracionado, que é o que eu tenho no momento” cita orgulhoso do maquinário que trata com afeto e sentencia: “Se tu não cuidar o que tem, a pedir vem”. Ele comenta que apesar de toda a tecnologia que envolve a lida do campo nos dias atuais, ainda é preciso contar com a ajuda humana nos momentos mais cruciais do cuidado com as plantações “Eu mesmo faço a lavoura: planto, aguo mas, na hora de colher não dá para ser sozinho,o aí tem que ter mais gente. São pessoas contratadas e até mesmo troca de favores. Se arruma emprestado um graneleiro, eu empresto o trator, e é assim que funciona. São amigos que eu ajudo e me ajudam” atesta ao falar sobre a parceria com Dico.

“Arroz gosta de sol na cabeça e aguá no pé”. Foto: Matheus Bernardes

A produção agrícola é a principal forma de sustento do trabalhador rural. Mais que um tipo de trabalho, ela se caracteriza como é uma cultura que é passada através de gerações. “Eu planto por causa do meu pai, era o que ele fazia e eu ajudava desde pequeno. Aprendi a gostar do serviço da planta e planto porque gosto mesmo” é o que relata o produtor de soja Everaldo Machado da Rocha, 47 anos. Com 25 hectares de área de cultivo no interior de São Borja Everaldo faz seu trabalho sozinho, desde o plantio, a manutenção e a colheita da lavoura. Ele explica que isso só é possível por ter uma área plantada considerada pequena, “Aqui pra mim sou só eu que planto porque é pouquinho”, assegura.

Realidade muito diferenciada da que é vista nas grandes propriedades. Nelas, o trabalho é terceirizado e acompanhado por um técnico agrícola. Ronimar Brandolt, 34 anos, técnico responsável pela lavoura de 420 hectares de arroz de uma empresa da região — localizada há 22 quilômetros do centro de Uruguaiana — considera que o técnico agrícola é um trabalhador que possui maior capacidade e recurso de buscar informações pertinentes à manutenção das lavouras “É uma mão de obra que se utiliza na lavoura e vem para somar, tendo também assistência técnica de um agrônomo ”. A empresa trabalha com mais de 10 equipamentos agrícolas, entre eles colheitadeiras, semeadeiras e tratores. Terceirizamos mais a colheita, o que temos de maquinário para colher é menor e acaba sendo terceirizado, mas isso faz parte do negócio. É uma decisão da gestão alugar uma máquina ou comprar nova” explica.

Cerca de 60 quilômetros do centro de Alegrete, quase na divisa com o município de Manoel Viana, Mário Moiano Farias, 36 anos, técnico responsável pela lavoura de soja de uma fazenda do município, conta que a manutenção da lavoura de 780 hectares é feita desde o plantio. A supervisão técnica aliada à modernização do maquinário auxilia no processo de colheita “A tecnologia melhorou bastante o trabalho no campo. A cada ano se vê mais informação, mais tecnologia, mais produtividade, até as próprias variedades de soja de hoje em dia estão mais produtivas”, avalia. Diante das fortes crises provocadas por fenômenos de estiagem ou de chuva intensa, Moiano considera que o uso da tecnologia no campo auxilia na redução das perdas “É claro que o clima tem que ajudar, a manutenção da lavoura também tem que ser bem feita, mas a mecanização está moderna, está propiciando uma boa produtividade e a mecanização vem se modernizando muito bem” garante.

Tecnologia aliada ao controle da produção. Foto: Matheus Bernardes

A mecanização foi o grande fator que transformou as relações de trabalho no campo. Em Alegrete, o produtor de arroz Luiz Humberto considera as modificações na forma de trabalhar com agricultura hoje e no passado. “Mudou muita coisa e tu tens que se adaptar, dentro do que tu podes, tendo ou não tendo (maquinário) tu tens que dar uma ajustada tecnologicamente para poder acompanhar a produtividade da lavoura atual, que é melhor do que a de antigamente”. Para explicar melhor sua afirmação, ele relembra que na lavoura não mecanizada eram colhidos entre 190 e 200 sacos de arroz por quadra. Hoje, esse número pode chegar a quase 400.

Outro produtor alegretense também reitera esse pensamento. Para Dico, o processo de mecanização permite organizar o trabalho no campo de modo diferenciado. “Há 25 anos tu fazias uma lavoura de arroz e ficava três meses trabalhando na aguação (processo de aguar a lavoura de arroz).Hoje não, hoje tu preparas toda a tua lavoura antes e espera o período para plantar com tudo pronto, depois de 20 dias já está tudo organizado. Só vai dar ter a manutenção, o resto tu está tranquilo” argumenta Dico. Para ele, ainda, a inovação tecnológica contribui diretamente para a melhora da qualidade de vida no campo. “Olha tchê, a tecnologia hoje é fundamental. Se não investir em tecnologia tu não produz” entende.

Desenvolvimento tecnológico e conhecimentos passados de geração para geração caminham juntos na agricultura atual. No trabalho cotidiano das lavouras, além da assessoria de técnicos e empresas agrícolas, os produtores contam com a experiência da prática da lida no campo para manter suas produções. “Eu uso um pouco o técnico e um pouco da minha experiência. Tem coisas que tu tem que associar a tua sabedoria, teus anos de trabalho e usar um pouco da tecnologia. Faz 37 anos que estou na lavoura e já deu para aprender alguma coisa”considera Luiz Humberto. Nos seus 12,5 ha de arroz, o produtor procura empenhar conhecimentos de diferentes ordens, na esperança de colher melhores resultados.

A mecanização no campo e os demais produtos e serviços originários da inovação tecnológica configuram-se como uma condição para a produção agrária na atualidade. O técnico em agropecuária da Emater (Associação Rio-Grandense de Empreendimentos da Assistência Técnica e Extensão Rural) de São Borja, Clovis Roberto Schwengber explica que o desenvolvimento da atividade no campo foi um processo gradativo. “Antes era o serviço braçal, depois a tração animal até a criação da máquina. Logo, diversas empresas foram criadas conforme a evolução da agricultura para atender a demanda do agricultor e hoje quase tudo é mecanizado. A mecanização restringe a mão de obra, mas provoca também a especialização do trabalhador que tem que evoluir para acompanhar o mercado” conclui.

O desenvolvimento tecnológico e a mecanização no campo modificou intensamente a vida do produtor rural, desde os pequenos até os grandes plantadores. As mudanças provocadas por essa forte intervenção ocasionaram uma revolução no campo. A inovação no contexto agrícola reduziu as incertezas quanto à produção e tornou os tratos culturais, os processos geracionais, a solidariedade entre produtores e famílias, o trabalho coletivo, o empréstimo de maquinário, entre outros aspectos, um processo contínuo e acelerado.

Mudou, assim, a forma como é adquirido o sustento da família inserida nesse contexto, e, mais do que isso, esse processo fereceu melhores condições de vida, de conhecimento e reconhecimento para o trabalhador rural. O ronco do trator — que antes era matraqueiro (expressão popular para aquele que faz muito barulho, que é incômodo) –, hoje marca os novos rumos da evolução tecnológica e da vida no campo.

* Graduando do sexto semestre de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA).

** Referência à música “Não podemo se entregá pros home” composta por Humberto Zanatta, Francisco Alves, Francisco Scherer.

Colheita da soja. Foto: Matheus Bernardes
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