Pai,
tenho tido um grande problema em me conectar 100% com a realidade. É por isso que desta vez, escrevo me dirigindo diretamente a voce. Queria ter conhecido um pouco mais da sua visão sobre a vida em geral, talvez assim, eu tivesse aprendido a ver as coisas como ela são, com mais frieza, eu diria.
Cresci com o péssimo defeito (que por muito tempo achei ser qualidade) de intensificar demais as coisas. Olho pra minha vida sempre buscando um sentido pra tudo, uma razão. Sinto amor demais pelas pessoas, pelas coisas, pelos momentos e pela vida em geral; mas quando tem de ser ao contrário, acontece na mesma intensidade.
Ultimamente tenho invertido um pouco toda essa minha fascinação pelas coisas; nada me excita.
Estar escrevendo sobre isso hoje, é só mais uma prova de que tenho precisado cada vez mais escrever ao invés de viver esse romance adolescente invertido que tenho colocado na minha cabeça.
Lendo assim parece estar sendo muito fútil, mas criei um ciclo auto destrutivo que simplesmente me prendeu como se não existisse mais nada neste mundo além de escuridão.
Quando olho pra frente, na maioria das vezes, me vejo no fim da linha.
Acredito demais na ligação das coisas e pessoas, na empatia, e principalmente no fato de sempre ver o outro em primeiro lugar; quando na verdade, as pessoas no geral instintivamente sempre vão priorizar o próprio umbigo.
Porque isso é tão surreal pra mim?
Estou sempre pensando em tudo e em todos, e todos estão sempre pensando em si mesmos e seguindo em frente e eu mais uma vez parei meu mundo inteiro por alguém ou algo absolutamente momentaneo
passageiro
insignificante
tudo é insigficante.
O mundo existe, acontece, se transforma, e todas as pessoas acontecem simultaneamente. Não são as que vivem ao meu redor, e muito menos eu, que vou deixar de acontecer, existir e principalmente transformar.
Chega a ser engraçado, mas é essa minha bipolaridade que tem me desestabilizado.
Tenho cogitado as piores hipóteses.
São esses polos negativo e positivo em constante repulsão.
Ainda me surpreendo com a força que tem o negativo, com a sua rapidez de chegar sempre adiantado e não medir esforços para criar bases praticamente intocáveis.
Mas tudo é reversível, menos a morte, não é?
Aprendi isso com você, da pior maneira.
Tenho tentado de todas as formas me reestabelecer, mesmo que isso signifique ter que ser uma pessoa mais egoísta – o que nunca me agradou.
Duas coisas pra mim são abominaveis – egoismo e orgulho.
E por mais que em alguns momentos – inconscientes ou não – eu propague esses sentimentos, criei uma barreira tão consistente em realação a eles que saiu tudo completamente do equilibrio, que deve existir; mas com toda essa fucking intensidade, é tanto peso dos dois lados que simplesmente não da.
De tudo isso, o pior é que sempre quando penso em me reestabelecer, em encontrar um equilibrio, me vejo sempre bem, mas me vejo sempre ao lado das pessoas que amo.
Eu nunca me vejo feliz sozinha.
Mesmo sabendo até de trás para frente que enquanto não me ver bem,
e só,
sempre vou me sentir assim.
