Dois anos em São Salvador da Bahia

3ª parte: a preta mercante de Dorival Caymmi

Escolhi um álbum da minha coleção de CDs e pus a tocar nos alto-falantes da sala. "Esse violeiro não é bom não", disse Clara ao ouvir as lentas e graves batidas nas cordas do violão, no início da canção "A preta do acarajé". Enquanto a música anunciava dez horas da noite, contávamos o dinheiro da venda dos bolos de laranja — minha mulher, eu e a ajudante Clara. O violeiro era Dorival Caymmi, e sua música lembrava como era tarde, e quão triste era o nosso trabalho como vendedores ambulantes.

Dez horas da noite
Na rua deserta
A preta mercando
Parece um lamento
Ê o abará
Na sua gamela 
Tem molho e cheiroso
Pimenta da costa
Tem acarajé
Ô acarajé é cor
Ô la lá io
Vem benzer
Tá quentinho
Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá
Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá
Todo mundo gosta de abará
Todo mundo gosta de acarajé
Dez horas da noite 
Na rua deserta
Quanto mais distante
Mais triste o lamento
Ê o abará

Ganhar dinheiro era bom. Poder alugar um apartamento com 3 quartos de frente para o mar era ótimo. Fazer todos os dias a mesma receita de bolo e andar pelas ruas de Salvador oferecendo a mercadoria aos vendedores de lojas e aos donos de bares e restaurantes... era maçante. As vendas caíam quando passávamos muitas vezes pelos mesmos lugares. O bolo estragava… jogávamos no lixo nosso próprio trabalho com tristeza. Era uma rotina dura.

Uma cliente deixou de comprar o bolo pois achava que usávamos alguma droga viciante na massa — isso me divertia. Um dia encontrei um jovem que identifiquei como ex-aluno do Colégio de São Bento, onde eu havia estudado por 10 anos. Não sei se ele me reconheceu, mas perguntou sobre o bolo. "É de laranja, eu disse". "Ah, pensei que fosse space-cake…", respondeu, virando as costas. Depois fui saber que space-cake era bolo de maconha. Alguma coisa na minha aparência devia remeter ao uso de drogas: a boca mole ou a fala macia; o cabelo comprido até o meio das costas, que não resistiria ao primeiro emprego em um hotel de luxo; ou o jeitão de carioca classe média alternativo, diferente de todos os ambulantes de Salvador.

Conheci muita gente nas ruas. Ganhei o apelido de Barão da Barra. Sempre fui respeitado e bem tratado, todos me recebiam gentilmente, e o meu sorriso abria qualquer porta. Alguns clientes me convidavam para provar novas receitas em suas casas. Eu parava para conversar e beber, e ainda ganhava dinheiro fazendo comerciais de TV, para clientes do bolo. Quando passava na agência de publicidade, na hora do lanche, vendia algumas fatias, e vez por outra substituía algum figurante em anúncio gravado no estúdio, para a TV local. Uma vez fui a estrela de uma publicidade de máquina de lavar roupas, com a seguinte fala: "Que esse Natal seja a maior limpeza!" Eu tentei fazer o sotaque baiano, mas não era isso o que esperavam de mim: "Ah, fala carioca, que é tão lindo…" Na Bahia, bom mesmo era ser carioca. "Você trabalha na Rede Globo?", ouvi muitas vezes essa pergunta.

Depois de um ano e meio, eu teria muita saudade do Rio, mas até lá tive imenso prazer em participar da vida de Salvador e guardei muitas outras estórias para contar.

(Continua)