Dois anos em São Salvador da Bahia

2ª parte: João Rosa, Clara e seus esclarecimentos

Clara tornou-se minha ajudante no preparo e na venda de bolo de laranja. Ela era humilde; tinha um filho pequeno, que eu nunca conheci; e morava hospedada na casa de uma tia no subúrbio, sem a companhia do pai do menino. Até o início da idade adulta, Clara viveu no sertão da Bahia.

João Rosa era escritor, autor de muitas estórias ambientadas no sertão, eu disse à Clara. Até então eu acreditava que ele havia criado muitas palavras, especialmente na obra "Grande Sertão: Veredas". "Ele escreveu uma das melhores obras de literatura brasileira falando do sertão, de onde você veio" eu disse a ela, "você quer ler um pouco?"

Clara era curiosa, já tinha aceitado receber minhas aulas de matemática. Na primeira lição, resolvi ensinar o que eu achava mais básico: o conceito de número. Queria abrir os horizontes da Clara, mostrar que o sistema decimal era apenas uma opção entre tantas ficções possíveis, e começaria pelos números binários. Se ela entendesse números em base dois, ela seria capaz de entender qualquer coisa em matemática — pensei. Mas ela não estava interessada em abstrações desse tipo. Esse assunto não parecia pertinente para quem precisava aprender a fazer contas. Clara era extremamente pragmática. Fracassei como professor, e logo descobriria que inverter os papéis seria muito mais proveitoso. De professor de matemática, passei a aluno de literatura da Clara.

"– Nonada." — Clara leu em voz alta no início da primeira página. Eu interrompi, disse não saber o que era nonada e perguntei se ela conhecia essa palavra. "Nonada significa 'não é nada'. É como a gente falava lá no sertão. Minha tia me batia quando me ouvia falar assim” — Clara disse sem emoção, mas meus olhos ainda hoje enchem de lágrimas quando lembro disso. Nonada… isso não é nada, o melhor ainda estava por vir.

"– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu — ; e com máscara de cachorro."

Ela seguia compenetrada quando eu interrompi: "Clara, o que é erroso? E olhos de nem ser?"

"Erroso" não está nos dicionários Aulete, Houaiss ou Aurélio. Só encontrei o verbete no livro de Nilce Sant’Anna Martins, "O Léxico de Guimarães Rosa", publicado em 2001 pela Editora da USP. Erroso significa monstruoso, segundo Nilce, exatamente o que Clara havia dito.

Perguntei à Clara se ela realmente ouvia as pessoas falarem como João Rosa escrevia. Era uma forma muito natural, como se fala no sertão, ela me convenceu pela segurança amigável em sua voz.

"Olhos de nem ser" não estão em nenhum dicionário, nem mesm0 no Léxico de Nilce. Nem a busca do Google conseguia encontrar o significado, até a publicação deste texto. Várias páginas sobre a literatura de João Guimarães Rosa na internet citavam essa passagem, mas ninguém dizia o que são olhos de nem ser. Contentavam-se em apreciar os "neologismos" de João Rosa. Neologismos? Grande Sertão é escrito com muito mais língua portuguesa legítima do que eu pensava. João Rosa repete o tempo todo que "o sertão está em toda parte", e nos recusamos a entender. Os brasileiros leem Guimarães Rosa, acham curiosa a criatividade do escritor, mas ainda sabem muito pouco de cultura sertaneja. Não conhecemos nem o vocabulário do incipit de uma de nossas melhores obras literárias.

"Nem ser" é o demônio, disse Clara. O demo!

(Continua)

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