Minhas estórias como caçador de rãs na Amazônia
2ª parte: conhecendo John Daly, Gabriel Skuk e a Serra do Navio

Encontrei John e Gabriel no aeroporto, onde embarcaríamos com destino a Macapá. John era alto, tinha 60 anos, mãos trêmulas e um leve sorriso no rosto. Caminhava e falava lentamente. Parecia ter muitas estórias para contar, mas nenhuma pressa. Quando nos encontramos, o dia estava quente e ensolarado e conversamos sobre a expansão do buraco de ozônio na atmosfera. Depois contei que trazia na mochila camisas sociais, de mangas compridas, para proteger contra mosquitos e reduzir a exposição ao sol, me gabando da experiência adquirida em viagem anterior pela Amazônia. Logo passamos a falar sobre a origem do cacau, a qualidade do chocolate produzido no Brasil e outras amenidades. Ele parecia não estar preocupado com nenhum detalhe sobre a nossa expedição de caça às Dendrobates tinctorius na Serra do Navio, Amapá. Aparentemente tudo estava sob controle.
Gabriel Skuk tinha 30 anos e um corpo atlético. Carregava uma mochila pesadíssima e quase não falava conosco. Tinha a mesma serenidade do John no sorriso, mas seus olhos brilhavam com vivacidade enquanto o John aparentava uma resignação um pouco melancólica.
Gabriel perguntou se eu era zoólogo. Quando eu disse que era geneticista, ele não ficou apenas desapontado. Disse que eu estava retirando a oportunidade de muitos zoólogos que gostariam de participar da expedição. Eu não tinha culpa, era tarde demais para resolver isso. A decepção do Gabriel não interferia em seu sorriso nem alterava sua fala gentil. Combinamos que eu levaria um casal de Dendrobates tinctorius para o Departamento de Zoologia, no Instituto de Biologia da UFRJ, o que dava um propósito científico à minha participação na viagem. Os herpetólogos, na época, tentavam reproduzir Dendrobates tinctorius em cativeiro, para evitar a captura de espécimes na natureza, para uso em pesquisa.
Quando chegamos a Macapá, tomamos um trem que cruzava o Amapá até a Serra no Navio, passando por estações do tamanho de um ponto de ônibus, onde alguns índios com expressões muito sérias olhavam o trem sem saudar os poucos viajantes. Nosso destino era a usina mineradora ICOMI, que explorava manganês em grandes crateras abertas na floresta. Depois de retirado o minério, a cratera era fechada e a floresta era replantada, enquanto era aberta outra cratera em um ponto próximo. Segundo eles, em poucos anos a floresta readquiria o porte original.

Da estação do trem, fomos até os alojamentos da mineradora em um automóvel. Cada um tinha seu quarto com banheiro e geladeira. A geladeira do quarto do Gabriel, nos dias seguintes, abrigaria algumas dezenas de bichos que ele capturaria na floresta. Ao lado do prédio dos quartos, havia um refeitório. Estávamos confortavelmente instalados.

O engenheiro que nos ciceroneava fez a apresentação completa da cidade construída para os empregados da usina. Segundo ele, a mineradora seria desativada naquele local em poucos anos, e portanto tinha interesse em hospedar cientistas, em trabalho na Serra do Navio, que pudessem ajudar a avaliar a possibilidade de compra das instalações por outras empresas.
Até aquele momento, nenhuma orientação sobre o que faríamos para caçar as rãs. Mas eu estava tranquilo e confiante nos meus seis anos de experiência em montanhismo. Só não sabia que a minha experiência era tão pequena comparada à dos meus companheiros, e que tudo seria tão diferente.
No dia seguinte, tomamos café da manhã, recebemos caixas com sanduíches e frutas para o almoço e tomamos um Jeep às 8:00, que nos levou até a mata virgem. Em um ponto, a estrada acabou. John e Gabriel desceram do Jeep e olharam para mim com o sorriso de sempre. Desci acompanhando os passos deles. O Jeep voltou para a mineradora. Nós ficaríamos na floresta até as 17:00, quando o carro voltaria para nos buscar. Recebi 4 sacos plásticos para guardar toda rã azul e dourada que eu encontrasse. Elas deveriam ser amarradas à minha cintura. Procurei a trilha para iniciar a caminhada, como um bom montanhista. Enquanto isso, John e Gabriel entraram na floresta. Cada um em uma direção. Não havia trilha. Eu decidi fazer o mesmo que eles. Entrei na floresta escolhendo uma terceira direção. Confiava nos meus instrumentos de navegação: um relógio de pulso e o sol como referência.