Bem, a internet do início do ano de 2017 ficou um ofurô devido à públicos atípicos estarem frequentando determinados blocos de carnaval do Rio de Janeiro como Tocoxona, Viemos do Egyto, Agytoê e Bunytos de Corpo.

Eu tentarei utilizar meus recursos de didática de professor para expôr melhor o assunto num textão já que muitos estão voando no assunto. A discussão será longa pois não pode se ater à superficialidade.

Vamos do início.

(Se você é hetero fora do meio/não simpatizante, leia a partir daqui)
Assim como a sociedade apresenta suas seções nada naturais com o grunge, emo, patricinha, playboy, etc., a comunidade LGBTQ também apresenta suas tribos. No meio gay existem algumas: os twinks (magrinhos e geralmente novinhos - pense nos clássicos cantores novinhos de boy band como One Direction), os bears (gordinhos, parrudos, fortes e/ou geralmente peludos - pense num peludinho fortinho ou em Jô Soares), barbies (fortes e saradas e geralmente não peludas - pense num homem de comercial esportivo clássico como José Loretto ou Hércules da Disney). Essas são as principais e até tem subdivisões.
"Mas Bernardo, essas seções apenas dividem mais a comunidade!". Sim, mas são nada naturais como eu disse. Parece que a sociedade luta para te inserir numa label, numa tribo etiquetada, não é? O mesmo acontece NA COMUNIDADE.

(IPC!)
Lembrando que quanto menos periférico os lugares frequentados por essas tribos, mais racistas são seus componentes. Apenas dê um google nesses nomes junto a gay e você raramente verá um negro, asiático, indígena, etc. Sim, gays são muito racistas também, principalmente fetichizadores pois enxergam essas pessoas como extensão do seu desejo sexual ou apenas não ficam com elas. Não existe essa balela de "mas era para serem menos porque lutam pela igualdade". Isso não existe, mas não é o assunto da aulinha de hoje.
Não se doam, amigos. Aceitem. Também somos humanos e terrestres vivendo numa cultura racista.

(Padrão)
Existe um padrão esteriotípico de beleza e comportamento que, no meio gay, está ligado ao machismo, racismo e gordofobia. Como assim? É como se fosse uma régua de números inteiros. Bora usar negativos e positivos como comparação com à visão geral social. Na parte mais positiva estariam aqueles gays que mais estão ligados a esse padrão esteriotípico. Os mais próximos do conceito cultural e histórico de masculinidade, virilidade e beleza masculina seriam mais privilegiados. Alí estariam as barbies. No outro extremos mais negativo estariam as menos próximas desse conceito. Indiscutivelmente estariam as bichas pretas, gordas e afeminadas. Essas são o foco do alvo de preconceito tanto dentro e fora da comunidade.
As afeminadas são as mais agredidas e que apresentam maior indíce de mortalidade por agressão.
O que acontece é que, tanto a sociedade quanto os LGBTQ "aprendem" essa régua assim que se tornam parte da sociedade e que um lado da régua é mais "correto" que outro. Como qualquer ser humano, levam esses conceitos e dimunuem aqueles mais longe de serem um padrão. Triste.
Esses mais longes de serem um padrão esteriotípico lutam contra esses próprios conceitos fora e dentro de si para construírem uma autoestima sólida, são e se sentem isolados. E é difícil sofrer fora e dentro do meio gay.

(Os ambientes)
Às boates e festinhas gays clássicas, acaba se extendendo essa cultura à beleza e ao corpo. A The Week costuma ser o exemplo clássico e sempre trazida para o foco pois é mais frequentada por barbies e twinks brancos de classe média. Quem está distante desse padrão, não se sente muito à vontade nesses lugares porque são geralmente excluídas, isoladas. Como papel celofane, coloridas porém transparentes e pouco desejadas. Sim, geralmente a maioria das barbies só se pegam entre si. Assim como os twunks (twinks sarados). Repetindo: ESTOU GENERALIZANDO!
"Mas o importante não é se divertir, Bernardo?". Claro, mas a maioria das pessoas frequenta boates e festas para fazer a boa e velha pegação. Não sejamos hipócritas.
As tribos mais marginalizadas tendem a frequentar festas específicas aonde se sentem mais aceitas.
"Mas o ideal não seria que todos se aceitassem em todos os ambientes?". Sim, mas infelizmente não ocorre, como fora do meio LGBTQ.

(O carnaval)
O que aconteceu neste carnaval? Alguns blocos eram mais frequentados por pessoas fora desse padrão esteriotípico de beleza e o oposto aconteceu.
O Bunytos de Corpo ironizava esse padrão, satirizavam esse padrão e acabou tendo mais foliões que se encaixam como barbies ou twunks (twinks sarados). 
O Agytoê e Viemos do Egyto são blocos com o intuito de trazer para o foco o empoderamento negro e a desconstrução desses padrões. O lema do Viemos é a música do Olodum, Faraó Divindade do Egyto que exalta a soberania negra da era do Nilo. Nestes aconteceu a mesma coisa.
O Tocoxona é um bloco de mulheres lésbicas empoderadas. Novamente, o bloco teve um maior número de foliões barbies e twunks, além de muitos heteros não simpatizantes.

(A problemática)
Voltando à questão de que seria ideal a mistura, infelizmente, a não opressão acaba sendo utópica.

1. Começando pelo Tocoxona, temos uma questão simples: os heterossexuais não simpatizantes chegaram junto a seu abuso sexual para com as meninas, fetichização das lésbicas e agressões morais às mesmas, além de agressão aos gays que acharam que esses também eram e chegavam neles.
Alguns gays ecoavam "Nossa, mas quanta mulher", "Olha aquela ali que horrorosa". Alguns viram brincadeira em tirar sutiãs das meninas, puxar cabelo, fantasia, rindo. Chega ser irônico, não? Querido, o bloco é das minas. Respeite a ideia dele ao menos. Infelizmente, a maioria dos gays é machista. "Sério, Bernardo?" Sim! São homens... alguns estão dispostos a se desconstruir e estão no caminho.

2. Em relação aos outros três. O problema da "invasão padrão" é a forma como esses fazem para criar uma identidade sua no espaço. É algo tão enraizado no ser humano que muitos não percebem que fazem. Algo como "já se nasce fazendo". Como "códigos de condutas praticados para reafirmar o lugar a que querem pertencer". Quase um ataque surpresa na tentativa de ampliar territórios. Apontar o feio, o que consideram errado, rejeitar aquilo que foge ao seu padrão como fazem nos ambientes que já frequentam - reiterando o "barbies e twunks só se pegam entre si" no sentido de "gosto é uma construção social e eu não quero me desconstruir".
Isso também é uma forma de violência, meus queridos. É algo que heteros fazem com LGBTQs, brancos com não brancos, ricos com pobres TODOS OS DIAS!
Não só isso. Tiveram gays e seus braços enormes se aproximando de mim, esfregando dinheiro na minha cara dizendo "Toma! Quero duas Skol Beats" enquanto eu tentava comprar a mesma coisa. E olha que minha pele nem é tão escura. Outros considerando que os grupo de gays negros de pele escura ao meu redor estava me assediando, importunando. Eram meus colegas. Pleno Viemos do Egyto. "É natural que as minorias sociais se rebelem, apontem as violências sofridas e os privilegiados tentem reestabelecer sua ordem hegemônica com um discurso de igualdade". É o que está acontendo.

(Desconstruamos-nos!)
A desconstrução começa pelo ponto de respeitar as diferenças. Entender que você pode ocupar um lugar de privilegiado. "Mas são todos gay, não?" Sim, mas vamos lembrar da régua social. Os homens mais próximos do padrão de masculinidade e brancos tem mais privilégios por fazerem parte de um grupo mais visto como suportável no esquema da fobia sofrida por LGBTQs, do racismo, do classisimo, capacitismo e etc.
O lugar é de todos sim. O espaço é de todos sim. O carnaval é de todos sim. Ninguém quer tirar o direito dos homens gays padrão, ninguém está dizendo que barbies são maléficas, mas a tal violência a qual me refiro precisa ser repensada e desconstruída. Empatia, meu povo!

"A sociedade é um organismo vivo e essa é uma ferida aberta que precisa ser cuidada e não ignorada".