Dredd, o juiz do apocalipse

“Os únicos que tentam impor a ordem no caos urbano são os Juízes”. Com esses dizeres do protagonista, começa o filme.

Num futuro apocalíptico onde a radiação consumiu grande parte do que havia numa região não determinada, o que abre margem para entender que pode acontecer em vários lugares do mundo atual em que vivemos, Mega City One é uma gigantesca ruína que reúne em torno de 800 milhões de habitantes vivendo sob uma violência absurda e ausência de uma moral coletiva. Nesse contexto, a Corte de Justiça assume a responsabilidade de atenuar tais situações e incumbindo para si o poder de julgar, baseado num código moral próprio, o qual permite execuções, por exemplo.

Dredd, um juiz da Corte, é o protagonista. Apresentado ao espectador já em ação, na caçada a três criminosos em uma perseguição calorosa, o personagem demonstra total frieza, lealdade a lei, ausente no tempo presente, nenhuma hesitação em cumprir seus atos, para ele, necessários e sem espaço para falhas, agindo sempre com alta precisão como mostrado. Por sua conduta e eficiência no trabalho, o protagonista tem uma notável fama entre seus colegas de Corte, o que o faz avaliar uma jovem juíza aspirante a juíza. Cassandra Anderson, apresentada no início como alguém não suficientemente capaz de exercer a função por não ter tido muito êxito nos testes a ela já passados. Apresentação que contrasta com a ausência de sentimentos exposta pela personalidade “casca grossa” do personagem principal, pois a novata expressa sensibilidade exacerbada, também por sua habilidade mutante que mistura hipnose e telecinese. Anderson, sob a tutela de Dredd, é incumbida a agir com o juiz esperando sua aprovação para continuar agindo em nome da Corte e da lei.

Nessas ruínas, restos do dito “mundo antigo”, ainda mais contrastes. Dentro de todo o caos abrangente em Mega City One, traços da modernidade tecnológica, inclusive nas geringonças de batalha, locomoção e comunicação utilizadas pelos juízes, gigantescos arranha-céus. Como o próprio Dredd diz no começo do filme também, ‘o mundo antigo se depara com a construção do novo com suas megaestradas, megaprédios: Mega City One’.

Num desses gigantescos arranha-céus, Peach Trees e seus 200 andares, três bárbaros homícidios ocorrem e Dredd, juntamente de Anderson, se encarregam do caso. Lá, descobrem que o ocorrido foi fruto de uma gangue, da Ma-Ma, num acerto de contas por disputa de territórios. Tal gangue, comandada por Madeline Madrigal, conhecida por sua avidez pela violência e seu caráter imprevisível, exerce o monopólio da venda de substâncias narcóticas, principalmente o chamado slo-mo, droga cujo efeito retarda a passagem do tempo assim como o próprio já entrega. Com o monopólio, Ma-Ma se expandiu tanto que aniquilou todas as outras gangues que atuavam no Peach Trees, a fazendo almejar conquistar toda o resto da cidade.

O clímax chega quando a matriarca do monopólio é informada da presença dos dois juízes no prédio fazendo averiguações sobre o homicídio, o que a faz fechar todas as saídas do prédio. Tal ato nos faz reparar ao longo do filme na jornada do personagens protagonistas em dilemas sociais (além do crime organizado), como corrupção em corporações de segurança e propina. Vemos isso quando Ma-Ma, sabendo que Dredd, por estar em menor número e praticamente acuado, pede reforço para continuar na troca de tiros, já que sua munição está próxima do fim. Espertamente, a mente por trás da gangue, coage os, primeiramente, companheiros de Dredd, por 1,000,000 em dinheiro (não se menciona a moeda) e os torna inimigos do juiz e da novata, os pondo em grandes riscos e ferimentos.

Outro bom momento do filme se dá quando Ma-Ma obriga todos os membros da sua gangue, dos 200 andares, e os habitantes do prédio a caçar e matar os protagonistas e que só quando eles estivessem mortos, liberaria os portões de acesso e saída de Peach Trees. Momento esse onde nota-se fortemente dois tópicos bem marcados no enredo do filme: a ausência moral dos habitantes de Mega City One e principalmente do prédio e a sensibilidade de Cassandra Anderson em relação aos criminosos e às vítimas, como quando libertou um dos capangas de Ma-Ma que agia em seu favor por ser constantemente ameaçado fisicamente caso não o fizesse, representando seu ideal de fazer a diferença naquele lugar tão cheio de caos e ódio.

Com “Dredd, o juiz do apocalipse”, além de uma direção minuciosa e delicada nas cenas de ação, nos planos aéreos da cidade e principalmente nas cenas onde os usuários de slo-mo sentem o efeito da droga, é possível refletir sobre a sociedade em que vivemos, no que nossa vida atual pode nos levar, baseado nas explorações humanas feitas desde então. Levamos em consideração também a importância de se pensar no outro, apesar do que ele já fez ou não e obviamente nos leva a pensar nossas atitudes cotidianas. “Dredd” apesar da truculência e da violência intensa, não é somente um simples filme à la Rambo.

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Comunicação Social — Jornalismo, comunicação e novas tecnologias, professor André

Bernardo Moreira Ferreira, 2017.1

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