Relato de um Pai

Mais um dia, sob o olhar encantado da Maria. Lá se vão três semanas de pouco sono e cenas do parto não param de me voltar em flashbacks. A Andrea me avisando às sete e meia de domingo que um líquido estava vazando, mas ela não tinha certeza se era a bolsa. A gente fingindo que ia conseguir dormir normalmente à uma da manhã. A Diana, enfermeira, carregando a Andrea no ombro escada abaixo às seis e meia. Eu atrapalhado procurando a sala de parto no corredor da maternidade. A Maria às dez e meia no nosso colo, com um chorinho calminho enquanto nós nos encharcávamos de lágrimas.

Viver um parto é transformador. Ainda não sei o tamanho do impacto em minha pessoa.

Passamos o fim de semana distraídos, forçando a barra para a chegada de terça-feira, quando a gestação completaria quarenta e uma semanas. Mais do que a hora da Maria nascer. Quando, no domingo, acordei de uma soneca de fim de tarde com a Andrea me dizendo que tinha saído uma aguinha que não era xixi, mas não era suficiente para ser a bolsa, eu respirei umas três vezes antes de levantar e dar um abraço pulando e rindo na Andrea.

Ligamos para a Gabriela, obstetra, para ouvir o que a gente meio que já esperava. Devia sim ser a bolsa, porque se o rompimento tinha sido em uma parte de cima, a gravidade não fazia descer aquela cachoeira toda que a Andrea morria de medo que estourasse na rua lotada, quando ela estivesse sem dinheiro pra voltar correndo pra casa. Ainda assim, valia ter cautela e observar antes de ter certeza.

Jantamos e fomos dormir com o acordo de considerar que não era nada. “O que você vai fazer amanhã?” “Vou trabalhar cedo, como eu faço toda segunda em que a Maria não está nascendo”. Foi tipo assim. A combinação durou umas três fraldas/absorventes Plenitudes. Até as quinze para as três, quando chegou a primeira contração, mas não devíamos considerar que era uma contração até ter certeza, etc, etc, etc. Por via das dúvidas, olhei o relógio. E olhei de novo oito minutos depois, e mais seis minutos depois. Três da manhã, e agora sim uma boa dose de certeza de que eram três contrações. Ligamos para a Diana, que estava dormindo com o Gaelzinho — filho dela de seis meses, que não gostou a ligação a essa hora da madrugada. “Tá rolando, mas calma que as contrações ainda vão entrar num ritmo com intervalos mais regulares”.

Não foi nada disso. Umas três ou quatro contrações irregulares depois, a Andrea começou a sentir muita dor. Foi pro chuveiro de água quente, e a dor aumentou, os intervalos sumiram, ficou tudo ruim. Voltamos a ligar para a Diana, que entendeu que o papo era sério e chamou um Uber. Ao chegar, às quatro e vinte, voltou com a Andrea para o chuveiro depois de ver que a dilatação estava entre dois e três centímetros. Uma hora e meia depois, estaria em nove. O padrão é que o bebê saia quando chega a dez.

Antes disso, sussurrei para a Diana que me avisasse quando achasse que seria uma boa descer com as malas para o carro. Antes das seis, ela me pediu para descer. A ideia era sair de casa dali a uma hora, a tempo de estar na maternidade às sete. Quando subi de volta da garagem, peguei uma tangerina para dividir com a Andrea e a Diana, já que provavelmente não daria tempo de tomar café. A tangerina até foi descascada, mas só foi ser comida umas trinta e seis horas depois. Quando eu cheguei de volta ao banheiro, a Diana me pediu para separar um vestido para a Andrea porque já estava na hora de sair. Eram umas seis e quinze.

Fui com a camisa que eu estava de um festival de 2009, quando eu ainda era solteiro. A Andrea mal tinha força para andar, desceu as escadas do prédio que não tem elevador apoiada nos ombros da Diana. Me mandou sair sem fechar a porta da garagem. Brigou comigo quando eu parei num sinal vermelho. Eu prestava tanta atenção na rua, para não bater nem errar um caminho que não tem erro, que não ouvia as instruções doces e gentis da Diana para ela ir tirando a Plenitude. Ela não tirou.

Às seis e meia, paramos no estacionamento da maternidade. A Diana abriu a porta do carro e pediu uma cadeira para a Andrea. Foi só nessa hora que eu entendi que a Maria ia nascer dentro do carro. A Gabriela chegou logo depois, de moto. Antes da cadeira. Quis examinar a Andrea no banco de trás do carro, mas a Andrea não deixou. “A Maria vai nascer aqui?” Ninguém respondeu que não. Eu implorava para alguém trazer a cadeira. A Diana gentilmente arrebentou a Plenitude pelo lado, e finalmente o exame foi feito. Gabriela: “vai dar tempo”. A Maria estava em posição defletida, o que quer dizer com o queixo afastado do peito, o que costuma querer dizer um parto lento.

Chegou a cadeira e entramos na maternidade sem dar entrada em nenhum papel. A Gabriela foi abrindo o caminho, dizendo para ficarmos tranquilos porque se nascesse ali no elevador, já era o elevador da maternidade. Tranquilão. Fui despachado para o vestiário onde eu seria instruído sobre onde reencontrá-las.

O vestiário: um enfermeiro entediado com o olho preso no celular me mostrou com o queixo e um som sem mexer a boca onde pegar a roupa. Li as instruções do armário onde eu devia trancar minhas coisas quando chegou um segundo enfermeiro e me disse tudo que eu não podia fazer: não estar ali sem ter passado antes no quarto, não levar a mochila para a sala de parto, não poder deixar as malas ali e finalmente não sair sem uma pantufa por cima do tênis. Eu disse que não tinha quarto, que as malas iam ficar ali, que eu estava autorizado a levar a mochila comigo e obedeci a ordem das pantufas. Enquanto isso, joguei tudo dentro do armário, botei uma senha, repeti umas três vezes que já estava nascendo e que não ia dar tempo de fazer nada daquilo. Do lado de fora, ainda briguei com uma enfermeira que demorei a achar para me dizer onde a minha filha estava nascendo. Ela dizia “deve ser no pré-parto” e eu respondia que “não é pré-parto, ela já tá nascendo”. Ainda não entendi, mas a sala de parto se chama sala de pré-parto. Acho que parto mesmo deve ser só no centro cirúrgico, sei lá.

Olhando assim, a sala “de pré-parto” é meio decepcionante. Só aos poucos ela vai ficando encantada. O suor e outros fluidos tomam o lugar com cheiros que dão onda. Odor de parto. Poções de amor.

Quando eu entro, ainda perdido mas principalmente ansioso em não perder mais nada, a Andrea está de cócoras, fazendo força, no ritmo de novo nítido das contrações. A Gabriela e a Diana observam, sentadas no chão, soltando as frases que eu e Andrea vamos ouvir como mantra pelas próximas quase quatro horas. Isso, linda. Maravilhosa. Tá indo bem. Falta pouco.

Não demora e se junta ao coral a Fernanda, assistente de parto que quase foi a obstetra principal porque a Gabriela voltou há apenas cinco dias das férias na Austrália. Em seguida, chega a Lívia, pediatra e amiga de colégio da Andrea. Bem amiga.

Ou seja, sou eu e quatro mulheres esperando a quinta. Caio na real. Minha testosterona ali é desimportante. Os hormônios que vão nos guiar pelos momentos sublimes a seguir são vários outros.

A endorfina age para administrar a dor ao longo do processo. Desliga também parte da memória de curto prazo, para confundir a noção de tempo e adiar cansaços e desconfortos. Permitir que se conviva e até que se aproveite da dor é fundamental para manter a atividade cerebral longe do neocórtex durante o parto.

O neocórtex, bem simplificadamente, é a região racional do cérebro. No parto, a região que deve comandar é a primitiva, das emoções e sensações. Dar à luz deve ser instintivo e não calculado.

Na região primitiva, o hipotálamo dispara os hormônios, e a dinâmica principal é entre adrenalina e ocitocina. A adrenalina apareceu pela primeira vez quando a bolsa estourou ainda no domingo, voltou no carro para a maternidade e bombou no interminável tempo de espera pela cadeira de rodas no banco de trás e no caminho até a sala onde estamos. Ela até teve a sua importância ao deixar a Andrea alerta, mas agora ela torna-se rapidamente um obstáculo para o parto. A adrenalina inibe a injeção de ocitocina no organismo, ela sim o hormônio da intimidade, o hormônio do amor, porque é o mesmo dos carinhos e do orgasmo. A ocitocina reforça o trabalho da endorfina na memória, mas principalmente rege as contrações que vão trazendo a Maria para cá.

Portanto, a tal sala de pré-parto com quatro mulheres e uma para chegar está sendo preparada para uma festa psicodélica de hormônios: quentinha e silenciosa para inibir mais adrenalina e incentivar a produção de ocitocina, escurinha para ativar a produção de melatonina, mais um hormônio que auxilia a ocitocina nas contrações. Há estudos que ainda identificam a produção de canabinóides (compostos químicos da família dos da maconha) com a função de desligar as noções de tempo e de inibição, mas eu não tenho certeza se isso é um consenso científico.

Nessa festa feminina, eu não posso atrapalhar. Eu finalmente compreendo a minha função no parto: criar o ambiente para que o hipotálamo da Andrea derrame ocitocina pra dentro. Ser amoroso, trazer intimidade para aquela sala. Ainda assim, eu só penso em neocórtex. Quando vem uns gritos de dor de uma mãe maluca (olha eu…) parindo na sala ao lado, fico em silêncio para não fazer uma piadinha que ative o neocórtex. Quando a Diana sugere que a Gabriela bote Maria Maria pra tocar no celular, eu fico quieto pra não dizer que a gente odeia essa música e quase mudou o nome da Maria por causa dela. Vai que ativa a memória, e portanto o neocórtex. Também não faço minha imitação de Axl Rose sentindo contração em Patience quando essa toca, porque o humor deve ter a ver com o neocórtex. Eu sou só abraço e beijinho. Isso, linda. Maravilhosa. Tá indo bem. Falta pouco.

Ainda assim, não ter dado entrada nos papéis não fica impune. Uma enfermeira entra na sala de parto perguntando cadê a identidade e a carteira do plano de saúde. Procuro na mochila que está na sala de pré-parto e nada. Saio e vou para o vestiário, onde percebo que não tenho mais certeza de em que armário estão as minhas coisas. Tento o 5, boto minha senha e a porta se abre, mas dentro tem dois pares de sapato que não são meus, até porque eu estou de tênis por baixo das pantufas. Começo a tentar minha senha nos armários 4, 6, 7, 3, 10, 11, 12, uns treze diferentes. Ouço do lado de fora a enfermeira reclamar “como é que pode entrar sem os documentos” e, tomado de adrenalina e testosterona, abro a porta dando esporro: “sabe qual é o problema? É que alguém botou uns sapatos no armário que eu tinha escolhido pra mim, que é o cinco”. Ela nem me responde, só pergunta meio que pra ela mesmo se eu tenho certeza de ter sido o cinco enquanto usa a chave-mestra dela no quatro, abre, e lá estão as minhas coisas.

Não sei qual é o hormônio da vergonha, mas eu procurei os documentos da Andrea nas carteiras e na bolsa que estavam no armário, não achei, saí de fininho do vestiário torcendo pra enfermeira não me ver e procurei de novo na mochila de dentro da sala de pré-parto. Achei. Mais tarde, de novo uma enfermeira entraria na sala para pedir os últimos exames de sangue antes do parto, e mais uma vez eu procurei e não achei os papéis que estavam exatamente na minha cara.

Os canabinóides, a melatonina, a ocitocina e o marido com fobia de neocórtex começam a não dar conta de enganar a Andrea de que o tempo está passando. Ela começa a reclamar de cansaço, dizer que não está aguentando, que se estivesse pra nascer as médicas estariam mais nervosas, já teriam colocado luva, que não falta pouco nada. As médicas acham graça, devem pensar que isso é a Andrea chapada de hormônios muito loucos, mas eu sou especialista em Andrea. Ela é assim. Se as pessoas em volta dela não estiverem tão nervosa quanto ela, alguma coisa está errada. Vem outra contração e ela se distrai.

Cada contração exige muita força minha também. Na posição de cócoras, eu seguro a lombar dela, onde eu sei que ela sente muita dor. Quando ela desliza de costas pela parede contraindo, tudo bem, eu descanso. Mas na posição de quatro, eu empurro os ombros dela no sentido contrário. E na posição de lado, eu empurro no sentido contrário um ombro dela e um joelho. Até que a testosterona serve para alguma coisa. Já estou suando e dolorido. Eu também estou cansado e não estou aguentando. Só que eu não falo nada. Neocórtex.

É quando a Fernanda dá a ideia de uma nova posição. Deitada de barriga pra cima, segurando uma barra que a Fernanda mesmo instala no leito. Pra mim, é a pior posição, porque a Andrea não dá conta de puxar o corpo da cama para perto da barra e ainda manter a força para expulsar a Maria de dentro. Ou seja, eu faço a força para que ela levante e sustento o corpo dela no alto. E ela faz a força de esticar a contração. Toca Adriana Partimpim e aquela música do Claudinho sem Buchecha e pela primeira vez eu torço pra Maria não nascer naquele momento. Depois, toca Nirvana. Come As You Are. Foda-se o neocórtex, eu mando logo um: tinha que nascer agora no Nirvana. Come As You Are. Já pensou?

Na reta final, o corpo volta a produzir adrenalina. Está pra nascer, a mãe deve estar alerta. Ainda toca Lucy in the sky with Diamonds (a mãe da Andrea se chama Lúcia, foi a única relação que eu fiz) e Mrs Robinson (pra essa eu só fiz relações que eu prefiro não repetir aqui). Aí eu já não me lembro de nada, só sei que dali a pouco a Maria escorrega pela barriga da Andrea com um chorinho que eu achei carinhoso. Ninguém jamais fez música tão linda. São 10h36.

Ao que parece, nessa hora, a placenta despeja tudo que ainda tem de hormônio antes de sair também. Essa onda vai sustentar e reestabelecer o bem estar da mãe nos próximos dias, além de disparar a produção da prolactina, o hormônio do leite. O pai, todo dolorido, vai continuar dolorido mesmo.

O chorinho da Maria é acompanhado por dois pais enfeitiçados repetindo “ela é linda”, “ela é linda”, “ela é linda”. Na correria, não trouxemos os celulares, por isso também não ouvimos as nossas listas de músicas tão planejadas ao longo do parto. Pego o da pediatra e ligo pra casa, onde tento falar com uma sexta mulher, minha mãe, que está dormindo pesado e não acorda. Ela está presente na sala, de qualquer forma.

A Diana comenta que a ocitocina na sala está fazendo o peito dela se encher de leite e a Fernanda aperta o peito dela. Só lembro do Gaelzinho, que pelo menos nessa vai se dar bem. Às quatro da manhã, quando eu abri a porta de casa para a Diana, ela estava no telefone mandando entregar o primeiro leite de fórmula dos seis meses de vida do filhinho dela, porque o que ela tinha estocado estragou, tempo demais fora da geladeira.

Agora, tenho duas meninas. Vivi o momento mais maluco e mais intenso da minha vida cercado por mulheres fodas, adrenalizadas quando foi hora de adrenalina e ocitocinadas quando foi hora de ocitocina. No comando, a braba Andrea, que depois se deu conta que esqueceu que dava pra ter pedido anestesia. Brabeza, paciência, doçura, atenção, criatividade e segurança… Minha função é aprender com elas pra criar uma filha foda assim pro mundo também.