O peso do passado num presente em convulsão

A sensação é de estarmos soterrados sob uma avalanche de acontecimentos. Mal conseguimos elaborar nossa própria leitura sobre um fato novo, sobre seus significados e possíveis desdobramentos, e somos atingidos violentamente pela urgência de um episódio mais recente. Essa parece ser a tônica dos últimos meses, e é difícil imaginar que alguém consiga passar incólume às erupções da conjuntura. Em muitos nasce a ansiedade pelo fim do ano, com esperanças de que ao alcançarmos um novo marco na contagem do tempo as coisas melhorem ou, ao menos, minorem. E no plano político, a sucessão de eventos leva quase todos a questionarem a natureza e a legitimidade dos poderes instituídos, utilizando-se, para tanto, de qualquer instrumental teórico disponível, que muitas vezes limita-se ao complexo senso comum, sempre tão múltiplo de sentidos.

É de se supor que dos sujeitos mais indiferentes aos mais mobilizados, todos sejam tentados pelo pessimismo, como se fosse a postura mais condizente com um mundo aparentemente tão vulnerado por incertezas e tão obscuro quanto ao futuro, mesmo o mais próximo. Suposição essa que me leva a pensar no raciocínio que vai de um “confiante otimismo” para uma “visão trágica ou apocalíptica da história”, tal como analisado por Paolo Rossi, que questiona com muita pertinência a suposta garantia de “maior profundidade” contida no movimento de inversão do otimismo em pessimismo. Se, quanto ao futuro, passamos a ter mais temores que esperanças, cabe questionar se essa mudança de postura realmente significa que nos tornamos menos ingênuos. E, remetendo ainda ao historiador italiano, leio como uma provocação instigante que “aquela inversão, enquanto tal, serve somente para documentar que os percursos dos modos de pensar são sempre historicamente oscilantes, que as teses contrárias sempre se remetem uma à outra, como espelho uma da outra.”

A alternância pura e simples entre estes modos extremos de pensar sobre o presente e sobre o porvir, eu acredito, agrava decisivamente entre nós a dificuldade de colocar em perspectiva a torrente de acontecimentos, e portanto, de tentar dar-lhe algum sentido (expressões dessa dificuldade se multiplicam, por exemplo, nas redes sociais, transformadas em veículos de declarações catárticas e de tentativas de análise quase sempre muito superficiais, efêmeras e triviais). Os acontecimentos da vida política se tornam, assim, bastante suscetíveis às mais extremas simplificações, muitas vezes reforçadas e difundidas pelos mais oportunistas ocupantes de postos políticos, que evidentemente procuram se aproveitar dos problemas do momento como uma “janela de oportunidades” para implementarem suas agendas, e se beneficiarem tanto quanto possível de um quadro que, no limite, talvez possamos entender como um tipo de crise de racionalidade.

Mas não é o caso de arriscar aqui uma interpretação dessa possível crise — a intenção é bem mais simples. Cabe, porém, lembrar que há quase trinta anos Sérgio Paulo Rouanet já indicava os traços característicos de uma “crise da razão”; um destes traços diz respeito justamente ao repúdio à racionalidade, quando identificada de modo indissociável ao exercício do poder, ou interpretada como mero instrumento de dominação. E em meio ao acúmulo de acontecimentos, multiplicam-se os empecilhos para que reflitamos sobre eles, o que resulta num ambiente marcado pelo desestímulo à razão, aos exercícios de natureza teórica. Nesse ambiente, muitos optam pela indiferença quanto ao conteúdo dos debates públicos, e outros tantos, apesar de participarem dos debates, o fazem recorrendo apenas a fórmulas simplificadoras, quase sempre repelindo os diálogos, ao invés de fomentá-los. Práticas estas, que se reproduzem em franca oposição à teoria, ou, como escreveu Rouanet: “A fórmula é quase sempre a mesma: a prática contém sua verdade imanente e dispensa toda teoria, ou admite apenas uma teoria desentranhada da própria prática.”

O pessimismo dos nossos dias vincula-se, então, ou à indiferença ou ao repúdio à razão, sobretudo quando identificada com o funcionamento da república — isto é, com a razão de Estado. O que considero particularmente preocupante quanto a isso é a possibilidade de estarmos vivendo o extremo do que Rouanet identificou ter ocorrido no Brasil logo após o fim da ditadura instaurada em 1964: “Quando a democratização desbloqueou a sociedade civil, criaram-se condições objetivas para a retomada de um processo comunicativo livre, mas faltavam, em parte, as condições subjetivas — a vontade de conduzir racionalmente a argumentação — , pois a razão tinha se identificado com o inimigo deposto.” Atualmente é notável a ascensão de atores públicos que dispensam completamente qualquer vontade de “conduzir racionalmente” suas agendas — ou mesmo sua retórica.

O grande problema, me parece, é que diante desse cenário, em que nos encontramos tão constrangidos pelo presente, parece tornar-se cada vez mais difícil se afastar do pessimismo ingênuo, da desesperança absoluta e do catastrofismo. E assim somos desencorajados a participar ativamente da vida política, de tão céticos que nos tornamos a respeito do que quer que possa advir dela; o que ocorre apesar da participação ativa ter sido tão almejada pelas gerações que viveram o século vinte. Convém perguntar, então, sobre qual o caminho para a retomada de um interesse engajado, certo de que passa pelo conhecimento minimamente razoável e mais generalizado da história do país, remetendo a Lucien Febvre, que escreveu: “a história é um meio de organizar o passado para que ele não pese demais sobre os ombros dos homens”, algo que pode ser válido de modo singular no caso do Brasil, onde nota-se sem muita dificuldade um certo desprezo pelo passado, abordado quase sempre muito apressadamente (sintomático disso, por exemplo, é a pouca importância atribuída ao patrimônio histórico, principalmente o que não tem valor turístico, como os arquivos). Enfim, meu argumento resume-se no seguinte: boa parte das nossas angústias contemporâneas se explica tanto pelas complexidades do momento presente como também — e muitas vezes principalmente — pelo “peso do passado” sobre os nossos ombros, que pode ser tão grande quanto nossa dificuldade em abordá-lo para, então, compreendê-lo.

“Um otimista e um pessimista”, de Vladimir Makovsky.