Eu te criei em apego

Minha vida estava uma calmaria. Pela primeira vez, eu estava onde queria e como queria. Segura. Daí você tinha que chegar arrombando a porta da frente e trazendo um vendaval consigo. Isso deixou uma bagunça louca aqui dentro. Incrivelmente, eu gostei! De repente, estar segura não era mais uma opção. Aquele frio na barriga a cada vez que te via me fazia questionar minha própria sanidade. Eu poderia pular no escuro com você. E pulei. Só não notei que me arrisquei sozinha, porque o seu plano era diferente do meu.

Teu cheiro, teu toque, tua voz e presença, tudo isso me satisfazia ao passo que tuas palavras me distorciam a visão. Eu já não sabia mais o que estava fazendo ali, mas precisava daquilo cada dia mais. Era bom o jeito que machucava. “Eu gosto quando machuca!” Talvez você gostasse de machucar. Talvez não. Eu nunca sei e nunca vou saber. Aquela obsessão me afastou de ti por mais próximos que estivéssemos. Por isso, desculpe! Achei que estivesse me doando a ti, mas nem ao menos contigo eu estava, minha relação era com um fantasma que criei da tua existência. Talvez eu te goste. Talvez não.

Criei então apego ao que acreditava ser você e aos meus devaneios sobre um futuro que nunca existiu, tal qual nosso passado. Fomos usados. Um ao outro. E o gosto que ficou foi bom, ainda que amargo, desce travando a garganta e sobe urrando gemido. Isso não te fará sentido, mas quais palavras minhas te deixaram satisfeito usando a lógica? Já houveram desastres mais bonitos, mas não tão desencontrados como o nosso. Te amei no auge da minha carência e procura. Gozei por ti, pra ti, contigo, mas jamais comigo e há algo de muito errado nisso, pois roubei de mim minha própria verdade. Criei em ti algo que precisava ter em mim. Saudades. Paixão. Loucura. Amor. O que são todas essas palavras se a cada um diz uma coisa? Por que diabos acordo e durmo com a vontade de me entrelaçar no teu corpo e esquecer por um momento que jamais serei teu e tu jamais será meu?

Eu te criei em apego. Apego ao que sempre quis ser. Ao que ainda não consegui entender. Ao que tu nunca consegues compreender. Eu te criei em apego a mim e por isso, peço desculpas e te digo adeus!

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