Uma história de amor

:::Você levará, em média, 4 minutos para conhecer esta história:::

Há muito tempo atrás, eu tinha um amigo. Daqueles com quem você passa horas a conversar, sem cansar, sem bocejar. Geralmente nossos encontros eram em em cafés e, quando o estabelecimento fechava, seguíamos a noite em passeios de carro, que mais tarde ele me confessou, era apenas um jeito de prolongar o momento. Bonito, não? Falávamos de tudo, em especial, literatura. Saia de cada conversa com uma lista de autores para conhecer. Era incrível. Porque ele lia coisas que eu jamais teria conhecido se não fossem por aqueles encontros. Era fã de Wood Allen como ninguém e me fez redescobrir a paixão no cinema, já que eu estava sempre enfiada nos livros. Enfim. Essa pessoa, um dia, se declarou para mim, aquelas declarações de cinema mesmo, e vivemos 3 meses maravilhosos. Para mim. Para ele, nem tanto, acredito eu. Pois essa pessoa, tão maravilhosa, sumiu numa sexta-feira e nunca mais voltou. Todo esse blá-blá-blá, é só pra dizer que essa amizade e relação me deixaram muitas feridas, mas o melhor, deixaram autores e filmes incríveis.

E por que é que eu estou contando tudo isso? Bom, é só para dizer que esse “babaca” me contou certa vez que tinha uma pessoa, que eu não me lembro quem, pois minha memória é péssima, que comprava vários livros do Salinger, O apanhador no campo de centeio, deixava na sua casa e presenteava a todos que o visitavam. Vocês já entenderão onde quero chegar, ainda que essa introdução seja totalmente desnecessária. Eis que em 2011, eu me encontrei com Carta a D., um livro fininho, pouco mais de 70 páginas, que me tocou pro.fun.da.men.te. E, como ele é um livro de valor acessível, comecei a comprar em certa quantidade e a presentear algumas pessoas por aí. Quando eu o recomendo eu já alerto: Por favor, leia sem buscar nada, apenas leia. Pule a orelha, ignore a quarta capa e respeite o posfácio e notas. Se você quer saber do amor, leia Carta a D.

Foto de Daniel Mordziski — Editora Galillée

Ele começa assim:

“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”

Alguma dúvida do porque eu sigo a presentear as pessoas com Carta a D.? Ele tem um dos inícios de livro mais memoráveis de tudo que já li. Em um mundo repleto de relações líquidas, encontrar um Gorz ou uma Dorine é um puta-ato-de-amor e sorte. Espero que Dorine tenha recebido essa carta e que ela não tenha sido daqueles nossos escritos que morrem na gaveta. Pois percebemos no livro um desejo de redenção de Gorz, por muito ter negligenciado o papel de sua mulher em sua vida, é quase que um pedido de desculpa o livro. Aquela coisa, a dor da falta só faz falta quando já não há mais volta.

E por que é que eu lembrei do babaca lá de cima? Primeiro pela história de comprar diversos livros e, porque ao reler trechos de grifos hoje, encontrei esse, ao lado do nome dele e de mais uma pessoas doce aí:

“Antes de conhecê-la, eu nunca tinha passado mais de duas horas com uma moça sem ficar entediado e sem deixá-la saber que eu me sentia assim. O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo.”

André Gorz e Dorine Keir, Primeira dança.

Poderia ser uma história de amor, contudo a minha foi só decepção.

Muitas vezes eu fico a pensar, se essas pessoas pensam em mim, como lembro delas: com um suave aperto no peito, por tudo que acabou. Porque amar alguém, a mim, é além do físico, é um encontro intelectual. É abrir esse novo mundo, de que Gorz nos fala.

Bom, Carta a D. é uma declaração de amor, sabemos. Todavia é também um livro que fala da atividade da escrita na vida de Gorz, passando pela tarefa de escrever, esse momento de reclusão, que eu, particularmente, já vi acabar com inúmeros relacionamentos e, Dorine, traz a seguinte frase, dita a Beauvoir: “amar um escritor é amar que ele escreva”. Engana-se quem pensa que o livro fala apenas de “amor”. Ele fala de vida, de relações e da velhice. Um livro que traz a ficção da vida e a prolixidade do real.

Ao terminar a leitura, fiquei com aquela vontade de ligar para Álvaro de Campos e dizer:

– Oh, amigo, tu não falou que todas as cartas de amor eram ridículas? Leia essa aí.

Então, desejo a você, que agora me lê, não um grande amor, mas a experiência desse encontro. Que talvez, não seja com ninguém, seja em solitude e consigo mesmo.

André Gorz e Dorine Keir, em 1985 dans leur jardin à Vosnon (Aube). Cédric Philibert. Fonds André Gorz. Imec

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Vale dizer que Gorz era filósofo austríaco, foi seguidor e amigo de Sartre, trabalhou como jornalista em Le Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. E foi considerado um dos principais inspiradores do movimento de Maio de 68 na França, tendo diversos livros censurados pela Ditadura brasileira, por considerar sua obra um material de conteúdo subversivo. Gorz é considerado um grande pensador e contribuiu no desenvolvimento de teorias para o marxismo-existencialista. Além de ter diversas publicações na área da filosofia e sociologia, dedicou-se também ao estudo ecologia.

André Gorz. Carta a D. História de um amor. Cosac Naify, 2006

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