A voz da minha avó

A voz da minha avó era amarela. Solar. Daquelas vozes que iluminam a escuridão quando entoadas. Na época dos apagões, não precisava nem de vela. Era só ela sorrir aquela gargalhada, contagiosa feito conjuntivite, que ninguém nem lembrava mais que tava faltando energia no país inteiro. Mas não só por fora. A voz dela era tão forte que também iluminava por dentro. Era ela falar com a gente, contar alguma história da sua vida cheia de passagens hilárias, que toda e qualquer escuridão que existisse dentro de nós se esvaía, desaparecia, a gente se iluminava todo, de dentro pra fora.

Li por esses dias num dos textos acadêmicos mais complicados que já tive que ler na vida (ou pelo menos interpretei isso porque, nesse tipo de texto, nunca se sabe realmente se o que a gente entende é o que tem lá mesmo) que as coisas passavam cada vez mais rapidamente e a gente estava perdendo a capacidade de memória. Portanto, cada vez mais a gente continua inventando coisas que nos façam lembrar. Pensei logo em números de telefone. Ninguém mais sabe o número de ninguém. Minha avó sabia. Minha avó, que um dia chegou em casa revoltada porque não existiam mais celulares com botões, anotava todos os números numa caderneta. E se lembrava de vários deles. Mas, fora ela, ninguém lembra. Tão fácil salvar na agenda do celular, pra quê memorizar isso quando a gente pode memorizar coisas tão mais importantes? Tipo a voz da minha avó. Muito mais importante que números de telefone.

Acaba que hoje a gente não se lembra de nada. Não consigo visualizar mentalmente o rosto de um amigo distante. Não consigo lembrar do que fiz pro almoço hoje mais cedo. Não faço ideia do que o professor tinha escrito no quadro semana passada. Não consigo ligar um autor a um conceito sem fazer uma pesquisa exaustiva na internet. Amnésia crônica.

Mas da voz da minha avó eu me lembro. Não tem como esquecer. Não me lembro de muitas das histórias que ela já me contou e me odeio um bocado por não ter gravado tudo. Lembro de algumas passagens, como ela dizendo a uma mulher aleatória no supermercado que um determinado ventilador era muito ruim, quebrava num instante, não valia a pena, porque só tinha um daquele e quem ia levar era ela e não a mulher aleatória. Lembro da alegria dela ao me ouvir dizer que sairia de casa pra estudar em outra cidade. Lembro dela no hospital dizendo pra que eu não tirasse nunca o sorriso do rosto. Mas não lembro de tudo. Queria lembrar de tudo.

Não dá pra lembrar de tudo. O maior medo da minha vida, hoje, é me esquecer da voz da minha avó. Aquela voz que vivia no volume máximo como a televisão dela ao assistir programa policial sensacionalista na hora do almoço. Aquela voz que soava aos meus ouvidos como a torta de camarão que ela fazia agradava ao meu paladar. Aquela voz que nem o melhor imitador de silvio santos conseguiria imitar. Aquela voz dela, só dela, amarela, solar.

Morro de medo de me esquecer da voz da minha avó.

Odeio escrever sobre a minha avó no passado.