Cavalos

Antes de começar a escrever sobre equinos e a existência humana, preciso esclarecer que às vezes me pego pensando coisas meio anormais. Ou talvez nem tanto. O fato é que não é raro uma reflexão sobre algum aspecto da vida e/ou do mundo aparecer na minha cabeça e eu ficar obcecado com isso, mesmo que seja por poucos minutos.

Por exemplo, uma vez parei pra imaginar como seria o sexo entre ornitorrincos. Eu nunca vi um ornitorrinco pessoalmente. Fui ao google. Não achei nada. De ornitorrincos, fui mudando de bichos. Rinocerontes, girafas, hipopótamos, gatos, cachorros, baratas, leões, tigres, hienas, veados, morcegos, elefantes, baleias, golfinhos. Nessa brincadeira de sexo animalesco passei mais de três horas e acabei descobrindo o caso de uma mulher cientista da Nasa que tinha sido designada para ensinar inglês a um golfinho, acabou se envolvendo emocionalmente com ele e tinha até relações sexuais com o bicho. Sim. O caso é real.

Outra vez, estava estudando sobre câmara escura, daguerreótipos, caleidoscópios e essas invenções na área visual que existiram antes da fotografia e acabei descobrindo que pode ser que, ao contrário do que aprendi na pouca física do colégio que ainda consegue espaço na minha cabeça, as cores sejam mais uma invenção do cérebro do que um reflexo da luz quando bate nas coisas. Isso é explicado pelo fato de certas cores aparecem quando olhamos fixamente para determinado objeto, mudamos a posição do olhar e o vulto de tal objeto continua em nossa vista ou pelo fato de vermos cores mesmo com os olhos fechados. Essa descoberta me rendeu uma bela dor de cabeça por passar pelo menos vinte minutos alternando o olhar da luz fluorescente do meu quarto para a parede branca.

Esta semana estava viajando para um interior aqui de Alagoas pelo jornal onde trabalho e, durante a pauta, tive a oportunidade de observar um rapaz preparar um cavalo para ser montado. Sela, estribo, cordas e mais cordas que não sei o nome, correntes passando pela garganta do bicho para que ele não abra a boca talvez, tapa-olhos e toda aquela parafernália horrorosa que se usa para se conduzir um cavalo.

Aquela cena me lembrou de outro momento de reflexão sobre coisas incomuns que já tive. Um dia, também viajando, parei pra pensar em como seria a vida de determinados animais se o ser humano não existisse para subjugá-los e determinar que os coitados dos bichos só devem existir em nossa função. Entre outras descobertas, li que cavalos, quando existiam na natureza, tinham a tendência de andarem em bando e de serem nômades e de viverem correndo por aí vivendo nos mais diversos tipos de ambientes.

Cavalos são lindos. Cavalos selados são horrorosos.

Neste mesmo dia de reflexão sobre cavalos, fiquei horrorizado de me dar conta, pela primeira vez, da crueldade que é criar bichos apenas para matá-los mais adiante. Bois, vacas, ovelhas, galinhas e toda sorte de bicho que chega à nossa mesa. Todos eles são criados em cercadinhos, felizes da vida, até que um dia decidimos que tá bom, vamos lá e pou já era o coitado do bicho, que vai chegar na minha mesa totalmente irreconhecível para que eu não pense sobre isso nem me incomode de saber que um bicho nasceu e cresceu apenas com o propósito de morrer porque eu decidi. Me incomoda comer galeto e derivados justamente pela semelhança com o animal vivo.

Antes de me julgarem hipócrita ou vegano chato hipster insuportável (não o sou, sou culpado, adoro um hambúrguer), não sou contra a ideia de nos alimentarmos de carne em si e nada disso. Eu seria extremamente hipócrita se o fosse. Até porque nada mais natural que um bicho comer outro (não apenas no sentido que eu pesquisei até os golfinhos). Mas, assim como somos os únicos animais capazes de tirar selfies e mandar nudes, somos também os únicos animais capazes de proporcionar uma subvida a outros animais, que são tão animais tanto quanto a gente.

Vi dois rapazes montados em cavalos saírem correndo atrás de bois, que seguiam o caminho que os rapazes mandassem e fiquei imaginando como a gente não teria chance nenhuma no mundo se os coitados dos bois e cavalos tivessem noção do tamanho e da força que eles têm em relação a nós. Quer dizer, se todos os animais fôssemos igualmente capazes de raciocínios complexos, nós já estaríamos extintos há milênios. Nem jesus cristo teria nascido.

Somos cruéis por essência. Nos espanta a todos uma pessoa assassinar outra a facadas. Espanta a alguns matarem bois com lanças compridas e marteladas na cabeça. Não espanta ninguém matarmos uma barata esmagada.

Imagino como deve ser o ponto de vista de uma formiga. Um dia como outro qualquer carregando sua folhinha que tem o dobro do seu tamanho pra dar de oferenda à rainha quando de repente o mundo escurece e cai sobre ela, ela sente um peso maior do que poderia imaginar em sua vida inteira e fim. Ela não faz ideia de nossa existência até que é tarde demais. Morro de medo de acontecer comigo. Morro de medo de existir uma coisa maior e mais inteligente que chegue um dia e decida pisar em mim.

E talvez exista. Também em minhas pesquisas meio sem noção pela maravilha da humanidade que são o google e a internet, não necessariamente nessa ordem, descobri uma teoria sobre vida alienígena no universo que diz que nós vivemos em um mundo criado por eles, como um the sims, e que por isso todas as características do mundo em que vivemos têm explicações lógicas e matemáticas. Assim, os alienígenas (deus talvez seja alienígena) criaram nosso mundo, nos criaram e decidem tudo o que fazemos, inclusive o momento em que vamos nascer e morrer.

Talvez sejamos como os bois que criamos apenas para matá-los. Talvez sejamos como as formigas vivendo nossas vidinhas insignificantes até que alguém maior e mais inteligente decida que já chega. Talvez não existamos de fato. O fato é que somos nada. Nossa existência é tão pequena nesse universo gigantesco que é muito provável que, proporcionalmente, sejamos menores que um grão de areia no fundo do mar. É importante pensarmos e nos lembrarmos disso de vez em quando.

Ou talvez eu só viaje demais nos meus pensamentos.