Desconforto

Besteira qualquer
Nov 5 · 3 min read

Micro-conto inspirado pela música Noite estranha, geral sentiu, de Letrux

Pego o celular para conferir as horas. Cinco da manhã. Não lembro quando foi a última vez que virei a noite sem conseguir dormir desse jeito. Essa vida de ônibus lotado e jornada de trabalho de quarenta horas não permite insônia. Chego em casa diariamente tão cansado que as únicas providências que tomo depois do trajeto de volta são um banho rápido, uma comida de micro-ondas e cama. Melhor que rivotril. Hoje não. Hoje virei a noite acordado. Depois de muito tempo, voltei a me sentir como quando adolescente, em que passava a noite conversando pelo telefone com meu namorado da época e, de repente, cinco da manhã. Não nos dávamos conta do tempo passando. Agora o que aconteceu foi o contrário. Nunca me senti tão sozinho. É engraçado como duas sensações completamente diferentes podem causar a mesma reação. Estar apaixonado causa insônia. Estar se sentindo sozinho também. Sinceramente, não sei qual das duas sensações é pior. Talvez pior ainda seja estar me sentindo sozinho com um homem dormindo ao meu lado.

Ele ronca baixinho. Não faço ideia de como ele pode estar dormindo tão profundamente depois do desastre que foi esse primeiro encontro. Não que fosse para ser um primeiro encontro primeiro encontro. Estava bem mais para um primeiro-último encontro porque saí de casa com a ideia de aliviar algumas tensões sexuais e voltar o mais rápido possível. Pensei que tinha deixado isso claro enquanto conversávamos pelo aplicativo. Não tenho tempo para me envolver. Minha vida de apatia não permite. Mas ele pediu para eu ficar. Depois do banho rápido para limpar gozos pregados em pelos de barriga, ele pediu para eu ficar. Até agora não entendi por quê. Mas fiquei.

Rio num sussurro ao lembrar de quando ele abriu a porta para eu entrar em seu micro apartamento. Pediu para que eu ficasse à vontade. Ele claramente não estava. Na hora notei uma gota de suor brotando de uma glândula sudorípara em sua testa. Que momento. Entrei, tentando diminuir o nervosismo que me havia contagiado. Ultimamente eu tenho andado tão apático com tudo que não me ocorreu ficar nervoso no meio do caminho. A cabeça vive vazia, como naqueles momentos em que a gente olha fixamente para o nada e não consegue desviar o olhar. Era assim a minha vida ultimamente. O nervosismo dele bateu em mim e não quis mais sair. Assim que me pediu para ficar à vontade, o desconforto que ele já sentia floresceu em mim e não saiu em momento algum. Nem quando me ofereceu uma água. Nem quando perguntou das minhas músicas preferidas. Nem quando ele ficou envergonhado por não conhecer minhas músicas preferidas. Nem quando, de repente, fomos para seu quarto — o que não demorou muito já que seu apartamento inteiro era o seu quarto. Nem quando transamos. Nem quando transamos pela segunda vez. Nem quando tomamos banho. Nem quando deitamos. Nem quando ele dormiu.

Uma transa desconfortável em uma cama desconfortável que levou a uma insônia completamente desconfortável. Tinha dito a mim mesmo que ia dar uma chance dessa vez. Tentar algo diferente. Dar uma chance para uma pessoa nova. Assim que ele adormeceu e eu fiquei observando o teto amarelado do seu quarto, tive a certeza de que aquilo não era para mim. Cinco horas da manhã. Agora talvez já sejam cinco e um ou cinco e dois. Daqui a pouco amanhece. Preciso sair daqui. Tiro, devagar, o braço dele de cima de mim. Ele respira fundo. Tenho medo de tê-lo acordado. Ele segue seu ronco baixinho. Respiro aliviado. Saio do quarto. Visto minha roupa. Deixo um recado mau caráter no maior estilo não é você, sou eu que prefiro não reproduzir porque nem eu consigo acreditar que escrevi algo tão filho da puta como aquilo. Saio do apartamento. Bato a porta devagarinho para não o acordar. Sigo para o ponto de ônibus. Não vejo a hora de chegar em casa. Argh, noite estranha, total climão.

Besteira qualquer

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Textos ao acaso de alguém que já perdeu o tino

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