Uma conversa filosófica (ou nem tanto) com minha louça

“Mas você, quando estava na faculdade, não era esse exímio escritor que espera que seus alunos sejam. Quem é você para julgar como eles escrevem?”. Meu prato gosta de falar assim, usando palavras que ninguém usaria numa conversa comum. Me lembra muito uma amiga de faculdade que me fez conhecer a palavra “sub-reptício” e sua etimologia no meio de uma conversa sobre putaria (sempre putaria). Sim, eu tenho uma amiga que usa palavras como “exímio” e “sub-reptício” no meio de uma conversa coloquial. Ele, o prato, adora fazer esse tipo de provocação durante determinados momentos do dia, principalmente quando estou massageando sua barriga com a esponja verde e amarela que ele tanto adora e eu tenho um pouco de nojo. Respondo que não. Não era. Escrevi umas reportagens medonhas, umas notícias que até hoje tenho vergonha de dizer que fui eu. Até hoje não sou. Só escrevo besteira, como dá pra ver claramente por tudo o que eu publico aqui. Meus alunos ainda têm salvação para não acabarem do mesmo jeito que eu, espero. Mas é isso. Sou culpado. Gosto de parágrafos intermináveis. Gosto de usar palavras impublicáveis em jornais em tudo o que eu escrevo. Pode reparar que sempre vai ter um cu, um caralho, uma buceta. Buceta com u, mesmo com o word sublinhando em vermelho, porque buceta é tipo suvaco: se escreve com “o”, mas fica muito mais bonito com “u”. “Algo até meio freudiano”, diz meu prato. Não conheço absolutamente nada de psicologia e culpo alguns professores da faculdade na mesma medida em culpo minha negligência com relação ao curso que iniciei aos dezessete anos. Negligência — e preguiça, sempre a preguiça — que me fazia ter o mesmo tipo de argumento que escuto hoje e percebo que não era argumento nenhum, apenas vergonha em dizer que não tinha feito, que não tinha conseguido, que não queria fazer, e que o professor fingia que não sabia que eu estava claramente tentando enrolá-lo do mesmo jeito que eu faço quando me dizem que estão tentando falar com a fonte sem nem terem ido atrás do número do telefone dela. Meu prato me diz que, se eu fosse parar para corrigir meus textos do mesmo jeito que corrijo os de meus alunos, ele sairia todo cheio de marcações. Não é verdade. Eles sairiam com um X gigantesco ligando as quatro pontas da folha A4. Mas essa é a verdade, preciso confessar. Adoro um período cansativamente longo e sou viciado em repetições. Querido aluno, repare o tipo de desgraça que eu escrevo. “Como você acorda todo dia?”. Rio do meu prato e penso que ele está me fazendo o tipo de pergunta que eu claramente diria ser ridícula se me fosse entregue em um texto. Acordo deitado. Abro o olho. O despertador toca. Como milhões de pessoas acordam diariamente. Meu prato filosófico que me questionava caiu na mesma armadilha que eu. O sujo (ele, literalmente) falando do mal lavado (eu, figurativamente, já que acabei de tomar banho). E repetição. Sempre repetição. Sempre repetição e sempre repetição desnecessária. Afogo o prato um pouco na água da pia e o deixo de escanteio no escorredor ao mesmo tempo em que uma xícara viciada em cafeína pede para eu não lavá-la, não arrancar dela o restinho daquela bebida milagrosa que descansa, escura, em seu fundo. É engraçado como minha louça fica cada dia mais parecida comigo: me questionando por tudo, viciada em café… Tem até um copo que vibra quando boto Alcione pra tocar na hora em que vou banhá-lo. Morro de pena de Adriana, minha xícara viciada em café, mas a situação está calamitosa. Tem que remover os resíduos. “Quem te vê assim conversando com a gente vai jurar que não bate bem da cabeça”. Quem diz isso é a faca peixeira com restos de cebola e frango do almoço e que aguarda sua vez. Uma pena que as pessoas não entendam que louça cria vida. É só deixar mais tempo do que o necessário decantando na pia que sua casa vira o próprio palácio da Fera. Cria vida. Digo isso por experiência própria. Cria vida mesmo. É bom que acabo criando laços com seres que antes me pareciam inanimados e com quem posso falar sobre tudo. Desde O império do efêmero, de Gilles Lipovetsky, que meu prato metido a besta adora e eu to enrolando tem três meses pra terminar, até a vontade de largar tudo e tentar a vida como vendedor de Avon, que compartilho de vez em quando com a cuscuzeira frustrada que sonhava, na infância, em ser panela de pressão, coitada. Ela não está na fila hoje. Ainda bem. Quero alguém que me anime. “Nunca perca a fé na sua capacidade para ter sucesso!”, me diz o coador que adora publicar imagens com frases motivacionais idênticas nas Stories de todas as suas redes sociais (porque agora tem em todas elas. Quem vê tanta foto e tanto vídeo, minha Elza Soares?). A última com quem falo antes de tudo fazer silêncio novamente é a minha tupperware poeta, que hoje decide recitar Leminski:

“entendo
mas não entendo
o que estou entendendo”.

Nem eu, amiga. Nem eu.

A pessoa quando mora sozinha tem dessas coisas. 
Começa até a conversar com a louça.

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