Varandas e cigarros, toddynhos, no caso

Pegou o maço de cigarros em sua cabeceira e seguiu rumo à varanda para sugar um pouco de nicotina para dentro de seus pulmões ao mesmo tempo em que observava o matagal, esta hora adormecido, que ficava de frente para seu apartamento, uma verdadeira reserva ecológica naquela cidade cercada por viadutos e avenidas com dez faixas. Tudo bem que não pegou, de fato, um maço de cigarros, já que não fumava, mas sim um toddynho na porta de sua geladeira que acendia toda vez que aquele pobre coitado acima do peso ia olhar o que havia em seu interior mesmo que já soubesse já que ele mesmo havia sido quem introduziu seu conteúdo ali, morava só. Pegou seu toddynho e foi para a varanda olhar a vida noturna no matagal que ficava de frente para seu apartamento, sua hora preferida do dia, o momento em que podia ficar com os braços apoiados na sacada tomando seu achocolatado e pensando nos acontecimentos deste dia e dos que poderiam acontecer no dia seguinte. Naquele dia, nada demais, a não ser a quantidade inimaginável de pó e cabelos que havia varrido mais cedo, coisa monstruosa, aprendera a varrer sua casa todo santo dia para não juntar poeira e cabelos, mas essas coisas simplesmente se multiplicavam durante a noite e a madrugada e, no dia seguinte, parecia que não havia varrido nada anteriormente já que a quantidade de poeira e cabelos só parecia se multiplicar, nunca mais julgaria o gato de sua avó por sair soltando pelos pelos sofás já que aparentemente ele fazia a mesma coisa com os seus pentelhos. No dia seguinte, também nada demais, sairia com uma amiga para comprar um varal já que o que tinha em casa não cabia nem meia leva da máquina de lavar de oito quilos que ostentava orgulhosamente, nunca mais espremerei roupas!, dizia, mas não tinha onde pendurá-las, precisava comprar um varal, e também uma tampa nova para sua privada que fazia cortes em sua bunda toda vez que sentava para ejetar o que mais cedo havia botado para dentro. Nada demais, a não ser que algo maior acontecesse, a não ser que se jogasse varanda abaixo junto com seu cigarro fumado pela metade, no caso, seu toddynho tomado pela metade, e se ver chegando de encontro ao carro da vizinha do duzentos e quatro que dormia exatamente abaixo de sua varanda, e iria caindo e caindo e caindo e caindo ao mesmo tempo que as cinzas de seu cigarro, mais leves, ficariam pelo caminho, chegariam mais tarde que ele, no caso, as gotas derramadas de seu achocolatado de caixinha, sendo que estas não caem tão mais devagar que corpos pesados de pobres coitados acima do peso e chegariam ao teto do carro da vizinha ao mesmo tempo que ele, o que não seria tão bonito se pensarmos na cena de alguém que se joga da varanda, mas, não sabe-se como, acaba virando-se para encarar a câmera que o filma de cima em câmera lenta, de quem vai se afastando a cada quadro que lentamente passa até que chegue a seu destino, o carro da vizinha do duzentos e quatro, mas, no último momento, volta a si, e lá está ele com seu cigarro de caixinha já dois terços mais vazio olhando o matagal à sua frente e pensando no quanto que sua mente era imaginativa, não apenas havia pensado em suicídio, mas já imaginava até como seria a cena quando retratada pelo cineasta que inventasse de fazer o filme de sua vida, mas quem haveria de fazer um filme sobre uma vida cujo ponto alto era ficar de madrugada fumando um toddynho na varanda olhando o matagal que ficava de frente para o apartamento onde o pobre coitado dono de tal vida morava? Provavelmente ninguém, mas agora já faziam filmes sobre tudo, tinha visto um inclusive que tinha uma cena de quarenta e nove segundos apenas do mar indo e vindo e indo e vindo e indo e vindo e indo e vindo e claro que alguém que consegue filmar algo tão monótono quanto o mar indo e vindo e indo e vindo filmaria tranquilamente pelo menos uma cena de um minuto e quinze daquele pobre coitado tomando cigarros de chocolate na varanda de seu microapartamento, claro que sim, teria o filme, mas o filme teria que esperar até o dia seguinte já que seus cigarros deste dia haviam terminado, quer dizer, seu toddynho deste dia havia terminado, cigarro ou toddynho ou tanto faz, você entendeu, eu acho, eu espero.

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