A Caça

Para me animar, uma amiga da minha irmã me deu um empurrão para entrar no Tinder e Kick off. “É o máximo, conheço gente que já casou pelo Tinder”, disse ela com muito entusiasmo. Não que eu queira me casar, mas, em teoria, conversar com alguém virtualmente é mais seguro do que ir à caça na balada. Lá fui eu colocar uma foto bonitinha de meu rosto, alguns pouquíssimos dados e elegi uma faixa etária de homens compatível com a minha.

Silvio, 39. Nope. Estranho.

Arnaldo, 45. Nope. Entra na piscina com óculos de grau.

Soares, 41. Nope. Faz as sombrancelhas.

Sidnei, 41. Nope. Foi a Alemanha e se fantasiou com trajes típicos.

Peter, 47. Nope. Fala norueguês ou alguma língua daquelas bandas e português e aparece seminu com seu corpanzil de pelos, muitos pelos, dourados.

Eduardo, 44. Nope. É bonitinho, mas, com certeza, pagou para alguém fazer um book para aparecer bem na foto.

Alexandre, 41. Nope. Amigo de uma conhecida chata. Não dá.

Andre, 39. Nope. Se diz um flaneur e homem de tempo lento. Hoje em dia?

Jonas, 43. Socorro. Nope, nope, nope.

Com tantos sites de encontros, buscar a cara metade hoje em dia é um estímulo à arte de se vender. Só que muitas vezes extrapola o bom senso. Eles tiram fotos semi ou totalmente nus, uma preferência dos abaixo de 30. Fazem selfie no banheiro da casa, mostrando no reflexo do espelho a escova de dente gasta e o chuveiro recém usado.

Outro fetiche no Tinder é mostrar os peitinhos. Os homens. Tudo bem que pode ser um sexy appeal para algumas pessoas, mas imagine como fica na telinha do celular.

A pose sovaco também é uma tara dos tindermaníacos. Muitos levantam o braço esquerdo ou direito e fazem biquinho para câmera. Sunga. azul celeste ou a muito duvidosa branca é o must do verão ao inverno. Marcelo, 41, com seu calção lilás, convida para um mergulho na piscina bacana.

Muitos no Tinder nunca pegaram em uma máquina fotógrafica, mesmo nesta era de todo mundo ser um pouco Cartier Bresson com celulares nas mãos. Haja fotos desfocadas e tremidas. Uma parceria com Peixe Urbano para vender aula de fotografia daria muito certo.

O Tinder é o livro de nomes-show-de-horrores para bebês. É uma criatividade inédita: Rufus, Ivson, Rag, Tonicio. Fora os Ricardo com dois Ds, Charles com dois Ls, Walter com H entre o W e o A. Uma lista longa que, a cada passada de dedo na tela do celular, acaba com qualquer tesão. A descrição do perfil varia de letras de música a sinceridades como sou casado e busco um caso.

Mas mesmo com tudo isto, continuo a entrar todos os dias nos sites e, entre milhares de opções, escolho um ou outro que, quem sabe, possam ser um match.

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