Novo Mundo, a melhor diversão de ficção da tv aberta

Oi. Faz tempo, né?

Mas também faz tempo que não vejo uma boa novela e não achei que escrever um texto para reclamar de novo e de novo sobre a mesmice, o machismo e a falta de qualidade de texto numa novela seria legal, seria chover no molhado.

Mas aí apareceu Novo Mundo, despretensiosa, uma fantasia capa e espada que vem a cada dia se provando mais e mais deliciosa. Amo tanto que é provável que ficará um texto chato, cheio de elogios rasgados, mas vá lá, estou a fim de compartilhar meu encanto e faz tanto tempo que não achava uma novela para chamar de minha que já tinha desistido do título de noveleira.

A trama não tema pretensão histórica apurada como foco, mistura fantasia e realidade. O desavisado e pouco conhecedor ad história terá, por exemplo, que naquela época o Rio De Janeiro era coalhado de abolicionistas e o movimento era florescente. De fato, José Bonifácio era abolicionista, mas a sociedade brasileira de modo geral achava a escravatura uma coisa perfeitamente natural, fazendo parte do que achavam ser nossos usos e costumes, ademais, proporcionava grandes lucros para todos os envolvidos (não mudou tanto né).

Outros enganos que a novela pode proporcionar é sobre a personalidade de Domitila (Agatha Moreira, linda), amante de Dom Pedro e até onde consta, seu grande amor. Na novela é a megera que amamos odiar, a devassa, ladra de homens etc etc. Ao pesquisar um mínimo sobre ela não será bem assim. Sabia dos encantos, viveu um péssimo casamento, com muita violência doméstica e quase morreu pelas mãos do seu marido.

Mas há Leopoldina, um dos pontos altos da trama. Faz jus a imperatriz a ideia de grande estadista, culta e que teve influência definitiva na independência do Brasil e ao mesmo tempo uma mulher atormentada pelas traições do marido. Mas a fantasia nos entrega algo melhor que a realidade, Letícia Colin está luminosa e encantadora, não tem como não se apaixonar e torcer peal imperatriz da tv. Arfante na medida certa, nariz vermelho de tanto chorar, altiva e generosa. A gente torce tanto pela princesa que até se esquece que o apaixonado Bonifácio da trama nada tema ver com o vetusto senhor dos livros, uns 50 anos mais velho que ela, e numa composição acertada de Felipe Camargo faz a gente até suspirar por esse amor impossível. E como não mar uma novela que a faz a gente suspirar pelo amor impossível de personagens carismáticos? Par nossa felicidade não veremos a morte ad princesa que foi tão amada pelo povo, a novela termina coma declaração da independência. Acho que eu não ia aguentar ver essa Leopoldina sofrer tanto (ah e recentes exames nos restos mortais da imperatriz desmentem que tivesse morrido em decorrência de violência doméstica);

Ok, o casal Joaquim e Anna, baseada numa amiga real da princesa, Maria Graham., são um casal fofinho, ambos estão ótimos, as cenas de aventura são deliciosas e a escapada no balão foi incrível e linda. Mas desnecessário ter um branco salvando os índios (mais uma vez) , nem vou entrar no mérito de que podiam ter encontrado atores indígenas pra os papéis dos índios . Mas a aventura anda tão deliciosa que lá pras tantas a gente esquece de ficar problematizando e passa a amar Jacira, a índia feminista, que não quer ficar na tribo fazendo trabalhos femininos, quer caçar e pescar e faz isso melhor que qualquer índio. Aliás, Jacira protagonizou com Miss Liu uma cena estilo kill bill de lutas (ok, exagerei um tico) e levou a melhor. Bem mais legal que UFC. Eu gritava pra tv : #VaiJacira (desculpa, empolguei, mas amo Jacira). Enfim, deu para notar que tem muita gente roubando a novela dos protagonistas né? Não que sejam ruins, o resto que é melhor.

Não posso deixar de falar sobre O Dom Pedro de Caio Castro, nem gosto dele e tal, mas a escalação ficou perfeita. Está ótimo de Dom Pedro, a gente ama e odeia ele todos os capítulos. Aliás, escalação perfeita é a tônica desse elenco. Todos estão perfeitos e a gente ama e odeia tanto quando é para amar e odiar que já começo a sofrer de saudades porque a novela vai acabar em setembro.

Falando em roubar a novela chegamos à cereja do bolo, algo que não pode falta numa novela das 6 e está impecável nessas, bem dosado e divertido: o núcleo cômico. Nunca pensei que ia amar tanto Ingrid Guimarães, no início o sotaque fantasia de português (os portugueses devem ter um treco ouvindo) me irritava profundamente. Mas aí, Ingrid provou ser grande atriz e comediante e roubou o resto ad novela (Anna, quem é Anna?). Elvira Matamouros, grande atriz portuguesa, segundo ela mesma, é de rolar de rir e para coroar a diversão Elvira se disfarça de Madame Dalila, que tudo sabe, tudo vê. Vou nem tentar descrever o tanto que ri da cigana charlatã e suas cenas com os demais personagens do núcleo cômico, inclusive os ajudantes da casa real. Só sei que é a coisa que mais me diverte atualmente e me salva da depressão profunda ao lembrar da realidade do país. E ainda tem o amor tão bonito de Elvira pelo filho Quinzinho, um garoto fofíssimo que não fala em cena mas encanta muito.

No núcleo cômico da taverna ainda temos Licurgo e Germana (Viviane Pasmanter irreconhecível). E eu não sabia que Viviane Pasmanter era tão boa no humor, ela e Guilherme Piva tem uma química maravilhosa em cena e ela está tão incrível que eu queria dar um prêmio para ela. Para fechar o núcleo de humor temos Hugo (César Cardareiro, excelente) e na casa real o mordomo pedante e metido, mas divertido, Patrício (André Dias, perfeito).

Como vilões odiosos que guardaremos no coração tem o escravagista Sebastião, interpretado brilhantemente por Roberto Cordovani (espero que fique no Brasil e nos brinde mais) e Rafael Braga Nunes que sabe ser um vilão canastrão e odioso como poucos, Thomas é ótimo de se odiar com todo o coração.

Por fim, a cenografia, figurinos e efeitos especiais estão ótimos, amo a música da abertura, aliás, a parte de músicas orquestradas, trilha original incidental, da novela é incrível, fui fuçar e descobri que é trabalho do Sancha Amback ( http://gshow.globo.com/Musica/noticia/trilha-sonora-de-novo-mundo-tem-predominio-de-musicas-originais.ghtml ) Amo nível abertura de GoT. A da direção que me parece precisa, a cargo de Vinícius Coimbra e equipe e o ótimo texto (com boas pitadas de críticas à situação política do país, ao machismo e ao racismo) de Thereza Falcão e Alessandro Marson que não criou barriga até agora e mantem acesso o interesse na aventura fazem de Novo Mundo a mais gostosa diversão do momento na tv aberta. Aliás, grande prêmio pro texto, sem um bom texto, bons personagens, o resto não segura sozinho.

Só peço desculpas a quem gosta de me ler e gosta de novela por ter demorado a escrever sobre a novela e vocês terem perdido tanta diversão, mas fiquem aí com essa cena da Ingrid e da Viviane só para ter um gostinho. Quem puder, assista na globo play, vale muito os 35 minutos de descanso da cabeça que a gente tem (e anda precisando).

https://globoplay.globo.com/v/5977463/

e da Leopoldina com José Bonifácio que fez a gente suspirar ❤

https://globoplay.globo.com/v/6003272/

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