IGREJA COMO ESPAÇO DE INCLUSÃO
O mito da criação do primeiro no casal registrado no Gênesis tem sua arquitetura montada sobre a ideia de que todos os humanos têm uma mesma origem, todos são descendentes de apenas um. A ideia de unidade é tão forte na criação do primeiro casal que ao se unirem, Deus considera que os dois são apenas um. Essa consideração não se restringe a união pelo encaixe do sexo apenas, como costumamos pensar, mais que isso, ela é ampla e fala da mútua dependência dos membros da espécie humana. No princípio era a mútua dependência e o acolhimento sem restrições. Se todos vieram de um, todos são um e não há legitimidade em separações e cismas, sejam eles de qualquer natureza. Segregações e sectarismos são bem posteriores, não fazem parte da constituição originária da espécie humana.
Jesus era participante dessa antiga mentalidade de que da união de dois um se forma, por isso as obras que ele faz em nome do Pai testificam a seu respeito (Jo 10.25). Quer dizer, que ambos, ele e o Pai, estão unidos e são conscientes de que um acolhe o outro, podendo afirmar: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30).
A ideia de mútua dependência fundada no princípio de que todos são um é tão forte na mentalidade sobre a obra de Jesus, que Mateus vai dizer que para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas dores. Nos encontros de Jesus com gente sofrida ele sofria junto. É lindo que em vários desses encontros o evangelista usa um termo que expressa o sentimento de Jesus ao participar do sofrimento alheio: “Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero fica limpo” (Mc 1.41, grifo meu). No encontro com o leproso o termo para “profundamente compadecido” em grego é splanknistheis, que traduzido literalmente significa piedade, mostrar simpatia, compaixão, agir com as parte interiores, sentir com as entranhas, ao se deparar com o sofrimento sentir um nó subir pela garganta. Jesus sente com as entranhas por que se identifica radicalmente com os membros de sua espécie. Jesus sente com as entranhas ao entrar no cortejo fúnebre de uma mãe viúva da cidade de Naim levando seu filho adolescente morto para ser sepultado. Ele se vê participante no mesmo sofrimento, ele acolhe a mesma dor daquela mulher como sua própria dor. Jesus sente com as entranhas por e com aqueles que estão existencialmente sem rumo, cansados de peregrinar sem encontrar descanso (Mt 9.36).
É fundamental reconhecer que em Jesus se agita o espírito da inclusão, porque foi ele quem primeiro quis se incluir na história e fez da inclusão o leit motiv da sua existência. Porque Deus amou tanto o mundo, diz João – e não apenas alguns –, foi que ele enviou seu filho. Jesus tornou-se reconhecido em forma humana porque decidiu agir e participar dos mesmos dramas da humanidade, como escreve Paulo aos filipenses.
Essa mentalidade inclusiva de Jesus está presente no Antigo Testamento quando a noção de santidade (kadosh), ser “separado” assim como Jeová, começa a ser divulgada. O código levítico elaborado no cativeiro babilônico fala de separação, no entanto eles estão cativos e convivem com seus inimigos. Uma fala do próprio Jeová mostra que ficar separado não é distanciar-se dos outros à maneira de um retiro acético, pois diz: “Estabelecerei minha morada no meio de vós […] Andarei entre vós e serei o vosso Deus” (Lv 26.11,12, grifo meu). Karen Armstrong explica essa fala de Jeová de maneira surpreendente; “a Babilônia poderia tornar-se outro Éden, onde Deus havia caminhado com Adão no frescor do entardecer” (A Bíblia [uma biografia], p. 32). Armstrong lembra que a partir dessa ideia, um forte componente ético se estabelece de vez entre os israelitas, devendo eles respeitar a “alteridade” sagrada de cada criatura. “Nada, portanto, podia ser escravizado ou possuído, nem mesmo a terra. Os israelitas não deviam desprezar o estrangeiro” (idem). O código levítico é explícito: “Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis. Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-los-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus” (Lv 19.33-4). Armstrong bem observa que, a visão do autor dessa passagem é inclusivista, e justamente por estar em situação de alheamento e exílio, ele enfatiza constantemente a importância da reconciliação com os ex inimigos. Estar como exilado e cativo trouxe sobre o escritor levítico, e tudo indica que ao povo também, a noção de que partilhavam da mesma condição do estrangeiro, e por isso deveriam sentir como sentia o estrangeiro, “pois estrangeiros fostes na terra do Egito”, esse era motivo de sobra para que o não israelita fosse incluído e acolhido no meio do povo.
Jesus conta a parábola de um grande banquete (Lc 14.15-24) como o mais forte exemplo do espírito de inclusão que Deus instaura com a chegada do Reino. O grande banquete estava pronto, muitos foram convidados. À hora de ser servido foram avisados de que já estava pronto, mas todos os convidados começaram a esquivar-se recusando e fazendo pouco caso do nobre convite, o que naquela região e naquele contexto era, e ainda é, uma grande ofensa ao anfitrião. Então o dono da casa (o próprio Deus) deu ordens ao servo para que saísse depressa às ruas e becos (lugar de gente de índole duvidosa) e trouxesse para a mesa os pobres, os aleijados, os cegos, os coxos. Havendo ainda lugares vazios à mesa, disse Deus: “Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa”. A comida preparada para gente de boa estirpe acabou sendo comida por gente que vivia à margem da sociedade (pobres), gente estigmatizada colocada em desvantagem na vida (aleijados, cegos, coxos). Deus transforma o grande banquete em uma mesa para os excluídos, uma festa de inclusão, com isso Jesus está dizendo que se alguém tinha em mente que Deus mantem certa preferência por gente alinhada, limpa, cheirosa e perfeita, esta ilustração repara essa noção e expõe uma grande verdade sobre Deus; seu desejo é sempre incluir, e mais ainda, incluir os excluídos.
No começo da igreja, em outro banquete, Paulo também é movido pelo espírito de inclusão quando orienta aos que participam da mesa a que façam exame de consciência para perceberem se estão discernindo o corpo, depois comam do pão e bebam do cálice. O exame não é para excluir, como muitos pensam, pelo contrário, é para incluir. Examinem-se, depois comam e bebam!
Jesus vai andando e incluindo no Reino todos os excluídos. É o leproso que ele toca e lhe devolve a dignidade e o convívio social. São as crianças que não contam em seu tempo e que ele diz que são as legítimas herdeiras do Reino. As mulheres que ocupavam lugar inferior na sociedade judaica são valorizadas por ele e tem papel fundamental em seu ministério; não é toa que são as primeiras a vê-lo ressuscitado. Uma estrangeira (cananéia) intercede por sua filha e encontra acolhida em Jesus. Um centurião da guarda romana (estrangeiro) pede por seu criado doente e recebe a atenção de Jesus. Uma mulher samaritana em pleno meio do dia à beira de um poço é valorizada por ele, deixando seus discípulos encabulados.
Como sinalizadora do Reino a igreja deve ser inclusivista. Contudo, não é tarefa fácil, pois, isso requer duas coisas. Primeiro, ter disposição em aceitar e acolher o excluído. Segundo, promover espaços de inclusão. Não há fórmulas para que uma igreja seja acolhedora e promova de espaços de inclusão. Porém, existe um caminho para que ambos aconteçam, o caminho da imitação de Jesus. Jesus é o exemplo a ser seguido como alguém que não fez pouco caso dos excluídos e marginais acolhendo-os e abraçando-os nas condições em que se encontravam. A grande barreira que nós, membros de igreja levantamos para acolher o excluído na condição em que ele se encontra, é que ele está em nosso imaginário como o diferente, o deslocado, o ímpio, aquele que não aproveitou as oportunidades que a vida lhe deu, que algo ele fez de errado para estar na condição em que está pagando por suas decisões. Aceitar que ele talvez não vá se tornar alguém à nossa imagem e semelhança, continuando sendo diferente, talvez com suas dificuldades e limitações mentais, físicas, psicológicas, religiosas, suas lutas com a sexualidade, é, para nós, um contrassenso da mensagem que julgamos compreender de Jesus. No entanto, essa barreira que levantamos é decorrência da nossa compreensão de igreja como um lugar para a manutenção de gente certinha, alinhada, cheirosa e resolvida, e não perece que seja essa a ideia que Jesus tem de igreja. A casa do dono do banquete ficou cheia de desalinhados, pobres, coxos, aleijados, vagabundos, ébrios, e de toda a natureza de pecadores.
Espaços de convívio têm de ser abertos primeiro no coração da comunidade, no centro pulsante da vida da igreja e aqui é preciso que a comunidade se mova e coloque em curso um outro movimento, não para incluir o excluído primeiro, mas o movimento têm de ser da comunidade se incluir na vida do excluído, assim como Jesus se incluía. O paradoxo da aceitação é a comunidade ser aceita e acolhida pelo excluído, só assim diminuem as tensões, as desconfianças de ambas as partes. Não basta incluir o excluído, é preciso que a comunidade se inclua, seja participante dos seus sofrimentos e dificuldades.
Quando a comunidade se inclui na vida do excluído ela percebe que a tarefa não é simplesmente se esforçar para modificá-lo, mas sim a própria comunidade ser modificada no exercício de acolhimento e aceitação. Com isso, ela aperfeiçoa sua sensibilidade e o excluído pode realizar sua humanidade.
Alex Carrari
