NINGUÉM EXISTE SOZINHO
Numa sociedade onde o senso de egoísmo é apurado pela propaganda massificadora que incita a competição de mercado, está se esvaindo a noção de que somos uma raça comum e que partilhamos uma mesma história de mútua dependência.
O olhar lançado na direção do outro é um olhar predatório; o que é que eu ganho ou perco me aproximando daquela pessoa? As relações são de interesse econômico. As amizades são virtuais e a morte do semelhante um fato banal.
Nesse contexto de absoluto individualismo e desamor ao semelhante, a ética cristã se apresenta como única saída possível para uma prática comunitária de respeito e compaixão aos que se ligam pela gênese comum dos homens.
Referenciados em Jesus percebemos que uma das suas grandes lições foi chamar doze homens de matizes diversos — alguns com caráter e comprometimentos duvidosos, indicando que progredir como humanos só é possível se nos relacionarmos e nos amarmos como iguais, mesmo quando tão diferentes. Homens com os quais ele gostava de estar junto, desejando com eles comer a sua última refeição. Homens com os quais dividiu seu projeto de vida; o Reino de Deus, identificando-se com eles de tal maneira que mesmo sendo seu mestre preferiu chamá-los de amigos. Homens tão íntimos, aos quais, no Getsêmani, na derradeira hora da vida, pediu a companhia.
Talvez por participar dos dramas e se identificar de forma tão profunda com a raça humana ele chorou a morte de Lázaro, sentindo a perda do amigo, seu semelhante. Por isso, ele eternamente se compadece dos que são esmagados pela dureza da vida, pois ainda chora com os que choram.
A noção de comum-unidade e dependência é o que move e faz viver a comunidade que recebe seu Espírito. Antes de ir para o Pai, Jesus disse aos amigos: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34–35).
Amar o outro conforme Jesus nos amou é colocar este outro como centro do nosso cuidado, reconhecendo que ninguém resiste aos baques da vida sozinho, ninguém existe sozinho, e que antes de buscar o meu benefício próprio tenho que me lançar na direção do outro e sanar suas necessidades.
No século XVII, doente e à beira da morte, o poeta e pregador inglês John Donne, ao ouvir as badaladas incessantes dos sinos da igreja que anunciavam a todo instante a morte de mais uma vítima da peste negra, escreveu estes versos maravilhosos:
“Nenhum ser humano é uma ilha. Se um punhado de terra é levado pelo mar, a Europa fica menor (…) A morte de qualquer homem rebaixa-me, pois estou envolvido com a raça humana, e, portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti” (Meditações).
Donne percebeu que o drama coletivo da raça humana era o seu drama particular, que um único ser humano é toda a humanidade.
Reconhecer que a vida do outro me diz respeito é humanizar-me, é partilhar o mesmo sentimento do Deus que tanto amou o mundo que por ele se humanizou. Humanizar é tornar-me aliado do Deus que não age pela meritocracia; do Deus que faz nascer o sol e faz chover a chuva sobre justos e injustos; que não faz acepção de pessoas. Ele mesmo, que quer a vida eterna para todos, para que onde ele estiver, estejam todos também.
Alex Carrari e Paulo Silvano
Fonte lectiosblog.wordpress.com
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