Greta

Bethania Brito
Sep 4, 2018 · 2 min read

Permitam-me começar esse relato previamente me desculpando por futuras omissões. Espero que compreendam. Não há como tudo relatar sobre algo ou alguém; sendo que nesse caso específico a tarefa torna-se uma impossibilidade visto que fiquei em presença de Greta por meros três minutos.

Uma palavra pode se transformar num texto, uma pessoa pode modificar uma existência, três minutos podem transformar um dia. Não serei exagerada a ponto de dizer que Greta me mudou completamente, não obstante, se a mesma fosse alguém fugaz ela não estaria presente nessas palavras.

Era uma noite estranha, por volta das dez horas da noite quando decidi sair a procura de um bar e mais precisamente de uma cerveja. Tinha passado horas investigando exaustivamente as causas de um desligamento súbito de meu computador. Logo, encontrava-me exausta, derrotada, sedenta e faminta.

Após uma pequena caminhada entrei em um estabelecimento cor de menta. Não recordo nome, rua ou aspecto mas sua cor ficou gravada em minha consciência. Lá dentro tudo remetia de alguma maneira a frescor. Nesse ponto vale reiterar que não estava sob efeito de nenhum tipo de drogas, minha maconha tinha acabado dias atrás e a muito havia abandonado os sintéticos. O ambiente realmente tinha algo de revigorante, a semelhança de beijar uma boca que acabou de usufruir de um Halls.

Sentei-me no balcão e logo pedi uma cerveja. Tentei iniciar algum desenho no Moleskine que sempre me acompanha mas nada me atingiu. Há tempos estou a viver uma espécie de prostituição do trabalho criativo, uma libertinagem monstruosa. Nada desenho contudo fico mal. Fico mal logo nada desenho. Uma espiral de culpa e depravação se principia dessa maneira.

Três cervejas e nenhum desenho depois vi uma nuca. Sim. Uma nuca. Não soube dizer a princípio se de homem ou de mulher o que despertou ainda mais a minha atenção. A nuca se movia no cadenciamento da música de fundo como se possuísse vida própria separada do corpo. Até hoje tento encontrar motivos para isso contudo não me mostro vitoriosa.

A nuca que a princípio encontrava-se totalmente relaxada contraiu-se. Uma linha formou-se no lugar onde segundos antes uma tela plana se vislumbrava. Não consigo expor em palavras mas durante os minutos, os exatos três minutos que encarei aquela nuca o medo e o horror me paralisaram. Decorridos o que para mim foram horas e não minutos a nuca levantou-se, pagou a conta e saiu do bar verde menta. Imediatamente o frescor voltou a reinar.

Muitos podem achar de todo estranho e de certa maneira tosco todo o meu relato. Apenas reitero que o medo é imprevisível. Alguns temem o escuro, outros roubos, outros espíritos… Eu por algum momento temi uma nuca.

Não menospreze esse texto visto que aquela nuca despertou em mim sentimentos asfixiantes. Em você essas tenebrosas emoções podem ser despertadas por um cachorro, um nariz ou mesmo outro ser humano.

Resta esclarecer por que apelidei a nuca de Greta visto que não troquei nenhum tipo de contato direto com a dona do tal pescoço. Ainda procuro a fresta, a rasura, a razão para tal fato.

    Bethania Brito

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    Quase escritora e filósofa, amante de literatura (especialmente a russa); escrevo sobre nomes, por nomes e para nomes…