Ohana

Bethania Brito
Aug 31, 2018 · 3 min read

Sim, eu sei que Ohana quer dizer família.

Sim, meus pais colocaram esse nome pensando nisso.

Sim, eu gosto bastante do meu nome.

Sim, às vezes essas perguntas cansam.

Eu costumo parar no terceiro sim. O quarto sim guardo para alguns poucos amigos, uma ou duas pessoas extremamente chatas e meus cadernos.

Eu escrevo em cadernos desde que me entendo por gente. Preencho páginas e páginas com rasuras de livros, alguns poucos pensamentos — entre eles os relativos ao meu nome — listas de supermercado e algumas cartas de amor.

Vi que um filme anda fazendo muito sucesso nesses últimos dias, algo sobre uma menina que escrevia cartas de amor para todos os meninos aos quais ela tinha sido apaixonada. Ela nunca as mandava, até que um dia, sem a sua permissão, as cartas são enviadas. Tudo obviamente dá certo no final e o envio das cartas não provoca maiores estragos.

Parei para pensar no que aconteceria se as minhas cartas de amor dispersas em vários cadernos fossem enviadas. Primeiro que as minhas primeiras cartas de amor eram endereçadas a homens imaginários, o menino perfeito que me daria um beijo após conversar comigo durante longos e prazerosos dias. Que romântico Ohana!

Assim sendo, minhas primeiras cartas de amor não poderiam ser enviadas visto que esse homem nunca apareceu na minha vida. Mas quando as cartas começam a ter um destinatário — diferentemente da menina do filme da Netflix eu nunca coloquei endereço, dirá um selo nos meus rascunhos — todos eles são nomes masculinos; e eu tenho vontade de pegar todas essas pseudo cartas de amor e escrever embaixo: “não era amor, era heterossexualidade compulsória”. Essas cartas seriam enviadas a homens que eu nada senti, a não ser uma extrema vontade de pertencer. Pertencer em um mundo hétero onde adolescentes falam sobre os meninos gatos da escola.

Essa fase felizmente passou e hoje eu vivo num mundo onde posso falar sobre como aquela menina é linda ou sobre como aquela outra beija muito bem. Agora chegamos as cartas que realmente importam: aquelas destinadas as mulheres que amei. Há duas cartas entre alguns outros escritos que não chegam a serem cartas realmente ditas.

Uma delas eu não sei nem mais onde se encontra a tal menina e muitas vezes me pego pensando nela quando penso em relações mal resolvidas.

Como seria se após esses anos ela recebesse uma carta escrita pela Ohana de anos atrás? Ou seria melhor eu escrever uma carta da Ohana de agora? Não obstante, a Ohana de agora não escreveria uma carta de amor, no máximo um recado de como andam as coisas por aí.

Algumas coisas não merecem serem revistas e muito menos reescritas.

A minha segunda carta de amor para uma mulher eu mostrei para a garota em questão e decidi que a partir daquele momento eu mostraria todas as minhas cartas de amor às minhas pessoas amadas.

Algumas coisas quando faladas tornam-se mais reais e concretas. Nós fazemos muito apenas proferindo uma sentença.

Sendo assim, eu acho que no final não tenho cartas de amor a serem enviadas. Tenho sim e assim espero, cartas a serem escritas e mostradas. O amor é lindo demais para não ser propagado, falado, gritado…

Sim, Ohana quer dizer família, em todos os seus modos, cores e variedades.

    Bethania Brito

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    Quase escritora e filósofa, amante de literatura (especialmente a russa); escrevo sobre nomes, por nomes e para nomes…