Chegaram atrasadas para o por do sol. Esse deveria ser o espetáculo principal que veriam em cima do morro, de modo que chegaram até a entrada do Vidigal um tanto desanimadas. O motivo do atraso fora uma libriana e uma geminiana tentando decidir algo. A libriana não conseguia e a geminiana decidira 35 vezes que sim e que não em 35 minutos. Até finalmente chegarem num consenso.

Desceram do táxi na entrada da comunidade e a diferença de temperatura entre o ar condicionado gelado e seco no interior do carro e o ar abafado e úmido do lado de fora era um presságio da amplitude de realidades que experimentariam entre o mundo que conheciam e aquele que se apresentava morro acima.

Perguntaram na parada de ônibus lotada onde encontrariam a combe que as levaria até o bar da laje. Com jota, mesmo. Os moradores foram apontando até encontrarem numa curva, logo depois de um enxame de motos e um carro da polícia, uma combe com a porta aberta e um motorista barrigudo e preguiçoso esperando na calçada.

  • Essa é a combe que sobe pro bar da laje?
  • - É sim.
  • - Que horas parte?
  • - A hora que encher.
  • - Mas não tem ninguém aqui!
  • - Se vocês entrarem na combe lota mais rápido.

Sem pensarem muito se jogaram para dentro daquele veículo todo remendado e, como num passe de mágica, em um piscar de olhos a combe estava lotada. Metade dos passageiros era da comunidade e metade eram “estrangeiros” como elas, procurando por uma experiência antropológica fora de suas realidades.

A combe começou a subir e era difícil acreditar que ela daria conta de tanta inclinação. Mil combes subiam, mil táxis desciam e mais mil motos subiam e desciam num espaço tão estreito que todo aquele movimento parecia estar sendo finamente regido por algum tipo de maestro invisível. Da janela da combe dava pra ver a televisão da sala, a manicure fazendo a unha da cliente, dois irmão cortando os cabelos; dava pra sentir cheiro de pastel, de alho frito, de pão saindo do forno; dava pra ouvir funk, pagode e sertanejo. Se arriscou a cantar na janela e foi repreendida por um senhor jogando sinuca em um bar: “Shiiiuuuu, não cante. Me deixe ouvir a música”. Ele deu uma tacada no bilhar e a cena mudou antes que ela pudesse se desculpar. Chegaram no alto do morro e o motorista anunciou que haviam chegado a seu destino.

Caminharam em um corredor estreito que não podia ser classificado como rua nem como calçada. Dobraram, desceram uma escada, atravessaram uma rua de ladrilhos e encontraram o tal bar da laje. O sol já havia ido embora, mas o espetáculo daquele lugar era outro. O espetáculo era o próprio morro: um organismo pulsante e coordenado que funcionava como uma engrenagem, como uma célula viva alimentada pela energia do caos.

(Continua…)

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