Ela subiu os andares da livraria atras de um livro do Carl Sagan. O vendedor do térreo informou que ele estava no terceiro andar. Ela estava obstinada. Teimou que precisava reler o poema de William Blake que uma vez lera nas páginas de “Contato”. Queria mandar aquele poema a um amigo e havia revirado a internet na noite anterior e não encontrara. O poema dizia o seguinte:

“Pequena mosca

Com minha mão

Bruta, cortei

Teu jogo vão.

Não serei, mosca,

Um igual teu?

Ou não és tu

Homem como eu?

Pois amo a dança,

Canções, bebida,

Até que a mão cega

Me corte a vida.”

(William Blake)

Guilherme havia matado uma mosca na sua frente algumas semanas atras e ela o recriminou veementemente. Guilherme falou que ela era chata demais e politicamente correta demais. Ela teimou que aquilo não tinha nada a ver com o direito dos animais, tinha a ver com um poema que tinha lido, mas não lembrava ao certo o que o poema dizia. Só lembrava que nunca mais matou uma mosca depois de lê-lo. Então, virou uma questão de honra encontrar o tal poema e mostrá-lo ao Guilherme.

De volta à livraria, já no terceiro andar ela começou a procurar o livro nas estantes com os olhos: “artes”, “história”, “filosofia”, “psicologia”. Impaciente pensava: “onde eu acho Carl Sagan aqui?” Se aproximou de um menino com o uniforme da livraria já suspeitando que havia subido 3 andares em vão naquele calor de Floripa. Perdida em seus pensamentos foi atropelada por uma adolescente e perdeu a vez com o único atendente da loja naquele andar. Continuou vasculhando as estantes: “moda”, “turismo”, “biografias”…Pegou o livro de Bob Dylan na mão, leu algumas paginas. O atendente estava livre de novo: agora ele a ajudaria, pensou. No que o homem virou as costas e desceu as escadas. “Ótimo! Vou desistir da porra desse poema.” Mas como não era de se dar por vencida facilmente, resolveu dar uma última volta ali.

Desviou o olhar das estantes e encontrou uma grade giratória de livros. Os olhos brilharam quando viu o livro de Carl Sagan ali. Agora era só encontrar o bendito poema naquelas 355 paginas. Moleza! Abriu o livro e deu de cara com o poema. Era seu dia de sorte. Pegou o celular, fotografou a página e foi descendo as escadas aliviada. Guilherme nunca mais mataria uma mosca. Missão cumprida.

Passando pelo segundo andar um livro de Metidologia Scrum a chamou atenção próximo as escadas. Parou, abriu o livro e aquele vendedor que deu as costas pra ela se aproximou. Ele perguntou: “encontrou o que queria?” Ela respondeu sem erguer os olhos do livro e de forma seca: “Sim, encontrei. Obrigada.” Na outra mão ela tinha um livro de contos de relacionamentos que não deram certo e tentava esconder o título: “Amor(ex)”. Ela era muito orgulhosa pra admitir a quem quer que fosse que estava comprando um livro “desses”. Ele se desculpou, disse que percebeu que ela precisava de ajuda mas estava atendendo outra cliente e precisou descer. A gentileza chamou sua atenção e ela finalmente levantou os olhos e fez contato visual com o moço.

Ele tinha cara de menino, fisionomia familiar, uma barba bem feita que parecia macia, olhos tão escuros quanto brilhantes que pareciam sorrir pra ela e, apesar da barba ser grande, seus lábios eram bem contornados e se sobressaíam. Ele falava qualquer coisa que ela ouvia a uma distância de quem não estava ali. E de fato ela não estava. Havia se transportado para aquela dimensão do espaço-tempo onde os segundos duram horas e o som das palavras se arrastam demais para serem compreendidos. Ele se afastou e voltou com um cartão e um marcador de livro. “Putz, acho que ele reparou no livro que vou comprar”. Pensou em perguntar para ele onde encontraria “Assim falou Zaratrusta” de Nietzsche, ou algo mais complexo que uma intelectual como ela leria. Tentou esconder o livro que segurava virando-o para baixo, mas a contracapa era coberta de coraçoeszinhos vermelhos. Não havia como esconder. Por fim, não conseguiu dizer uma única palavra sobre Nietzsche, apenas pegou o cartão com o código de barras, agradeceu o marcador e se dirigiu ao caixa.

Desceu as escadas pensando que não poderia ir embora dali sem falar com aquele moço. Desejou em pensamento que aquele cartão tivesse o nome dele. Virou aquele código de barras plastificado sem muita esperança e encontrou: Gabriel Hernandez. Respirou fundo e sorriu.

O que quer que viesse acontecer ela sentiu-se imensamente feliz. Vivenciou naquele dia um dos mistérios da vida que ela mais gostava. Segurando o cartão nas mãos enquanto a fila andava pensou: “Pq algumas pessoas conhecemos por anos e nos impactam tanto quanto um abajur antigo cujo fio não alcança a tomada e passa a vida desligado no canto da sala? E outras em um milésimo de segundos se parecem mais com um holofote em curto circuito?” Não esperava encontrar a resposta pra isso. Sabia que afinidade não tinha explicação. Era transmitida pelo ar, captada pela alma e sentida no coração.

E o dia que começou com um poema de Blake, terminou como outro do mesmo autor:

“Para ver um mundo em um grão de areia/ e um paraíso numa flor selvagem/ Segure o infinito na palma da sua mão/ e a eternidade em uma hora”.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.