Homem pássaro
Desde que se conheceram ela sabia que ele era do mundo. Livre e voador. Não era de se prender a nada, nem a ele mesmo. Sabia que ele não iria parar de voar até conhecer cada canto desse planeta. E talvez depois disso, ainda voasse para outros. Então, apesar da conexão que tinham, optaram pela amizade. Colorida, bem verdade. Mas cheia de admiração, respeito, amor, companheirismo e bem-querer.
Era uma quarta cinzenta quando ele mandou mensagem: “estou em São Paulo, vamos nos ver?” Como sempre, nada programado. Não seria ele se não fosse surpreendente. Ela pensava que ele ainda andava pelos pampas Argentinos, as últimas fotos vinham de lá. Mas ao que tudo indica, ele tinha se teletransportado até o Brasil.
A última vez que ele andou por perto, ela recusou o convite. A vida estava corrida e ela estava sem tempo para ouvir histórias da China e do Nepal. Mas dessa vez foi diferente. Sim, a vida continuava corrida, mas a intuição pedia um espaço no meio da falta de tempo, e este espaço era com ele. Pra ele. E por isso ele apareceu.
Mal se encontraram e ele falou: “o que você tem? sei que não está bem. foi por isso que vim. conta aí. o que aconteceu?” Ele acertou, sempre acertava, há alguns dias a ansiedade vinha devorando-a, mastigando seu coração, atrapalhando seu sono, confundindo seus sentimentos, sua memória, seus valores e, principalmente, o valor que ela dava a si mesma. Ela parou, sentiu todo o amor daquele momento, sorriu, viu o brilho dos olhos dela refletirem nos dele e a ansiedade se esvair no ar.
Ela respirou fundo e disse em tom irônico: “O Alaska te fez mal, garanto que não usou filtro solar e por isso ganhou essas rugas. Não se preocupe comigo, estou bem. E pare de tentar adivinhar coisas pelo que lê no meu blog. Sabe que eu sou criativa.” Não, não valia a pena contaminar aquele momento com nada. Algumas relações são tão fortes que merecem ser protegidas como se fossem debilmente frágeis. Mas ele insistiu: “Eu não estava no Alaska, estava na Patagônia. E escuta aqui mocinha criativa, escuta com bastante atenção: você sabe que tem algo que ninguém mais tem. Não sabe? E que temos um pacto de que não importa o quão difícil as coisas fiquem, jamais vamos deixar de acreditar no impossível?”
Ambos compartilhavam uma trajetória cheia de percalços. Ambos foram testados aos seus limites e quando acharam que as coisas não podiam ficar piores, estas ficavam. Eram pós graduados em problemática sem solucionática. Mas sabiam, como ninguém, fazer do tropeço uma dança. Transformar dor em força e raiva em mudança. E por isso, tinham um ao outro.
Aquele moço de traços russos e nome de origem tupi, que não podia ter outro significado, senão pássaro, apareceu naquela quarta cinzenta para lembra-la apenas de que: não é por acaso que as pessoas cruzam nossos caminhos e as conhecemos, tampouco é por acaso que as pessoas permanecem nas nossas vidas. Não é a distância, nem o tempo, nem as dores que carregamos que constroem uma relação. É o significado que damos uns aos outros, e a nós mesmos, que tornam as relações possíveis… ou não.
