As plantas sentem dor?

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Publicação original: Gato Verde.
Gary L. Francione (Tradução de Claudio Godoy) em 2006.

É uma pergunta frequente que fazem aos veganos. Na verdade, não conheço nenhum vegano que não a tenha ouvido pelo menos uma única vez, e a maioria de nós já ouviu esta pergunta várias vezes.

É evidente que quem costuma fazer esta pergunta sabe muito bem que existe uma diferença entre, digamos, uma galinha e um pé de alface. Ou seja, se no próximo jantar você cortar um pé de alface na frente dos seus convidados, eles reagirão de um modo totalmente diferente se você, ao invés disso, fatiar uma galinha viva na frente deles.

Se, ao caminhar em seu jardim, eu pisar de propósito em uma flor, você terá toda razão em se zangar comigo, mas se eu chutar o seu cachorro de propósito, você ficará zangado comigo de uma maneira bem diferente. Ninguém considera estas duas ações equivalentes. Sabemos muito bem que existe uma grande diferença entre uma planta e um cachorro, o que faz com que chutar este último seja moralmente muito mais repreensível do que pisar em uma flor.

A diferença entre um animal e uma planta diz respeito à senciência. Ou seja, os animais não humanos, ou pelo menos aqueles que exploramos rotineiramente, sem dúvida são conscientes de sua percepção sensorial. Criaturas sencientes possuem mentes, logo têm preferências, desejos ou vontades. Isso não significa que as mentes dos animais não humanos sejam parecidas com as nossas. Por exemplo, a mente dos humanos, que fazem uso da linguagem simbólica para interagir com o seu mundo, pode ser bem diferente da mente dos morcegos, que se valem da ecolocalização para interagir com o seu mundo. É difícil saber com precisão.

Mas também é irrelevante, pois tanto os humanos quanto os morcegos são sencientes. Ambos são criaturas que possuem interesses, no sentido em que ambos têm preferências, desejos ou vontades. Um humano e um morcego podem pensar de um modo diferente sobre esses interesses, mas não pode haver a menor dúvida de que ambos possuem interesses, inclusive o interesse de evitar a dor e o sofrimento e o interesse de permanecerem vivos.

Já as plantas são qualitativamente diferentes dos humanos e dos outros animais sencientes. Sem dúvida as plantas são seres vivos, mas não são sencientes, pois não possuem interesses. Uma planta não pode ter desejos, vontades ou preferências porque ela não possui uma mente para que possa se ocupar com estas atividades cognitivas.

Quando dizemos que uma planta “precisa” ou “necessita” de um pouco de água, não estamos nos referindo ao seu status mental do mesmo modo que não estamos nos referindo à mente de um carro quando dizemos que o seu motor “precisa” ou “necessita” de um pouco de óleo. Trocar o óleo do meu carro pode ser do meu interesse, mas nunca do interesse do carro, pois este não tem interesses.

Uma planta pode reagir à luz do sol e a outros estímulos, mas isso não significa que ela seja senciente. Se eu descarregar uma corrente elétrica em um fio amarrado a um sino, o sino tocará. Mas isso não significa que o sino seja senciente.

As plantas não possuem sistemas nervosos, receptores de benzodiazepina ou quaisquer características que estejam relacionadas à senciência.

E tudo isso faz sentido do ponto de vista científico. Por que elas teriam a necessidade evolucionária de desenvolver a senciência se elas não podem fazer nada para reagir a um ato danoso? Se você atear fogo a uma planta, ela não poderá sair correndo, ela permanecerá no mesmo lugar até queimar. Agora se você atear fogo a um cachorro, ele reagirá exatamente da mesma forma como você reagiria: ele urrará de dor e tentará se livrar das chamas.

A senciência é uma característica que evoluiu em algumas criaturas para que elas pudessem ser capazes de sobreviver ao fugir de um estímulo nocivo. A senciência não teria nenhuma serventia para uma planta, pois elas não podem “fugir”.

Não estou querendo dizer com isso que não existe nenhuma obrigação moral de nossa parte referente às plantas, mas sim que não temos nenhuma obrigação moral para com as plantas. Ou seja, podemos ter a obrigação moral de não cortar uma árvore, mas esta é uma obrigação que não temos para com a árvore. Uma árvore não é o tipo de entidade com a qual nós podemos ter obrigações morais.

Podemos ter obrigações morais para com todas as criaturas sencientes que vivem em uma árvore ou dependem dela para a sua sobrevivência. Podemos ter obrigações morais para com os outros seres humanos e para com os outros animais não humanos que habitam o planeta no que se refere à não destruição de árvores a torto e a direito. Mas não podemos ter nenhuma obrigação moral para com uma árvore, pois só podemos ter obrigações morais para com criaturas sencientes e uma árvore não é nem senciente nem possui interesses, pois ela não tem preferências, vontades nem desejos.

Uma árvore não é o tipo de entidade que se preocupa com o que fazemos com ela. Uma árvore é um “objeto”. Já o esquilo e os pássaros que vivem nela sem dúvida têm o interesse de que nós não a derrubemos, mas a árvore não. Pode ser moralmente repreensível derrubar uma árvore por capricho, mas este tipo de ação é qualitativamente diferente do ato de atirar em um cervo.

Quando se fala em “direitos” para as árvores, como querem alguns, procura-se igualar as árvores aos animais não humanos e este tipo de comparação só pode se dar em detrimento destes últimos. De fato, é comum ouvir ambientalistas falar sobre a nossa responsabilidade na preservação de nossos recursos naturais, considerando inclusive os animais não humanos como um “recurso” a ser preservado.

E isso é um grande problema para aqueles como nós que não consideram os animais não humanos como “recursos” destinados ao nosso uso. Árvores e outras plantas são recursos que podemos utilizar. Temos a obrigação de usar estes recursos com sabedoria, mas esta é uma obrigação que nós temos apenas para com as outras pessoas, sejam elas humanas ou não humanas.

Para finalizar, existe uma variação da pergunta sobre as plantas: “e os insetos, eles são sencientes?” Até onde eu posso saber, ninguém ainda sabe com certeza. Mas certamente eu concedo aos insetos o benefício da dúvida. Eu não mato insetos em minha casa e procuro sempre evitar pisar em um deles quando caminho.

No caso dos insetos, pode ser difícil traçar o limite, mas isso não significa que este limite não possa ser traçado com precisão na maioria dos casos. Matamos e comemos pelo menos dez bilhões de animais terrestres todos os anos apenas nos Estados Unidos. Esta cifra não inclui todos os animais marinhos que matamos e comemos. Talvez possa haver alguma dúvida se animais como mariscos ou mexilhões sejam mesmo sencientes, mas sem dúvida todas as vacas, porcos, galinhas, perus, peixes, etc. são sencientes. Os animais não humanos dos quais tiramos o leite e os ovos sem dúvida são sencientes.

O fato de não sabermos ao certo se os insetos são sencientes não significa que devemos ter qualquer dúvida sobre o fato de que todos estes outros animais não humanos são sencientes, pois estamos absolutamente certos quanto a isso. E, ao dizer que o fato de que não estamos certos se os insetos são sencientes nos impede de avaliar a moralidade de se comer carne ou de usar produtos oriundos de animais não-humanos que sabemos sem sombra de dúvida serem sencientes ou de avaliar a moralidade de trazer estes animais não humanos à existência com o objetivo de usá-los como nossos “recursos” evidentemente é um absurdo.

Gary L. Francione © 2006 Gary L. Francione
Fonte: Consciência Blog.

E as plantas carnívoras?

Como propriamente é nomeada é uma planta.
Por Bruno Müller / Seres livres

Voltando a abordar as questões mais recorrentes que vegetarianos e veganos enfrentam, quero tratar de uma das mais populares entre os onívoros.
Uma pergunta que sempre aparece, com variações: “mas e as plantas? Elas também não sentem dor? Porque devemos ter compaixão pelos animais e não por elas?”

Por mais absurda que seja a questão, e por mais que eu esteja convencido que ela raramente é posta com propósito sincero, vale a pena se debruçar sobre ela, até para demonstrar a desonestidade de quem a coloca. Ela raramente é motivada por uma dúvida sincera sobre a diferença (ou não) nas implicações éticas do uso de animais e plantas por seres humanos. Geralmente é um álibi dos onívoros para justificar seus hábitos: “se não podemos ser éticos em igual medida com animais e plantas, então seria arbitrário poupar apenas um deles, sendo mais lógico e justo vitimar ambos”. Como veremos, há um oceano de distância nas implicações éticas do uso de animais e de plantas. Os pretensos defensores das plantas — que eu jocosamente chamo de “alfascistas” (conjunção de “alface” com “fascista”) — na verdade guardam parentesco com os relativistas e os realistas políticos. Como os primeiros, diante da impossibilidade de justificar seus desvios éticos, buscam apontar o dedo acusador para seus críticos, julgando que os erros que eles também cometem — mesmo que apenas presumidos — eximem-nos de responsabilidade pelos seus próprios erros. Como os realistas, sugerem que a impossibilidade de chegar a padrões mínimos de moralidade e ética não apenas invalidam a busca por estes padrões, como justificam a ação totalmente desvinculada de ambos.

Geralmente a questão vem na forma da afirmação: “os vegetais também são seres vivos”. É aqui que começa a se mostrar a fragilidade de seus “argumentos”. De fato os vegetais são seres vivos. Mas alguns vegetais sequer precisam ser mortos para serem comidos. Tira-se a folha, ou o fruto, e o vegetal continua lá vivo. Também se pode deixar a raiz e o vegetal vai continuar a crescer. Agora, quando se tira o vegetal pela raiz, é inegável, ele morre.

A outra forma mais famosa de confrontar os vegetarianos é dizer: “os vegetais também sentem”. Essa, que na verdade é a questão central, não é de melhor valia para os alfascistas. Aqui entra a questão da senciência, que qualquer pessoa que se dê ao trabalho de investigar as razões do veganismo deveria conhecer. Senciência é o termo que usamos para explicar porque somos veganos. Resumindo, dizemos que os vegetais não têm senciência, ou seja, não sofrem. Agora, algumas pessoas mais bem informadas ou mais espertas ou mais interessadas em nos confrontar, podem alegar que existem estudos sobre a capacidade das plantas de “sentir” a agressividade do ambiente, ou o fato delas responderem a estímulos (como a planta dormideira, que se fecha ao ser tocada).

Eis algumas formas de responder estas questões:

1. Os estudos sobre a sensibilidade das plantas são inconclusivos, nunca foram repetidos (pré-requisito para um experimento científico ter validade) e alguns cientistas consideram-nos como verdadeiras fraudes.

2. As plantas não têm sistema nervoso central, logo é impossível para elas sofrerem e sentir dor.

3. As plantas são fixadas na terra; elas não podem fugir de um predador, no máximo ter espinhos; o sistema nervoso e a sensação de dor servem justamente de alerta para que os animais fujam de perigo iminente — se a planta não pode fugir, pra que precisaria sentir dor? Senciência, para elas, é desnecessário; seria mesmo contraditório com sua própria condição.

Sobre as plantas carnívoras

4. Responder a estímulos não é igual a ter senciência. Até organismos não-vivos como células e proteínas respondem a estímulos. Mesmo que as plantas tenham algum tipo de sensibilidade, ela seria muito diferente da senciência dos animais. Mesmo os estudos que tratam da sensibilidade das plantas constatam isso. Elas podem ter mecanismos de defesa, atração, estratégias de dispersão de sementes ou mesmo captura de presas. Mas nada indica que elas experimentem dor ou sentimentos.

5. É provado que podemos viver sem explorar, matar, comer animais. Mas podemos viver sem plantas? Lembrando que usamos plantas não só na alimentação, mas para fazer várias outras coisas, desde produtos de higiene e limpeza, medicamentos, até roupas e utensílios domésticos e móveis. Viver sem usar plantas, se não for impossível, exigiria que voltássemos a viver na selva. No caso das plantas, portanto, pode-se alegar com muito mais propriedade que nossas vidas dependem dela — o que não é de modo algum verdadeiro no caso dos animais não-humanos.

6. Se a pessoa ainda assim acha que não há diferença entre usar plantas e animais — e acredite-me, ela só dirá isso se estiver competindo, e não dialogando, pois qualquer pessoa com bom senso (não precisa nem inteligência) é capaz de perceber a diferença — então pode-se dizer duas coisas:

6a. Podemos optar por causar mais dano ou menos dano. É sempre preferível, quando o dano é inevitável, causar menos dano. Creio que qualquer pessoa, a menos que seja nazista ou coisa parecida, terá que concordar com este princípio. E o fato indiscutível é que comer e usar plantas diretamente causa menos dano, porque se temos que infligi-lo, e podemos optar em fazê-lo a animais E plantas ou só a plantas, o melhor a fazer é causar dano só às plantas. Até porque, afinal, os animais também comem vegetais e derivados, e um boi, alguns porcos ou muitas galinhas comem muito mais vegetais do que um ser humano comum. Se considerarmos o tanto de animais para consumo que existem no planeta, veremos quantas toneladas de vegetais nós lhes damos para os comê-los depois, o que será revertido numa quantidade bem menor de carne, que além de tudo é um alimento mais pobre. Aqui percebe-se como até de uma pergunta banal, provavelmente debochada, pode-se extrair uma reflexão relevante. Se esse interlocutor hipotético acha mesmo que devemos consideração às plantas, ainda assim teria de ser vegetariano: produz-se e consome-se muito menos plantas se nos alimentamos diretamente delas, causando, consequentemente, menos dano não só aos animais, mas às próprias plantas e a todo o ecossistema. Tantas plantas sendo dadas a animais é desperdício de comida e uma pressão extra sobre as florestas remanescentes. É mais racional, sob todos os aspectos, alimentar-se diretamente de fontes vegetais. Além de poupar os animais, desse temos mais excedente de alimentos (ajudando no combate à fome, que é um fenômeno político) e ajudamos a reduzir a dependência da importação de alimentos e a derrubada de florestas.

6b. Se, em todo caso, a pessoa DE FATO se preocupa em poupar a vida dos vegetais, ela tem a opção de adotar o frugivorismo (frutos e frutas), que embora restrito e requeira muito cuidado, é viável. Não há, sob qualquer prisma, em qualquer sistema de crenças, qualquer dilema ético na alimentação frugívora, afinal, as frutas não são seres vivos, são parte do sistema reprodutor dos vegetais, e EXISTEM PARA SEREM COMIDOS, pois é ao comê-los que os animais espalham as sementes dos vegetais, permitindo assim que nasça uma nova geração deles. De todo modo, a maior parte da nossa alimentação se dá pelo consumo de sementes, frutos, tubérculos, leguminosas… Muito pouco do que a gente come tem que ser “morto”. Mas daí cabe a ressalva do que mencionei no item 5: para ser coerente, o “frugívoro ético” não pode usar nenhum produto de origem vegetal, que é justamente o que os veganos fazem em relação aos animais, e este seria o verdadeiro “dilema ético” de usar vegetais.

Quis ser o mais abrangente possível neste texto, para dar argumentos aos vegetarianos confrontados com essa “pegadinha” dos onívoros. Minha experiência mostra que raramente precisamos usar todos esses contra-argumentos. Depois de um ou dois deles, as pessoas desistem de nos questionar, diante da fragilidade de seus próprios “argumentos”.

Fonte: http://sereslivres.blogspot.com.br/search/label/Vegetais
Quem quiser saber mais sobre os estudos sobre a sensibilidade das plantas e sua contestação: http://brazil.skepdic.com/plantas.html

E as alfaces?

Publicação original: Cultura Veg

Algumas vezes os veganos e vegetarianos são vítimas de provocações a respeito do direito das plantas. Assim, muitas pessoas que comem carne alegam que os vegetais (e principalmente as alfaces) também sentem dor e que os vegetarianos e veganos não são tão melhores do que eles, pois estão matando e causando sofrimento, da mesma maneira que eles causam.

Este argumento é bastante infundado cientificamente, mas parece ter bastante força, principalmente para quem come carne. Ele serve como uma auto-justificativa de que está tudo bem e de que a escolha pelo churrasco não é anti-ética e apenas uma necessidade para sobreviver. Isso pode afagar o ego das pessoas, mas mesmo que as plantas sentissem algum tipo de sofrimento quando são mortas é de se pensar que o argumento ainda assim é infundado por uma simples questão matemática: se ambas as plantas e os animais sofrem ao serem mortos para alimentação, comer plantas ainda sim é menos danoso, já que para comer animais é preciso, da mesma maneira, matar plantas para alimentá-los. Ou seja, quando se come animais se mata duas vezes mais e se causa duas vezes mais sofrimento do que quando se come diretamente a planta.

Mas, claro que este argumento vem em último caso: no caso das plantas sentirem realmente algum tipo de sofrimento. Este é o caso?

Vamos começar pensando sobre o que é dor. Dor é uma reação negativa gerada pelo sistema nervoso do organismo, em relação a algum evento, objeto ou substância que esteja danificando algum tecido. Esta reação tem a função de ajudar o organismo a associar a sensação desprazerosa à substância ou evento nocivo, gerando um aprendizado e evitando que a aproximação do indivíduo para junto da substância ocorra novamente, podendo levar à morte do animal. É importante lembrar que o conceito de dor está mais ligado à sensação negativa do que ao reflexo motor de afastamento do objeto, ou seja, seria possível existir reflexo sem sensação negativa (tirar a mão do fogo como um auto-reflexo), mas neste caso, porém, não ocorrerá aprendizado, pois não haverá associação entre o estímulo que danifica (fogo) e a sensação ruim. Ou seja, a dor é muito importante, pois evita que repitamos o ato de se aproximar de objetos, substâncias e ocasiões potencialmente perigosas para a vida.

É preciso um sistema nervoso para que haja dor? Bem, é preciso que exista alguma rede de células que consiga capturar a informação de que o tecido está sendo danificado. No ser humano, por exemplo, existem neurônios especializados em gerar impulsos (ou potenciais de ação, tecnicamente falando) somente quando há dano no tecido. Em seguida, é preciso que a informação vá para uma rede central de neurônios que possa associar esta informação de dano a uma sensação desprazerosa — que pode ser a diminuição de substâncias que geram prazer ou que mantenham o corpo em equilíbrio (chamadas de neurotransmissores). É preciso que a resposta de associação seja imediata e que uma resposta de afastamento (reflexo de tirar a mão do fogo, por exemplo) ocorra.

Claro que tudo está muito resumido, mas é necessário entender que é preciso ocorrer comunicação entre o ambiente externo e interno do organismo, gerando respostas de afastamento motor (movimento), emoções (medo — aumento da frequência cardíaca, por exemplo), sensação negativa de incômodo e associação desta sensação com o objeto danoso, gerando aprendizado.

Em primeiro lugar a função de comunicação não deve ocorrer necessariamente através de neurônios, ou seja, apesar das plantas não terem neurônios é bem possível que elas possuam células que comuniquem algum dano ocorrido em seu tecido. Aqui, eu falo algo que não é necessariamente cientificamente provado, mas é mais uma possibilidade filosófica, pois seria sim possível que outros tipos de células, que não neurônios, assumissem a mesma função que eles. Assim, é possível sim que exista uma espécie de rede difusa de células que comuniquem dano de tecido em plantas gerando uma resposta.

O problema é que apesar das plantas se moverem (em um ritmo quase imperceptível para nossos sentidos), a resposta que seria gerada não seria rápida suficiente para levar ao afastamento ou adaptação da planta ao agente nocivo — por exemplo, a um inseto que come suas folhas. Assim, não faz muito sentido que se tenha evoluído um sistema que gere um estímulo desagradável na planta, mas que não é eficiente, no sentido de não gerar uma resposta realmente significativa para a defesa e sobrevivência da planta.

Existem alguns relatos de pseudociência (estudos que alegam ser científicos, mas que não conseguem ser devidamente validados) que alegam que as plantas sentem dor.

Um dos livros mais famosos é o “The secret life of plants”, de Peter Tompkins e Christopher Bird. Neste livro alega-se, inclusive consciência em plantas.

Eu acredito que é possível sim que exista algum tipo de senciência em todos os reinos vegetais, minerais e animais, mas isso não é nada científico, mas apenas uma expressão do reflexo do que considero ser o universo. Se existir de fato uma conexão entre os seres vivos e não-vivos, é possível sim que todas as formas se conectem de alguma maneira, mas no que se refere à dor como conceito científico — seu significado fisiológico e seu possível papel adaptativo na seleção natural — não faz sentido que plantas sintam, de fato, dor. Se sentem algo diferente, não sei, mas dor como os animais conhecem, não sentem.

Bem, isso não é uma justificativa para sair matando e desrespeitando a vida das plantas ou até de outras formas, como fungos, bactérias ou animais que alguns considerem possuir sistemas nervosos mais simples. O que devemos considerar é o sagrado da vida, ou para os mais céticos, o simples fato de que a vida é muito rara neste universo (pelo menos até o que sabemos). Se é assim, não existe motivo nenhum para matar e destruir qualquer criatura ou mesmo sair bravejando contra pedaços de pedra, simplesmente porque não se tem respeito a nada.

Ainda estamos longe de considerarmos a sacralidade da vida humana, de animais não humanos nem se fala, o que dirá de plantas, mas isso não é desculpa para ignorarmos seus direitos, mesmo que elas não sintam dor como nós entendemos.

No final, levando em conta a sacralidade da vida e mínimo respeito ao planeta e suas associações, sempre devemos refletir sobre nossos atos e as consequências para os outros seres vivos e associações de ecossistemas. Comer animais não é nenhum pouco necessário do ponto de vista biológico e, portanto, não pode ser ético de nenhuma maneira. Comer plantas, entretanto, já é uma necessidade e mantendo o respeito pela vida devemos então considerar como causar o menor dano possível ao seu direito de existência, afinal, todas as criaturas deveriam ter o direito a sua vida. Considerando isso, fica então aberta a questão sobre a mutilação que nossos hábitos vêm causando no planeta.

Ser vegano é muito ético, mas nem todo vegano considera o boicote aos transgênicos, aos agrotóxicos, ao óleo de palma, à poluição ambiental que seus hábitos vegetarianos podem causar se não realizados de maneira consciente.

Assim, vamos tentar expandir o veganismo para algo ainda mais global, em que a vida e o equilíbrio dos ecossistemas seja também colocado em questão.

No fim, acredito que o veganismo seja apenas o passo inicial e de resto, falar de alfaces que choram e de legumes assassinados ainda não apaga o sangue, o terror e o genocídio que a gula da nossa sociedade faz com os animais. Vamos lembrar sempre disso: é pouco provável que as plantas sintam dor como a conhecemos, mas é totalmente provado cientificamente que os animais — que não temos necessidade de matar e torturar — sentem dor, medo e pavor, por isso, vamos dar um basta à violência que causamos!

Observação: de um ponto de vista filosófico não existe verdade absoluta, portanto existe uma pequena probabilidade de que plantas sintam dor, afinal existe também a possibilidade de que a teoria da evolução não esteja correta. Apesar disso, a probabilidade de que ela esteja correta e de que não faça sentido que plantas sintam dor é muito alta, portanto dei um peso maior a esta hipótese do que a outra, em que teria que desconsiderar o peso da seleção natural.

Texto autorizado pela autora: Camila Victorino / Pensando ao contrário / http://www.pensandoaocontrario.com.br

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