Infância vegana

Crescendo e se desenvolvendo com saúde e segurança.

VEGANISMO NA INFÂNCIA

Publicação original: Veggi & Tal
Por: Dr. George Guimarães

Podemos criar uma criança com uma dieta vegana desde o nascimento? Sim, com o devido planejamento nutricional, podemos. Note-se que planejamento nutricional é essencial para qualquer estilo alimentar, não sendo esta necessidade um sinal negativo em relação ao veganismo. Para começar, as crianças veganas devem receber aleitamento materno até os seis meses de idade. Se por ventura isto não for possível, apenas fórmulas infantis industrializadas, adequadas a esta fase da vida, devem ser oferecidas ao recém-nascido. A partir do início da alimentação sólida, os nutrientes que merecem atenção em uma dieta vegana infantil são a vitamina B12 (encontrada em alimentos fortificados ou suplementos), o ômega-3 (encontrado no óleo de linhaça), a proteína (encontrada nas leguminosas e nas castanhas), o ferro (abundante nas frutas, vegetais verde-escuros, no melado-de-cana, nas castanhas e nas leguminosas) e o cálcio (encontrado nas mesmas fontes de ferro, basicamente).

Outro ponto importante é a ingestão calórica. Como os vegetais contêm mais água e mais fibras, a saciedade oferecida por uma dieta isenta de produtos de origem animal é maior e com isso a ingestão calórica pode acabar sendo demasiadamente reduzida. O segredo é incluir na dieta os alimentos vegetais mais calóricos (como as castanhas, por exemplo) e não exagerar nas fibras, devendo ser excluídos da dieta vegetariana infantil os farelos e outras fibras adicionadas. Isto garante que a saciedade será acompanhada uma boa densidade calórica e nutricional.

Os estudos científicos apontam que a dieta vegana infantil é não apenas possível, mas também muito saudável.

Enquanto os pais de crianças vegetarianas devem buscar a informação e orientação adequadas para auxiliá-los no planejamento nutricional de seus filhos, eles devem ao mesmo tempo procurar manterem-se refratários às opiniões baseadas em mitos populares ou interesses daqueles que lucram perdendo de vista a saúde da população.

A American Dietetic Association (ADA) e Dietitians of Canada consideram que: “Dietas veganas e ovolactovegetarianas bem planejadas são adequadas a todos os estágios do ciclo vital, inclusive durante a gravidez e a lactação. Dietas veganas e ovolactovegetarianas adequadamente planejadas satisfazem as necessidades nutricionais de bebês, crianças e adolescentes e promovem o crescimento normal” (ADA 2003).

O vegetarianismo também é incentivado pela American Heart Association (AHA), Food and Drug Administration (FDA), College of Family and Consumer Sciences (University of Georgia) e já que estamos falando em pediatria, Kids Health (Nemours Foundation). A American Dietetic Association e Dietitians of Canada são enfáticas em afirmar que os profissionais da área de nutrição têm o dever de apoiar e encorajar os que demonstram interesse em seguir uma dieta vegetariana. Os alimentos utilizados para a obtenção dos nutrientes numa dieta vegana são muito mais diversificados do que os utilizados por onívoros (Christel e col, 2005). Isso demonstra que a dieta vegana (estrita) não é restrita.

REVISTA CRESCER

Criança pode ser vegana?

A dieta é restritiva, mas, com o acompanhamento adequado, pode auxiliar no desenvolvimento e trazer benefícios em qualquer faixa etária.

Por Andrezza Duarte, atualizada em 09/03/2017 15h58

(Foto: Thinkstock)

Criança vegana: pode, sim! Mas é preciso de acompanhamento de nutricionista.

Na casa da família Nascimento não entra carne. Também não entra leite, ovos ou mel. “Animal em casa, só o Boris, nosso cachorro vira-lata”, diz Daniela Nascimento, 37 anos, adepta do veganismo há 17. A falta desses alimentos na geladeira da família deu lugar às frutas, legumes, soja, tofu e leite vegetal. Mãe de Inácio, 4, e Laila, 1, Daniela escolheu transmitir seu estilo de vida para as crianças, que nunca experimentaram alimentos de origem animal. “Acredito que o exemplo é a melhor forma de educar. Se quando forem mais velhos, quiserem incluir carne e leite na alimentação, terão toda a liberdade. Não proíbo, mas também não incentivo”, diz.

Daniela e sua família estão entre os quase 5 milhões de brasileiros que praticam o veganismo — que, é importante destacar, não se limita à alimentação: “Ser veganosignifica não consumir nenhum produto de origem animal ou testado em animais, desde alimentos até roupas, cosméticos, acessórios”, esclarece a nutricionista americana especializada em nutrição vegana e vegetariana Reed Mangels, professora do Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública e Ciências da Saúde da Universidade de Massachusetts. O que significa que, da mesma forma que a carne, leite e ovos estão banidos da lista de supermercado, aquela malha de lã ou bolsa de couro também não têm espaço no guarda-roupa.

Sim, é uma escolha (e uma transição!) radical. Mas seja por uma questão de saúde ou por solidariedade aos animais, como é o caso de Daniela, ser vegano é cada vez mais comum. “A dieta tem sido mais abordada, principalmente nos últimos cinco anos. Além de um crescente interesse pelo bem-estar dos animais, a população está envelhecendo e convivendo mais com doenças crônicas e, por isso, busca uma alimentação mais saudável”, diz a nutróloga Andrea Pereira, do Hospital Israelita Albert Einstein (SP).

Mas a polêmica acende quando o assunto é veganismo e alimentação infantil. Por mais que algumas pessoas ainda tenham um pé atrás, por acreditar que a dieta leva à desnutrição, cada vez mais estudos apontam para os benefícios da dieta. Em artigo científico publicado em dezembro de 2016, a Academia de Nutrição e Dietética endossa a dieta vegana para pessoas de qualquer idade, inclusive crianças e gestantes, afirmando que é saudável, nutricionalmente adequada e que pode proporcionar benefícios na prevenção e tratamento de certas doenças, como diabetes, doenças cardíacas, hipertensão arterial, obesidade e alguns tipos de câncer.

Sim, os benefícios existem! Mas não dá para negar que, por não aceitar qualquer alimento de origem animal, a dieta se torna altamente restritiva e, se não for feita de forma correta, pode trazer problemas à saúde. Afinal, a falta de leite e derivados pode aumentar a deficiência de cálcio, enquanto a ausência das carnes brancas e vermelhas prejudica o consumo adequado de ferro, proteínas e vitaminas B12 e D. Por esse motivo, a Sociedade Brasileira de Pediatria faz ressalvas sobre o veganismo.

Para Virgínia Weffort, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, crianças que seguem uma alimentação tão restritiva podem ter seu desenvolvimento comprometido: “Como a criança não tem discernimento para saber o que é bom e ruim para a sua alimentação, os pais precisam estar cientes da importância de identificar boas fontes de cálcio, ferro, zinco, ômega 3, vitamina B12 e vitamina D, que são perdidos com essa dieta, e fazer um trabalho conjunto com o pediatra e nutricionista a toda hora”. Em alguns casos, quando a suplementação não é suficiente, a criança pode desenvolver anemia, crescer menos e ter seu sistema imunológico prejudicado. “Diante da impossibilidade de atingir as necessidades nutricionais específicas para cada faixa etária, a suplementação com cápsulas e comprimidos será necessária. E o natural e mais saudável é consumir o alimento como fonte de vitamina, não remédios”, completa Virginia.

Mas então, é ou não recomendável para as crianças? “Desde que seja feito um controle anual das taxas de nutrientes no sangue e um acompanhamento regular com pediatras e nutricionistas, a dieta vegana traz, sim, benefícios como a prevenção de doenças crônicas e pode ser adotada em qualquer faixa etária”, diz a nutróloga Andrea. Daniela Nascimento conta que faz marcação cerrada com exames regulares e acompanhamento regular com uma nutricionista infantil: “Assim que Inácio nasceu, procurei informação e orientação, pois nem sabia se o veganismo era saudável para crianças. Mas é! Meus filhos não adoecem mais do que crianças que seguem uma alimentação comum. São inteligentes e muito saudáveis”, diz Daniela. “O veganismo é, para a minha família, a receita para uma vida mais saudável e para exames médicos com resultados excelentes”, completa.

E na escola? Se o seu filho estudo período integral e a alimentação é oferecida pela instituição, vale negociar um cardápio diferenciado para a criança e também mandar lanchinhos veganos para serem consumidos na hora do recreio. “Busco variar para que não enjoe: um dia mando uma porção de castanhas, no outro uma fruta ou chips de banana. Pesquiso receitas na internet e mando para a nutricionista do meu filho aprovar ou fazer as alterações necessárias”, conta Daniela.

Trocas no cardápio

A quantidade de cada vitamina e alimento varia de criança para criança. O ideal é fazer um acompanhamento regular com um nutricionista e pediatra para que, juntos, elaborem um cardápio que minimize as deficiências:

Ferro
Pode ser encontrado em vegetais verde-escuros e leguminosas. O organismo absorve melhor o ferro na presença de vitamina C, por isso, acrescente frutas cítricas como laranja, acerola, maracujá e abacaxi nas refeições das crianças.
O que comer: feijão, amêndoas, lentilha, castanha de caju e castanha-do-pará, quinoa, melado de cana, folhas verde-escuras e sementes de girassol, linhaça e chia.

Cálcio
Fundamental na formação e desenvolvimento dos ossos, o cálcio pode ser encontrado nas frutas, verduras e feijão, porém, a capacidade de absorção dos alimentos não lácteos pode variar entre 5% (espinafre) e 50% (repolho ou brócolis). O que comer: Tofu, grão-de-bico, brócolis, couve-flor, couve, escarola, repolho, mostarda, espinafre, gergelim.

Vitamina D
É estimulada quando tomamos sol e auxilia na absorção do cálcio. Uma dieta vegana contém pouca ou nenhuma vitamina D, a não ser pela ingestão de alimentos enriquecidos ou de suplementos. O ideal é a exposição segura ao sol. O que comer: Cogumelos.

Proteína
Uma das três principais fontes de energia (além de gorduras e carboidratos), a proteína é facilmente substituída na dieta. Tofu e soja fazem parte da lista de possíveis trocas, mas atenção: “Alimentos à base de soja não devem ser oferecidos para crianças menores de 1 ano devido aos hormônios vegetais”, diz Reed. “Fórmulas infantis de soja, diferentes de bebidas à base de soja, estão liberadas, pois são balanceadas exclusivamente para suprir as necessidades de bebês”, completa. O que comer: para suprir a deficiência, combine o grupo de grãos (composto por trigo, arroz, aveia) com as leguminosas (feijões, lentilha, ervilha). Abacate, nozes, amendoim, cacau em pó sem açúcar e gergelim também devem entrar no cardápio.

Zinco
Mineral que ajuda no crescimento e desenvolvimento do organismo. As fontes mais ricas de zinco para quem não consome alimentos de origem animal são os cereais integrais, feijões e castanhas. Porém, o ácido fítico, presente em alguns vegetais e também no feijão, atrapalha a absorção dessa substância. Uma sugestão dos especialistas é deixar os grãos do feijão de molho por cerca de 12 horas e trocar a água na hora de cozinhar. O que comer: Feijão, grão-de-bico, nozes, lentilha, arroz integral, sementes de girassol e de abóbora, trigo, aveia.

Dicas de alimentação para a criança vegana:

- O leite materno ou fórmula infantil são uma parte importante da nutrição do seu filho até pelo menos 1 ano de idade;

- Cereais matinais costumam ser fortalecidos com vitamina B12. Mas vale apostar nos feitos em casa: prepare um mingau grosso e acrescente um pouco de óleo vegetal aos grãos cozidos para aumentar o conteúdo calórico;

- Prefira óleo de soja ou de canola em vez de óleos de girassol, cártamo ou milho. Eles ajudam na produção de ácidos que são importantes para o desenvolvimento do cérebro e da visão;

- Óleo de linhaça é rico em ômega-3, gordura do bem encontrada no salmão, bacalhau e sardinha. Essa substância pode ajudar a melhorar o desempenho escolar, pois tem um papel importante no desenvolvimento do sistema nervoso, da retina e do cérebro;

- Troque manteiga e requeijão por abacate batido ou manteiga feita de sementes ou nozes. Além de não terem origem animal, são mais calóricas e ajudam a atingir a quantidade de calorias necessária para um desenvolvimento saudável;

- Lentilha, feijão e ervilha são uma boa fonte de energia e proteína. Cozinhe-os bem e amasse-os até formar um purê. Cozinhar bem lentilhas, feijões e ervilhas e amasse-os até formar um purê;

- Misture melado de cana nos alimentos, como purê de lentilha ou tofu, para aumentar a ingestão de ferro e cálcio. Fazer melaço é fácil: ferva o líquido extraído da cana de açúcar até virar um xarope. Depois que a água e parte do açúcar evaporam, o líquido restante é altamente rico em ferro, cálcio, magnésio e potássio!

- Depois de completar 1 ano, mesmo que o bebê ainda esteja sendo amamentado, é possível acrescentar leite vegetal e de soja na alimentação da criança. Essas opções são ricas em vitamina D2 e B12;

- Todo vegetal de cor verde é uma excelente fonte de ferro, cálcio e antioxidantes. Para deixar o preparo mais gostoso e apetitoso para a criança, acrescente molho de tomate ou prepare sucos com vegetais mais doces, como cenoura;

- Aposte no tofu: 120 gramas do alimento têm a mesma quantidade que um copo de leite de vaca;

Fontes: Sociedade Brasileira de Pediatria; Hospital Israelita Albert Einstein; The Vegan Society e The Vegetarian Resource Group, ambas nos EUA.
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