Maternidade vegana

O veganismo na gestação.

Publicação original: Maternidade vegana.
Por: Monica Vitorino

Nada é tão simples e tão difícil como a prática do veganismo na gestação. Se o vegan já é constantemente questionado por sua postura frente a alimentação e a vida, a futura mamãe vegan é quase que massacrada e o pior que junto ao massacre está a chantagem emocional. Conselhos de “amigos”, parentes e até desconhecidos chegam a cada instante com uma grande carga de emoção e desinformação. E como se fosse pouco conviver com tantas críticas negativas, “o gesso cultural” e a pouca sabedoria se estendem aos profissionais da área de saúde.

Está certo que muitas dúvidas persistem, na grande maioria das pessoas, sobre a eficácia da alimentação vegan durante a gravidez, mas estas incertezas não devem existir nos profissionais da área de saúde. A dieta vegana é absolutamente segura para gestantes e para os bebes. A alimentação vegetariana estrita está ligada a inúmeros benéficos para a saúde. Vitamina B12, ácido fólico, ferro devem ser suplementados em grávidas vegetarianas ou não. O motivo destas suplementações é de origem metabólica e não devido a opção alimentar. Cálcio e outros nutrientes importantes serão solicitados de acordo com a avaliação dos dados laboratoriais e a suplementação ocorrerá ou não para vegetarianos e não vegetarianos.

Novamente não é a opção alimentar que condiciona a suplementação e sim o estado de saúde da pessoa. As futuras mamães veganas devem lembrar sempre de variar o cardápio diário e lembrar que não é o famoso comer para dois que funciona. Na verdade o acréscimo calórico é mínimo. A segurança da dieta vegana se faz através do aporte calórico correto e das escolhas alimentares sadias. Incluir sempre alimentos ricos em zinco, cálcio, ferro, vitamina B12 e ômega 3 é essencial, além da exposição solar diária. Montar os seus pratos coloridos todos os dias, decisivamente é a melhor escolha para uma dieta bem planejada e equilibrada. Portanto, a futura mamãe deve contar com o auxílio do nutricionista, do médico, independentemente de sua escolha alimentar.

Antes de marcar a consulta, verifique se o profissional sabe trabalhar com a dieta vegetariana e se ele respeita a sua escolha. Lembre-se que nenhum profissional precisa ter as mesmas convicções ideológicas que você. Colocar o veganismo na prática da vida é viver a vida humanamente. Aqui a minhas homenagens as futuras mamães vegans… mulheres destemidas que possuem a alegria de ser o que a consciência silenciosa e insistentemente solicita. Brilham pela alegria de estar em paz consigo e com os reinos da natureza, em paz com a lei universal da não violência e brilham por estarem convictas de estar contribuindo para um mundo melhor.

Dra.Mônica Vitorino é nutricionista clínica, especializada em nutrição estética e vegetariana, pós graduando em nutrição funcional.

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Maternidade Vegana
Vegana é a sua mãe

Maternidade vegana e consciência infantil!

Camila Sanches conta sobre como o seu filho Nik de apenas 2 anos a fez virar vegana. Publicação original: Jornada vegana.

Minha história já começa meio maluca, buscando o novo e enfrentando muitos desafios porém vivendo a liberdade do meu ser. Engravidei na Tailândia, quando estava morando na China de um namorado da Nova Zelândia. Era uma menina normal de 23 anos, me considerando normal porque não havia nenhuma limitação, principalmente para alimentação. Voltei para o Brasil com o namorado e depois de 4 meses de gravides nos separamos porque queria continuar no Brasil com a minha família, onde eu me sentia segura para ter uma gestação tranquila e o namorado, que não era mais, voltou para a Nova Zelândia.

Desde o nascimento do meu filho, um universo novo surgiu dentro de mim, muita pesquisa ligada a amamentação, alimentação natural e sustentabilidade.

Sempre amei animais com todas as minhas forças, sempre amei nosso planeta e queria contribuir de alguma forma. Comer carne me fazia mal, além de muitos enjoos, quase todo mês ficava mal do estomago, mas nunca entendi o porquê disso. Meu psicológico também não ficava bem depois de engolir pedaços de animais, eu sabia o que era e tinha muita vontade de mudar, mas comia mesmo assim, tapava os olhos, fingia que não ouvia nem via, só engolia. Até que em um certo dia meu filho com quase 2 anos estava almoçando e eu ofereci um pedaço de peixe, insisti porque ele nunca queria comer e a mãe ingênua falou: come filho, faz bem, e o filho esperto falou: Não vou comer peixe, peixe vive!

……PRONTO!

Foi o dia que eu me senti livre, o dia que consegui enxergar uma mega limpeza energética em mim e no meu filho. OK, não dei o peixe e pensei: Por que não ser sincera com meu próprio filho e falar o que é e da onde vem a carne? Peixe ele já sabe porque oferecemos as crianças com o mesmo nome, diferente da carne.

Então, falei: Filho, você sabe o que é a carne? É um animal morto, pessoas mataram pra comer.

E ele respondeu curto e grosso: Então por que você me dá um animal morto pra comer?

Respondi: Desculpa filho, não vou mais dar, obrigada meu amor!

Depois de milhares de perguntas do meu filho, como por exemplo, por que pessoas fazem isso, por que destroem as famílias dos animais…

Mudamos da água para o vinho, sem transição. Pra ele foi super fácil, ele só comia o que eu comia e o que eu dava então posso dizer que foi fácil, minha mãe que era a pessoa que cozinhava pra nós, também se tornou vegana, aprendeu muitas receitas e fez o melhor que podia, então graças a ela nos alimentávamos muito bem.

Agora, meu filho tem 4 anos ainda amamento, estamos morando na Nova Zelândia com o pai dele, que não é vegano, parou de comer carne bovina e suína, porém ainda come peixes, ovos e laticínios, ele está aprendendo a lidar com essa situação. Antes de sair do Brasil eu falei pra ele sobre a nossa alimentação, que não vamos mudar e pra ele não oferecer e nem tentar mudar isso. A princípio está dando super certo, ele está respeitando mesmo sem estar totalmente confiantes sobre a saúde. Apesar de eu sempre explicar.

Meu filho está com a cabeça formada, acredito eu, sempre que oferecem algo pra ele, ele pergunta se é vegano. Antes de ir em festas, de ver a família comendo carnes, explicava o que ia acontecer, levava a nossa comida separada, falava e falo o porque não devemos aceitar coisas de origem animal, sempre falando o que há por trás daquele alimento que parece ser bonitinho pra quem vê mas que na real era um ser que queria viver e lutou pela sua vida.

Quando viajamos sempre levo muita comida pra nós, tipo snacks. No avião peço a opção vegana, alguns voos a comida é péssima, mas comemos, aceitamos o que tem, não sendo de origem animal tá tranquilo pra matar a fome.

Quando envolve um filho, precisamos ser persistentes, estar conversando muito e explicando tudo corretamente. Não é fácil, no Brasil com a minha família e amigos sempre achei muito tranquilo, as pessoas que estavam ao meu redor aceitavam mais, nunca ninguém perguntou das proteínas pra mim rs. Agora, aqui na Nova Zelândia apesar de quase todos os lugares terem opção vegana, mais que em muitos lugares no Brasil, as pessoas ainda estão um pouco fechadas para isso, acham que estamos doentes, que sou radical por não encher meu filho de doces e hambúrgueres. Mas sigo confiante e pedindo forças para que eu saiba lidar sempre com as novas situações e que meu filho continue nesse caminho. Porque tentações pra ele são muitas, ele quer fazer e experimentar coisas novas, por isso sempre tenho uma longa conversa com ele antes.

VÍDEOS
ENTREVISTA

Mãe coruja, esposa e vegana.

Confira o papo com a médica pediatra Tati Balleroni — CRM(SP) 109241
Publicação original: Vista-se

O maior presente que uma mãe pode dar a seu filho é a saúde. Por isso, o Vista-se entrevistou a mamãe de primeira viagem Tati Balleroni, que anda curtindo muito a vinda do Mateus, que tem apenas 6 meses de vida. Se a alimentação de uma pessoa vegana adulta já é constantemente questionada, alimentar um bebê sem nenhum ingrediente de origem animal pode ser ainda mais complicado, do ponto de vista social. Felizmente, a complicação fica por aí. Confira as dicas da Tati para uma gestação e infância perfeitas.

Vista-se: Há quanto tempo você é vegana?
Tati Balleroni: Sou vegana há 4 anos.

Há quanto tempo você é médica e onde se formou? Onde você nasceu e onde atende hoje? Eu completo 10 anos de formada no próximo mês. Me formei na Faculdade de Medicina de Marilia (FAMEMA). Eu nasci em São Paulo-SP, mas minha família mudou-se para o interior quando eu tinha 8 anos. Atualmente, desacelerei bastante meu ritmo de trabalho devido ao meu filho Mateus estar com 6 meses ainda. Tenho me dedicado bastante à maternidade. Trabalho na UTI Neonatal do Hospital ABHU em Marilia-SP.

Você indica alimentação livre de alimentos de origem animal a pacientes que não são veganos? Se sim, explica a eles por quê? Qual a reação deles? Sim, se percebo que as famílias são abertas a essa abordagem. Ainda existe muito preconceito e dúvidas das pessoas em relação ao veganismo, mas tenho percebido uma tendência à melhor aceitação nos últimos anos.

Nas consultas do dia-a-dia, existem dúvidas das mães sobre o veganismo? Atualmente não estou atendendo no consultório, mas ainda oriento algumas famílias que são veganas e alguns pais que ficam preocupados porque os filhos decidiram parar de comer carne.

Como é, para sua família, saber que você teve uma gravidez vegana e vai criar seu filho dentro da filosofia vegana? Mesmo como médica, você tem alguma objeção familiar? A minha família foi bem tranquila em relação à minha gestação ter sido vegana. Quanto à criação do Mateus na filosofia vegana, fomos questionados algumas vezes em relação a isso. Porém, sempre deixamos clara a nossa postura de que ele seria criado dentro do veganismo. Para nós, não faz o menor sentido nosso filho ser criado fora do contexto da filosofia vegana. Vivemos aquilo que acreditamos e nunca cogitamos deixar de transmitir nossos valores ao nosso próprio filho! Mesmo sendo médica pediatra já fui questionada sim. Inúmeras vezes. Por exemplo, em relação à introdução da alimentação complementar, sobre como eu faria isso sem a carne.

“E assim optamos pelo veganismo juntos, no mesmo dia!”

Seu marido é vegano? Como lidam com isso? O Marcelo, meu marido, é vegano. Oito meses antes do nosso casamento, após a morte do nosso cachorrinho, ele se questionou: como posso amar tanto os animais e comê-los? Ele já tinha tentado ser vegetariano por volta dos 7 anos e novamente na adolescência, porém, não tinha encontrado apoio. Eu era ovolactovegetariana há alguns anos. Porém, não conhecia nenhum vegetariano, não tinha nada de informação. Para mim foi tudo muito instintivo. Quando tomei conhecimento da crueldade ligada ao consumo de ovos e laticínios, decidi pelo veganismo no mesmo momento. Já éramos casados e então comuniquei ao Marcelo que estava me tornando vegana a partir daquele momento. Ele me perguntou o motivo, expliquei a ele sobre o que tinha lido. Ele me respondeu que se tornaria junto comigo. E assim optamos pelo veganismo juntos, no mesmo dia!

“Existe um documento da Associação Dietética Americana, referência mundial em nutrição, que endossa a alimentação vegana e que pode ser apresentado ao seu pediatra.”

O que você indica a mães que não têm a sorte de contar com uma pediatra vegana? Existe algum texto, artigo ou manifesto que essa mãe pode levar ao seu pediatra para que ele tenha certeza que a alimentação vegana é saudável para a criança? Na verdade eu diria a elas para que busquem o máximo de informação possível! Infelizmente, ainda há muitos profissionais despreparados para orientar uma dieta vegana e muitas vezes, por falta de conhecimento, acabam dizendo que não é possível, que é prejudicial e coisas desse tipo. Existe, por exemplo, um documento da Associação Dietética Americana, dos EUA, com um posicionamento em relação às dietas vegetarianas que diz que uma dieta vegetariana bem planejada, incluindo a vegana, são apropriadas para os indivíduos em todas as fases da vida como gestação, lactação, infância, adolescência e para atletas. Documento (em inglês). Este material pode ser levado ao pediatra que acompanha a criança, por exemplo.

Na gravidez, existe algum exame específico que a mamãe vegana não pode esquecer de pedir e que os médicos normalmente não atentam para ele? Uma gestante vegana necessita de um acompanhamento pré-natal adequado como qualquer outra gestante e não existe nenhum exame especial que deva ser realizado especialmente por gestantes veganas.

“Procure manter uma alimentação equilibrada que inclua uma variedade de cereais, leguminosas, verduras, legumes, frutas e oleaginosas.”

O que uma mãe vegana não pode deixar de saber para uma gravidez e uma infância saudáveis? Com um bebê em formação, as necessidades diárias de alguns nutrientes encontram-se elevadas. Estar atenta a essas necessidades e buscar atendê-las através da alimentação é um dos passos para uma gestação saudável. Procure manter uma alimentação equilibrada que inclua uma variedade de cereais, leguminosas, verduras, legumes, frutas e oleaginosas. Evite alimentos industrializados, sal e açúcar em excesso. É importante incluir uma fonte de ômega-3, como por exemplo linhaça ou chia. No caso das veganas, é essencial a suplementação da vitamina B12 na gestação e enquanto se estiver amamentando; inclusive as necessidades diárias dessas vitaminas estão aumentadas durante esses períodos. Outras suplementações (como por exemplo ferro, cálcio, zinco, vitamina D, ácido fólico, etc) devem ser individualizadas e só devem ser realizadas sob orientação de um médico ou nutricionista.

Converse com seu médico sobre as atividades físicas que podem ser realizadas por você na gestação. As faixas de ganhos de peso são individualizadas, esteja atenta à indicada a você e procure não ganhar pouco peso e tampouco ganhar de forma excessiva. Uma infância saudável se inicia com o aleitamento materno, que deve ser exclusivo durante os primeiros 6 meses de vida do bebê. Nessa fase, não se deve ser oferecido água, chás ou qualquer outro alimento. Aos 6 meses inicia-se a introdução na alimentação complementar, de forma lenta e gradual, mantendo-se o aleitamento materno até 2 anos ou mais. O leite materno é o principal alimento no primeiro ano de vida.

“Deve-se evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas.”

É importante que a criança receba uma alimentação variada. o consumo diário de verduras, legumes e frutas deve ser encorajado. Deve-se evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas nos primeiros anos de vida e, mesmo conforme a criança cresce, o consumo destes alimentos deve ser realizado de forma esporádica e não habitual. Utilizar sal com moderação. Da mesma maneira que na gestação e lactação, bebês e crianças veganas devem receber suplementação de vitamina B12. Outras suplementações devem ser individualizadas e realizadas apenas por orientação de medico ou nutricionista.

A vida da vegana Tati Ghizellini Balleroni / CRM(SP) 109241: Nasci em São Paulo e nos mudamos para o interior quando eu tinha 8 anos. Aos 17 anos entrei na faculdade e vim pra Marília estudar. No quinto ano de faculdade conheci meu marido. Fiz residência em pediatria na mesma faculdade em que me formei e optei por permanecer em Marília. A maternidade me fez desacelerar o meu ritmo de trabalho, permaneci em casa durante 5 meses amamentando. Retornei ao trabalho em períodos curtos e em carga horária semanal pequena para que o Mateus pudesse continuar recebendo apenas leite materno. Quando estou trabalhando, ele recebe leite materno ordenhado no copo. Agora que ele completou 6 meses, iniciamos a introdução da alimentação complementar (vegana é claro!) e o suplemento de vitamina B12. Atualmente integro a equipe da UTI Neonatal do Hospital ABHU, onde trabalho há quase 8 anos. Amo a pediatria de forma incondicional!

MATERNIDADE VEGANA: CRIANDO CRIANÇAS VEGANAS NUM MUNDO QUE VÊ ANIMAIS COMO PRODUTOS

Publicação original: Cientista que virou mãe.

Quando descobri que estava grávida, muitas dúvidas vieram à minha cabeça. Sabia muito bem que uma dieta vegana era perfeitamente saudável para mim, mas eu poderia criar minha filha com meus hábitos? Seria bom para o crescimento dela? Estaria impondo meus valores a ela? Ao mesmo tempo que não conhecia nenhum exemplo adulto que tivesse sido criado com hábitos veganos desde o nascimento, sabia o quão penoso seria para mim se tivesse que passar por cima de meus valores e criar minha filha sem essa consciência sobre a individualidade dos animais.

Ainda bem que existiam profissionais atualizados e capacitados para conversar e respaldar meus valores — é claro que eu poderia seguir minha dieta enquanto grávida e passar esses valores para minha filha. Não estaria apenas fazendo minha vontade, como também estaria dando a ela um início de vida maravilhoso, estaria mostrando a ela que é possível viver bem sem agredir os animais, o meio ambiente e ser incrivelmente saudável por isso. Busquei profissionais da saúde, como nutricionistas e pediatras, alinhados com meus valores. Em diversas conversas, confirmaram que meu bebê não precisaria de produtos animais e que conseguiríamos facilmente todos os nutrientes, incluindo cálcio, ferro e proteína, nos produtos de origem vegetal. A assertividade com que me garantiram tudo isso me deu coragem e confiança para continuar firme em meu propósito — criar uma criança numa dieta e estilo de vida livres de crueldade animal.

As crianças nascem dotadas de muita disposição para amar e ter compaixão. Graças a isso, diariamente vemos vídeos de crianças chorando, atormentadas, ao saber que comem animais, ou ao ver animais mortos em cima da mesa de jantar. É muito fácil explicar para uma criança os motivos de não se comer animais. E elas possuem empatia suficiente para aprender rapidinho que os animais não são comida.

MAS ISSO NÃO SERIA IMPOR A CRENÇA DOS PAIS À CRIANÇA? Veganismo é um valor, portanto sim…. Mas todos nós, criadores e educadores, fazemos isso! Todos educamos nossos filhos de acordo com o que acreditamos. Nós os ensinamos a enxergar o mundo através de nossos olhos. Uma família com valores e hábitos veganos não acredita que os animais estão no mundo para nos servir e assim ensinarão seus filhos. Eles podem mudar depois? Com toda certeza, assim como muitos veganos nasceram em famílias onívoras e ao longo da vida passaram por uma transformação de valores.

COMO E QUANDO ABORDAR VEGANISMO PARA A CRIANÇA? É mais fácil do que imaginamos. As crianças entendem e conseguem compreender a individualidade dos animais. É mais difícil explicar para elas os motivos pelos quais nossa sociedade consome e explora animais do que explicar os motivos pelos quais nossa família não o faz, pelo menos é isso que minha experiência tem mostrado. Fui criada numa família onívora e me lembro precisamente de quando comecei a rejeitar carne de animais: a partir do momento que não conseguia mais ignorar o fato de que aquela comida no meu prato já tinha sido um animal. Assim como em outros aspectos da educação, o exemplo é o maior aliado nisso. Se criada numa família vegana, a criança vai entender desde cedo os motivos e o conceito de veganismo, porque a família vive e reflete isso nos hábitos. Não é difícil a criança entender a verdade:

“Por que não comemos peixe? Porque o peixe é um bichinho e existe pelos seus próprios motivos, e para comê-lo teríamos que machucá-lo.”
“Por que não tomamos leite? Porque o leite da vaca é para o filhinho da vaca, assim como o leite da mamãe é para você, e se tomarmos o leite da vaca, existe um bebê que ficará sem”.

Na realidade, essas perguntas nunca me foram feitas, apenas fui questionada pela minha criança de 2 anos por que é que tem um peixe no meio das frutas e verduras no kit de comidinhas que ela ganhou de presente. Afinal, peixe é um animal, por que está no meio das comidas? Então, na realidade, a criança é provida de um poder de empatia muito amplo e não existe dificuldade de compreensão da individualidade e existência dos animais. O desafio será explicar os motivos pelos quais as outras pessoas comem animais, embora sejam pessoas de coração bom que jamais seriam capazes de machucar alguém.

SOCIALIZANDO UMA CRIANÇA VEGANA

O homem é um ser social, não estamos criando nossos filhos numa bolha. É muito importante que a criança se sinta parte do grupo e não se sinta excluída de forma alguma, e isso serve para crianças com alergias alimentares também. Por exemplo, na escola da minha filha a professora sempre me avisa antecipadamente quando terá cachorro-quente, sanduíche de queijo ou algum aniversário para que eu possa providenciar uma comida alternativa para ela (queijo vegano ou salsicha vegetariana para o cachorro-quente, etc). Quando vamos a festinhas, geralmente há bastante frutas e pipoca, comidas que minha filha adora, porém eu sempre faço questão de levar uns docinhos ou cupcakes veganos. Não apenas para desfrutarmos, mas também vejo como uma oportunidade de apresentar comidas veganas para outras pessoas e quem sabe diminuir esse preconceito de que esse tipo de comida é sem graça.

Também, como foi colocado antes, é muito importante que a criança entenda que nossa sociedade vê animais como produtos e como comida. É necessário explicar que isso é cultural, que faz parte dos hábitos e que muita gente não tem conhecimento sobre o que os animais passam na indústria, por isso tantas pessoas que conhecemos ainda consomem animais. A noção disso aliada ao conceito de respeito, de que todos somos diferentes e cada um tem seus hábitos e maneira de viver, vai ajudar a criança vegana a viver num mundo onívoro.

Não é adequado ensinar que as pessoas que consomem animais são pessoas más: simplesmente porque não o são. Se somos veganos hoje, um dia já fomos onívoros que consumiam animais e ao mesmo tempo os amava.

Por último, a socialização entre veganos é muito importante. Não apenas para crianças. Nós, adultos, valorizamos muito quando estamos perto de quem divide valores conosco. Frequentemente, precisamos dessa socialização para sentir que não estamos sozinhos e que, apesar da grande maioria do mundo pensar diferente, há gente que compartilha de nossas visões. Por isso, socializar com famílias veganas é de um valor inestimável para a criança, especialmente para que sinta que não está sozinha.

O QUE PRECISA DE ATENÇÃO, NUTRICIONALMENTE?

Não é proteína. Ao contrário do que pensam, a proteína não é nem de longe o maior problema da dieta vegana, já que ela se encontra em abundância nas leguminosas. E no contexto da cultura brasileira, onde o feijão é alimento diário de grande parte da população, proteína dificilmente vai faltar. Cálcio, zinco, os ômegas e ferro também estão presentes em boa quantidade nas plantas. A verdade é que se você tiver uma dieta vegana balanceada, com variedade de cores e texturas, dando sempre prioridade aos alimentos naturais em vez de processados, dificilmente terá deficiência em algum nutriente. B12 é o único nutriente que precisa ser suplementado na dieta vegana. No caso de crianças, se a mãe amamenta e apresenta bons níveis de vitamina B12, o leite materno é suficiente para suprir as necessidades do bebê nos primeiros 6 meses de vida. Caso contrário, será necessário aconselhamento de algum profissional de saúde para conversar sobre suplementação desde o início da vida do bebê. É interessante lembrar que cuidados nutricionais na infância não são exclusivamente aconselhados a famílias veganas e, sim, a famílias de diferentes hábitos alimentares. Em alguns casos em que crianças veganas apresentam problemas de saúde, a mídia sensacionalista credita esses problemas à dieta vegana quando, na realidade, a complicação é bem mais ampla: pais negligentes.

LIDANDO COM AS BARREIRAS

Embora a praticabilidade e eficiência de uma dieta vegana já tenha respaldo científico dos principais órgãos de nutrição no mundo, na prática observamos uma certa resistência de apoio, incluindo aqui o de profissionais de saúde. Mas profissionais atualizados existem e vão existir cada vez mais quando a indústria perceber a demanda. É prudente procurar um profissional que apoie as decisões da família (assim como em qualquer aspecto da criação de um filho).

Sentimos na pele que, em questões de maternidade, diariamente há pessoas reafirmando que existe uma maneira melhor de criar o seu filho, diferentemente de como você faz. Criar uma criança vegana também é assim. Portanto, é importante procurar grupos de famílias veganas, se informar e procurar apoio profissional para que isso não se transforme num peso extra a ser carregado em sua maternagem.

Veganismo é, mais que tudo, um ato político. Maternidade vegana é resistência, é ter fé no que você acredita mesmo que o mundo te diga diariamente que você está fazendo tudo errado. Criar pessoas veganas é ter esperança de um futuro mais sustentável, mais ético e consequentemente mais saudável.

Foto de abertura: Nilo Neto/Arquivo Pessoal


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