RBC | Ed. 102

Imagem: William Mota
“Sim, incontestável incerteza de um ser incapaz de definir onde ou quando deve agir, apenas seguindo o vento, num movimento inerte deixando assim a vida passar.” Pamela Sobrinho

TIAGO HENRIQUE

O UNIVERSO DE CADA QUAL

O raio de luz
Levado pela energia
Que vem de corpos estranhos

Ela se casou aos dezesseis
Com a permissão dos pais.
Ele fugiu de casa
Deixando um bilhete para a mãe

O cata-vento move outra força
O moinho brinca com a água
O transeunte faz o seu trajeto
As crianças brincam no quintal.

PAMELA SOBRINHO

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco. Gabriel Garcia Marques (Memórias de Minhas Putas Tristes — Pg. 74)

A nossa própria natureza transgredi nossas opressões, sou como um pelicano no deserto, buscando ardentemente por uma miragem de água, ou será a ilusão de que eu posso consertar as coisas que vem e não as que vão.

Em minhas indomáveis indecisões quando não sei onde vou, sei apenas que me moldo para que não vejas minhas incertezas, diante de um sol brilhante de luz ofuscante escondo dentro do meu ser todas as indecisões que alguém tão decidido não pode ter e eis a questão ser ou não ser, amar ou não amar, ser eu ou apenas aquilo que os outros projetam de mim mesmo, eis enfim meu maior castigo, não ter a certeza de quem eu sou, apenas sei que em minhas memórias douradoras de um espaço de tempo pouco ofuscante um dia tive a certeza de que nada mais será como já foi num inicio claramente memorável.

Sim, incontestável incerteza de um ser incapaz de definir onde ou quando deve agir, apenas seguindo o vento, num movimento inerte deixando assim a vida passar.

TARSO CORRÊA

EMBOCADURA SOCIAL

É pouco chão para muita bunda,
Muito alfabeto para poucas cabeças,
Muito cabresto para muitos eleitores,
Muitos controles para muitas letras mortas;
São formigas nas trilhas tortas,
Seguindo hipnotizadas pelos seus coletores,
Sonhando acordados sonhos que os favoreça,
Carregando nas costas corcundas,
O peso do flagelo da ignorância,
De um mundo sem oportunidades,
De uma vida mesquinha em desalinho,
Limitada, atolada;
Da infância à velhice mergulhada na passividade,
Em plena anulabilidade.

BRENDOW GODOI

POETAS

Maridos e namorados odeiam poetas.
Eles desfilam de mãos-dadas com suas mulheres,
aparentemente seguros e cheios de si. Homens amados.

Mas por dentro, eles cultivam a fobia
de perderem suas mulheres para um alguém
que arranca sorrisos extraconjugais com poemas.

Maridos e namorados dizem que
poesia é coisa de veado,
mas eles sabem bem 
que não é.

Eles bem tentam prendê-las com seus carros,
seus cargos e sua falsas ilusões de bons
fodedores e chupadores de buceta.

Mas no fundo, eles sabem, eles sabem.
Eles sabem que o diabo foi um poeta 
que rabiscou poemas
sujos no útero de Maria Madalena.

LIVINGSTON MARLINSON

O que há de Belo nesse Horizonte?
Essa noite, fui visitar a nossa bela capital, Belo Horizonte.
E dentro daquele ônibus sinto que me perdi dentro do meu grande vazio…
Tudo que eu via era asfalto… Muito de metal e concreto.
Não nos automóveis ou nas estruturas dos grandes edifícios
Mas, dentro da alma e no rosto de cada pessoa daquele lugar.
Então senti saudades…
Onde estaria a minha estrela agora?
Olhei pro céu e as luzes da cidade me impediram de ver as estrelas.

Quase ensaiei um sorriso quando vi o sereno formando pequenas gotas sobre os carros.
Era outono…
Lembrei de como é belo quando no amanhecer as encostas dos rios ficam branquinhas….
Então senti saudades…
Todo aquele barulho e fumaça me deixaram um pouco aéreo…
Não me sentia bem naquele lugar, que mais me parecia um mundo de bonecos.
Queria sentir o ar puro do meu aconchego, o cheiro de mato…

Eu quis voltar…
E se a minha pobre estrela não estivesse mais lá?
Meu bem, porque me cativou e foi embora?
Agora um pedacinho do meu coração bate perdido no Horizonte…
Nesse Belo Horizonte sombrio e que não tem nada de Belo!
Ah! Ainda volto pra te buscar, e tudo vai ser diferente…
Não quero essa saudade estranha de coisas que só foram vividas pela alma
E que ficaram ingenuamente gravadas em algum cantinho da mente e do coração.

ISABELA CAMPOS

Tudo que eu faço 
Vou deixar você saber, 
Cada gota de poesia desce sob meu rosto 
Pode ter certeza que elas vão secar 
E ninguém vai perceber 
Todos querem apreciar poesias felizes

Vou deixar você saber,
Que quando estou triste 
Meu único amigo é um livro de criações 
Criações de versos 
Não fale comigo até eu acabar

Vou deixar você saber, 
Eu não entendo quando me deito na cama 
Na maioria das vezes eu fico por lá 
E começa outra vez 
Não quero me levantar

Vou deixar você saber, 
Eu me despedi do mundo 
Para viver no lar da imaginação 
É o conforto que tenho 
É um dom doloroso, mas apreciável.

Vou deixar você saber 
Que quando a última linha se completa 
Eu simplesmente me calo 
Abraço meu travesseiro 
E é a hora de dizer até mais amigo…

GIULIANO SANTOS

O SETE BOIAS II

Falar o povo fala que é invenção da gente. Já se viu comer sem vontade? Dia desses a patroa tava com zelo dum litro desses coloridos, panhado em prenda de leilão santeiro. Influiu que carecia da garrafa velha que tava inté no meio com melado. Assuntou lá que eu arrumasse meu jeito, com aquela coisa de mulher, de num deixar o sujeito desacossoado. Havia de consumir com o melado de lá, de certo que era pra ponhar no litro novo. Ela quase que me investiu, chocada de pinto, avançou na garrafa e chamou eu de esganado.

ALAN AMARAL

Tempo Perdido Podcast. Assuntos variados, bom humor e espontaneidade. Escute em: www.tempoperdido.com.br você também pode baixar o aplicativo Castbox para iOS ou Android e ouvir sob demanda.

CRISTIANO DE OLIVEIRA

Kill

LUCAS DINIZ

Experimentações

ESPAÇO ABERTO

LUCIANA CHAVES

SOLIDÃO

Solidão é hospício
Não é propício a ninguém
Tamanha é a loucura de ser
Louco no dia após o outro
Solidão é o desejo que sonda
O coração fadado à espinheiro
Solidão amargura a sorte
Solidão é a dor doída de ser só
Solidão, quem dera fosse ilusão.

MARCOS SANTOS

PERFEIÇÃO

Queremos viver a perfeição,
Queremos no outro essa perfeição,
Inventamos no outro essa louca e perfeita perfeição.

Esquecemos de nos inventar também, 
A paixão…
A maior invenção que fazemos do outro.

Porém o amor…
O amor é ajuste…
Ao contrário do que dizem, não é cego.

O amor é a paixão melhorada,
É a descoberta do outro,
E aceitar esse outro.

Se aceitar, porém, se ajustar ao outro,
Não deixar de lado o seu “eu”,
Mas corrigir e melhorar esse “eu” pelo outro.

Quando a paixão acaba,
Ou o amor toma conta,
Ou apenas sobra o vazio, sem pressa de ser preenchido.

BRIAN TAYLOR

A preço de sangue 
Caminhando pela cidade, 
Rasgando a madrugada… 
A lua me guia, mas me trai quando vem o sol, 
De culpa me inundei, 
E me afoguei ao desespero. 
Sua partida tão sutil, 
Como se o tempo nem mesmo houvesse chegado a nós, 
Se assim for, não sofrerei mais, pois não se perde o que não se tem… 
O significado de tudo se perdeu aos motivos a ele julgados, 
Não cabia a mim andar por espinhos, 
Se não valesse a ti um buquê das mais belas rosas… 
Mas o caminho nunca foi lembrado, 
Pois a chegada era o importante a ti… 
Olhe para mim! 
Veja nas cicatrizes resíduos de seus sorrisos, 
Minha dor não te faria feliz, 
Mas com meu sangue paguei o que te faria sorrir. 
Tudo como um presente que se tira o preço, 
E sem saber o valor se alegra, 
Ou se não te agrega, descarta, pois nada te custou, 
Mas a mim não terei reembolso, 
Aquilo foi perdido, 
Lembrado para sempre por um tempo que jamais irá retornar… 
Só peço coração, não me deixe chorar… 
Lágrimas não trazem o passado ao presente, 
Mas transforma as dores já passadas partes do que estou vivendo…

FILIPE CANAAN

Tou no alfa eles no Beta 
Tou tipo alfabeto, nessas 26 letras vou criando. 
O papo reto 
Como Manicongo
Eu tou no manicômio 
Mais veloz que um maníaco, mesmo assim. 
Continuo cômico

Essa é só minha máscara, mas pena que não 
Fico verde, livro-me de más caras facilmente. 
A risada estampada no semblante guarda mágoa 
Ardente 
E nado nessa água ardente 
É tristeza mesmo, não é quando você vai no 
Dentista e arde o dente.

MATHEUS PINHEIRO

Ouço o nefasto som proferido pela contemporaneidade. 
Em seu tom cínico e dissimulado, 
Acompanha-se o hálito cadavérico de seu manifesto 
Sociedade atual… 
Onde todos se molham e se desfazem… 
Tornou-se cômodo a candura das sombras e da ilusão 
Quiçá ter-se-ia sido melhor encarar a mais doce das amargas verdades 
Aos confrades da razão, meus sinceros sentimentos, 
Isolam-se no fundo de suas convicções 
E chamam isso de “mundão” 
O lirismo fúnebre recai aos decaídos, vinde a mim, 
Ó pequeninos, “flutuantes” e reprimidos.

WEB-CLIPES DE BETIM

Tula Black

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Edição publicada por
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