O Destempero das Palavras

“com o medo
aprendi o ofício
de armazenar as palavras
como num frigorífico”
Sergio de Castro Pinto

A palavra é muito moça para a embalsamarem engarrafada em formol. Palavra intocável com pele de louça enrugada no congelador. Menina feito velha moça-velha no poleiro da janela, escrava de dentes alinhados, esperando um alguém que lhe encontre sentido; ou um outro alguém que a ache, a tal-palavra, entre tantas, a mais bela. As palavras têm vida pequena; assim, deixe que, neste ínterim, ela seja plena.

Deixe que a palavra saia lá fora, que encontre outras e crie os seus vícios. Faça dos seus vícios, suas gírias. A palavra logo se encontra, logo se enturma. Mas não tenha a deselegância de ir atrás dela, a passos de pai medroso. Hoje, maior é o medo que sai, do que o que rodeia. Sozinhas andando com as próprias pernas, assim deve ser, o bando das destemidas palavras ansiosas. Que tomem suas decisões, que se percam em buscas desapropriadas, por becos despropositais, em gargantas estreitas, por cordas bambas de caminho estreito. Que a palavra tome tão igual estreita confiança em si. Que ferva de bravura. As palavras nessa hora não têm medo. Para que embutir o que não lhes são congênito?

E se, por sobressalto, a palavra se sentir extraviada que busque ajuda, que se ache, que encontre o itinerário com suas próprias palavras. Não se pode colocar palavras na boca das palavras. Um dia ela lá chega. As palavras não são muito entendidas de relógio. Um dia, nem que seja nunca, ela chega. Se não, é que ela não faria falta, não faria sentido chegar. Muitas daquelas magrelas palavras que nunca passaram da goela preferiram ficar assim, como um cubo de gelo, como um novelo de lã.

Palavras, por si sós, conseguem ter a esperteza de gatos de feira, de cachorros sem coleira. É só lhes fracionar a razão e a ração, e deixar que passem os seus próprios maus bocados, sem precaução, sem projeção. Palavras, por si sós, conseguem ter a riqueza da surpresa. Destemperada palavra obesa de costelas expostas. Por pirraça, se esconde ao ser caçada; mas, quando quer, vem, toda-ela oferecida a quem queira sobre a mesa.

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