Crônicas de um Fade Away

Como me tornei Kobe Bryant

Tudo começou com uma bola de papel amassado e um cesto de lixo no canto da sala. Na verdade, não. Tudo começou com o rompimento do ligamento cruzado do joelho direito.

No ensino fundamental, eu, que não passava do ala aberto do sofá da sala da minha casa, já contava com um flagrante sobrepeso. Para fins narrativos, apesar de apaixonado por futebol desde cedo, o sobrepeso sempre foi um fator impeditivo de qualquer tipo de bate bola em um nível aceitável. As tentativas existiram, porém todas eram frustradas pela lentidão do corpo em relação à rapidez da mente.

Vários sentimentos se misturavam dentro do garoto, nenhum deles bom. Desesperador era olhar para a TV e saber que o sonho de se tornar o Macelinho Carioca tinha ido por água abaixo. Interessante ressaltar, neste ponto, que o aparente fracasso nos esportes não vinha sozinho. Dentro do ambiente escolar, tal qual a teoria evolutiva de Darwin, era realizada um diferenciação natural entre aqueles que eram aptos ou não à pratica esportiva. Acredito que não seja necessário dizer qual o melhor grupo.

Quase como em uma jornada do herói, o primeiro elemento a ser introduzido nesta, até então, ode ao fracasso foi o joelho. Ou melhor, o dono do joelho. Lembra do jogador do Espéria? Pois bem, neste momento da história, tanto ele quanto eu frequentávamos a mesma sala de aula no colégio. A convivência se tornou amizade e a amizade cresceu a cada ano, até o rompimento.

Rompimento total dos ligamentos do joelho direito, sofrida pelo meu amigo. A pesada rotina de treinos em uma categoria de base sedenta por revelações a qualquer custo fez mais uma vítima.

Com uma cirurgia bem sucedida e um processo de recuperação bem chato pela frente, os próximos meses iriam ditar o meu relacionamento com o basquete pelo resto da minha vida. As instruções para meu amigo eram bem claras: “Você não pode forçar este joelho de maneira nenhuma!”. A ordem foi prontamente levada à direção da escola onde estudávamos e logo acatada. Naquele momento estudávamos em uma sala de aula localizada no terceiro andar de um prédio sem elevador e a logística foi desenhada da seguinte maneira:
- Chegada na escola 45 minutos antes ou depois do começo das aulas a fim de evitar tumultos e preocupação, uma vez que a dificuldade do meu amigo em subir e descer escadas era enorme.
- Durante o “recreio” seria designado um amigo (Esse sou eu!) para ficar com ele dentro da sala de aula, já que seria físicamente impossível subir e descer todos aqueles lances de escada em 30 minutos.
- Bem com a chagada, saída autorizada somente 45 minutos após o término da aulas.

Graças à nossa amizade, eu já era um fã de basquete, um grande fã de NBA, um grande torcedor do Los Angeles Lakers e, por fim, um GRANDE fã de Kobe Bryant. Imagine qual a diversão de dois garotos, fãs de basquete, que ficam trancados por 30 minutos dentro de uma sala de aula? O “recreio” se tornou uma sessão de treino e os 30 minutos eram utilizados para a repetição de exaustivos arremessos de bolas de papel amassado no lixo do canto da sala.

“Nossa Betão, você é bom nisso!”

Esta foi a informação que eu tive que processar logo naquele primeiro mês. Após digerir bem a ideia e me entender nesta nova qualidade, decidi: Não serei Marcelinho Carioca, serei Kobe Bryant!

Os poucos jogos da NBA acompanhados por mim logo se multiplicaram. A cada madrugada de quarta para quinta acordado assistindo aos jogos do Lakers na ESPN, uma nova oportunidade de ver a plasticidade dos lances do então camisa 8 do time angelino. As infiltrações, a impulsão, a capacidade atlética de deixar até os melhores marcadores da liga no chão, com um certo desespero no olhar quando se encontravam em uma situação de 1 contra 1.

Apesar da minha empolgação, o sobrepeso novamente se fez presente nas faltas de velocidade, impulsão e capacidade atlética e a minha única qualidade que se destacava era o arremesso. Kobe sempre foi um jogador completo e teve também no arremesso uma de suas grandes forças. Naquele momento, para mim, isso bastava.

Quem me dera fosse só um arremesso. Seria muito fácil se fosse só pegar a bola, olhar para a cesta e fazer a laranjinha percorrer o caminho desde a boca do estômago, passando pelo coração, encobrindo o olhar e finalmente sendo liberada para o seu caminhar de glória, logo acima da cabeça. Kobe tinha uma assinatura, um algo a mais que parecia evidenciar, através de um pulo para trás feito logo após um giro, a distância física de centímetros e moral de quilômetros entre Kobe e o marcador. Este era o Fade Away de Kobe Bryant.

Nesta altura eu já treinava com o time do colégio, com uma vaga não tão concorrida em um time não tão competitivo. Naturalmente meu jogo não era nada parecido com o do Black Mamba, mas era um jogo. O começo foi por causa do Kobe, mas a continuidade foi por causa do Basquete.

Cada vez mais basquete e menos Kobe, por motivos óbvios, o jogo foi se tornando parte da minha rotina. A única coisa que ainda restava do ídolo era a já surrada camisa amarela com o “falecido” número 8 estampado. Com o passar do tempo, os treinos deram lugar ao casual basquete de final de semana entre amigos.

Por vezes menos, por vezes mais, o sobrepeso esteve presente durante toda esta caminhada. Já ciente de todas as limitações que um corpo inflado por anos de fast food impõe ao jogo, o arremesso se validou como a principal arma ofensiva. Mesmo assim, a casualidade dos jogos entre amigos dão ao jogador a alternativa que competição nenhuma é capaz de proporcionar: o descompromisso com o resultado.

Nada mais bonito no esporte do que o descompromisso. Ele te faz arriscar jogadas inimagináveis e substitui as broncas do técnico por risadas dos amigos. Graças ao descompromisso, minha armação de jogadas ficou cada vez mais ousada e as infiltrações cada vez mais frequentes.

O arremesso estava ali, sempre esteve ali, mas agora era hora de se divertir. Pego a bola, com a base no pé direito, faço um ou dois jogos de corpo com a perna esquerda. No primeiro drible nada, no segundo o marcador cai. Coloco toda a velocidade em direção ao lado direito da quadra e, quando o marcador já deveria estar entregue, o sinto ao meu lado. O sobrepeso novamente apareceu na falta de velocidade, que possibilitou ao marcador a retomada da posição defensiva. Já que aquela era a situação que se apresentava, utilizei os quilos a mais para empurrar o marcador para dentro do garrafão, deu certo. Nada mais poderia ser feito naquela situação. Todos os companheiros marcados (cá entre nós, nem que eles estivessem livres aquela bola seria passada), parei a bola, de costas para a cesta e, ao olhar para a laranja, vejo o amarelo pálido e o número 8 desgastado da minha camisa, veio a lembrança do craque. Esse era o momento.

Jogo de corpo para a esquerda, OK. Giro para a direita, OK. Pulo para trás já armando o arremesso, OK. Marcador indefeso, OK. Bola viajando, por cima da marcação, indo direto de encontro ao Nylon e passando pelo arco sem ao mesmo tocá-lo. Mais dois pontos.

A jogada foi repetida com exaustão, durante quase todos os finais de semana. O estilo de jogo não podia ser mais diferente mas, naquele momento, naquele Fade Away, eu era Kobe Bryant. No começo era um recurso que o tempo e o treinamento tornaram em marca registrada e a consagração vinha além dos dois pontos. A grande vitória vinha quando, logo depois do êxito da jogada, dava para escutar, bem baixinho, a conversa dos amigos que aguardavam o fim do jogo para entrar: “Essa jogadinha de Kobe Bryant que ele faz é foda, não dá pra pegar.”

Sou branco, sou baixo, sou careca, sou gordo e, todo sábado de manhã, sou Kobe!