Das coisas que só aparecem quando somem

Quatro horas da tarde, escritório. Só mais um daqueles dias que de tão comuns chegam assustar. A milimétrica vértice que marca a metade do expediente. Metade do trabalho que já fiz, metade que vou fazer depois do lanche. Barriga ronca pedindo atenção, abro a gaveta da mesa pra atender. Barra de chocolate. Nem sei direito o tipo, se era de avelã, amendoim, ou aquelas misturas de chocolate branco com meio amargo, doce, ao leite, ao leite amargo. Talvez doce.

Pra ser sincero não lembro nem da trajetória da barrinha até ali. Talvez tenha comprado pra não carregar troco no posto de gasolina, talvez tenha ganhado de algum colega de trabalho, talvez roubei da gaveta da cozinha. Não sei se aquela barra ainda está na validade, mas quem liga? Chocolate não vence mesmo.

Mordida no chocolate. Gosto doce girando na boca enquanto me concentro em ler as notícias da política. Tá tudo bem tenso no Senado, não tá? Outra mordida no chocolate, piada no grupo do escritório. Colegas de idade não medem pudor nas piadas. Algumas poucas gargalhadas mentais enquanto passo a língua no céu da boca pra desgrudar o excesso de doce. Vai bem um café, levanto, reponho minha xícara, um gole de café desfila na boca.

Finalmente a secretária aprendeu a fazer café bom, mas errou na temperatura. Língua sutilmente queimada. Bocada no chocolate com a língua esfolada. Grande coisa, tem duas planilhas pra apresentar no fim da tarde, o break cai bem pra fazer um rascunho de ideias olhando pro teto do escritório.

Mais um pedacinho de chocolate pra encerrar. Pego na mesa sem desfocar do computador, pegada vazia. Acabou antes do programado, mas o papel está ali. Odeio lixo na minha mesa, desvio os olhos do monitor pra embalagem.

Mundo congela. A porra do tempo parou.

Meu colega não digita mais, o ar condicionado não faz mais barulho, o telefone para de tocar, o silêncio desse lapso no tempo-espaço grita no meu ouvido enquanto encaro a embalagem do chocolate. Um arrepio na espinha sobe da primeira das minhas não sei quantas vértebras até chegar na nuca. A confusão do Senado, o grupo do escritório, as planilhas, tudo vira nada. A embalagem é o cosmos agora, e eu sou o satélite girando em órbita desse campo. Tá frio nessa galáxia, e o papel do chocolate não para de olhar pra mim.

Me sinto perdido na decepção do desproveito enquanto lembro das noites acordado sonhando com o chocolate, das gargalhadas que essa barrinha já rendeu, das quedas no sono com o perfume do cacau no meu nariz, das tardes de trabalho com a cabeça perdida esperando a hora da degustação, e daquele gostinho doce e maldoso que já deslizou na ponta da minha língua, agora queimada pelo café.

Amigos, eu acabei de devorar a barra mais significativa da vida sem nem por um segundo me tocar.

Aquela safada vai fazer falta.

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