Distantes em Cooperação

Temos um certo orgulho assustado da nossa modernidade. Um hábito de reclamar da velocidade, da sobrecarga, num misto de prazer, ódio e amor próprio. Somos indulgentes com o próprio cansaço, porque vemos muito privilégio em sermos como somos: tecnológicos, rápidos, onipresentes.

Começo qualquer texto sobre modernidade com uma expectativa de profecia apocalíptica que conseguirá julgar nossos erros. Morreremos sozinhos e desconectados? Acabou a privacidade? São conclusões megalomaníacas. O desarranjo que veio com a revolução digital nos traz um novo arranjo. A desorientação, a sobrecarga sensorial de que fala Ben Singer é um reflexo do que é novo e nos tranforma como indivíduos. Desde sempre o homem evolui aos tropeços, em convulsões. Repensemos laços, tempo, tudo.

Bourdieu dizia que a Sociologia é preocupada com as mudanças (e que ele era o sociólogo da permanência- sinto por ele). Sugiro que não nos preocupemos. Cuidemos delas. Desse mesmo sociólogo aprendemos que as posições, regras, capitais de cada grupo social ensejam uma luta pelo poder.

E o que mudou?

Acho que somos capazes de um novo senso de coletivo. E que mesmo individualizados nos cuidamos, vigiamos, regulamos. Desta vez de maneira mais abrangente, e talvez mais respeitosa. Não há fim. Não há resultado apocalíptico. Não há confusão que virá. Já vivemos nela.