UM NAUFRÁGIO E CINCO DESCOBERTAS.

#ExpediçãoBrasil2018

Navio Endurance, 1914 — Foto: Frank Hurley

Você é o capitão! E agora?

Em meio ao caos, um tripulante chamado Ernest foi escolhido para substituir os capitães anteriores que provocaram uma rachadura no casco do navio, escolhido até por quem não entende nada de navegação marítima, afinal, Ernest sempre portou um machado e nunca fez um furo se quer no casco. Desta vez, as pessoas estão acreditando nele.

Alguns o odeiam profundamente por parecer um ‘prático’ estranho a tudo que já viram, sem contar o linguajar solto demais. Apesar de ter rígida formação, ainda é pouco para comandar um navio deste porte e danificado do jeito que está, boatos de que será um desastre. Então o entusiasmo geral aumentou quando descobriram que seu segundo nome era Henry, que representa alguém que bota ORDEM na casa.

– “Vamos pessoal, o navio está afundando e precisamos nos salvar!”, gritam os tripulantes e passageiros enquanto saem correndo de suas cabines.

Os primeiros botes salva-vidas já estão sendo desamarrados, todos estão nervosos e querendo solução imediata, definitiva e sem se molhar, de preferência. Enquanto alguns furam o casco para a água que está entrando poder sair, outros tentam tapar os buracos para a água não entrar. Há ainda um terceiro grupo tentando tirar o AMIGO e ex-capitão Barba, que por algum motivo ficou preso na Casa de Máquinas com mais companheiros. O lugar era onde O MECANISMO movia o velho navio e que, por falta de peças, acabou soltando a engrenagem provocando a rachadura no casco. Dizem eles que o Barba está usando um macacão laranja todo manchado por causa do óleo respingado das máquinas e precisa se trocar. No convés, o capitão Ernest vai soltando as cordas dos demais botes, enquanto isso alguns gritam aleatoriamente:

– “paraquedista! motorista! Nunca pilotou nada!”;

– “não sabe nem desatar um nó”;

– “só sabe gritar”;

– “a praia ainda está longe”;

– “eu não quero me molhar”;

– “sabia que no passado já teve tubarões no deserto? por que aqui não teria?”;

– “eu não discuto com você, só quero sair daqui”.

DESCOBERTA 1: O navio não é o Brasil. O Brasil são as pessoas que precisam ser salvas por elas mesmas.

À tripulação restou então as mãos, alguns equipamentos de flutuação e a vontade dos passageiros em construir um navio novo. De longe, ainda se avista os botes mais novos levando os antigos ex-capitães que saíram na surdina, ninguém sabe para onde vão. Então, como estão faltando botes, aqueles que são mais fortes terão que nadar até a praia, outros precisarão ter força para remar os botes e voltar para buscar mais gente.

– “Olhem! Um navio se aproxima, socorro! socorro! ajudem aqui!”, grita um passageiro.

– “É um navio pirata!”, alerta um oficial náutico.

Alguns já se apressam e pulam nesse navio, que é um pouco parecido com o que já estavam acostumados, grande, lento e caindo aos pedaços, mas antes de oferecer ajuda, os piratas pedem primeiro a carga do velho navio. Então, alguns tripulantes arrancam o que podem do compartimento de carga, que é PÚBLICO, ou seja, de todos e correm para levar aos piratas, mas o que não sabem, é para onde esse navio irá levá-los.

– “toma lá, dá cá” diz um dos piratas!

– “se quiserem vir conosco, tragam o que pedimos”, complementam eles.

DESCOBERTA 2: O velho navio é a política atual no Brasil.

O velho navio que agora começa afundar, ainda pode contar com os botes salva-vidas, mas são poucos e os que restaram estão enferrujados, parece que nem todos se salvarão e poderá ser o fim para muita gente.

Então, de repente, um iate estaciona ao lado, completamente NOVO! E o seu piloto, que já tinha viajado com o velho navio, está agora oferecendo ajuda. Além do casco do iate estar sem furos, a embarcação é limpa e moderna, que inclusive foi construída pelo próprio piloto, com muito estudo e trabalho. Um exemplo de PROGRESSO!

– “Pessoal, aqui é o Piloto James, venham! peguem na minha mão”. Diz o bem-sucedido piloto.

– “ei! vem com a gente, conhecemos toda a costa, faremos um novo navio para vocês”, diz um tripulante do iate.

Do outro lado do iate:

– “isso sim é navegar, não aquele velho navio. Eu é que não quero ser lembrado por aquilo”, pensou um dos apressados que pularam antes no iate.

DESCOBERTA 3: Não vão caber todos no iate desta vez, alguns vão ter que esperar.

Então, o piloto James precisará fazer mais viagens até a praia e voltar para buscar mais gente, inclusive mostrar a que veio aos mais desconfiados. E mesmo sem saber o que Ernest pensa sobre James e vice-versa, a prioridade agora é salvar o máximo de gente possível, pois o velho navio já está inclinado. Então, parte o Piloto James levando os primeiros resgatados para os aposentos próximo ao seu estaleiro, que por sinal é onde ele já prepara um navio melhor, com navegação digital, mais econômico e bonito, porém ele ainda aguarda algumas peças (trâmites burocráticos). Independente dos planos de James, todos sabem que primeiro será preciso salvar a tripulação e passageiros.

– “sorte a nossa que o velho navio tinha botes, não é?”, diz uma senhora rumo a praia.

– “olha a cor desses botes: laranja! tem coisa aí!”, diz um senhor que tinha avistado o iate, mas preferiu esperar a palavra do capitão.

– “vamos, continuem soltando os barcos!”, grita em alto tom o capitão Ernest para que todos ouçam. “tão achando que isso aqui é submarino transformer?”, ironicamente complementa.

– “não é barco, é bote”, corrige uma senhorita segurando um guarda-sol.

Porém os nós bem atados que seguram os botes nunca foram desfeitos e o capitão Ernest está com dificuldades, principalmente depois de escorregar em uma casca de banana enquanto respondia algumas perguntas e dava instruções aos passageiros, afinal, nunca foi preciso abandonar o velho navio, que até então, era confortável e muita gente acreditava que nem mesmo uma marolinha iria abalar. Já o experiente piloto James, que estava na terceira viagem, ficou assustado ao se aproximar novamente, pois como o velho navio estava afundando, já era possível avistar o Navio Pirata do outro lado se aproveitando do caos, então refaz os cálculos para corrigir a rota do iate, elimina o que não é necessário para navegar mais rápido e assim poder ganhar mais tempo. Afinal, junto com os desesperados tripulantes e passageiros, há muita carga, fotos, joias de valor, comida, documentos e esperança que todos tentavam salvar a qualquer custo, alguns levam no bolso, outros nas mãos e a maioria dentro do peito. Então lá se foi o iate novamente aproveitando uma onda que se formava.

DESCOBERTA 4: alguns não querem deixar o velho navio.

A turma que ainda tenta destravar a porta da Casa de Máquinas para salvar o ex-capitão Barba do mecanismo, não desiste, eles resistem! Na pior das hipóteses, acreditam usar o vento bem guardado no porão para mover as velas. Aqueles que querem o velho navio de volta ao mar continuam tapando os buracos para estancar a água. E ainda tem os pescadores de sardinha que continuam abrindo buracos para a água que está entrando poder sair, contrariando seus companheiros. Caos completo!

– “golpe! GOLPE!”, sugerem algumas pessoas para abrir a porta e salvar o ex-capitão Barba, pois só um bom golpe arranca a porta.

DESCOBERTA 5: Precisamos ‘cair na real’, mas sem perder o ideal.

Ainda a maioria dos passageiros não sabe para qual lado do velho navio correr, na dúvida preferem ficar em suas cabines sentados no sofá, só saem de lá apertando um botão BRANCO, mas é NULO acreditar nisso e elas sabem disso. Contudo, sabem que a Casa de Máquinas foi danificada por incompetência e roubo de peças, também sabem que tapar ou fazer mais buracos no casco não resolve, mesmo assim não querem ir nem para o lado do iate, nem para o lado dos botes, pois o CENTRO do navio é mais seguro. Resta ainda o navio pirata, ele não está afundando, mas estranhamente os piratas já orientam os passageiros do velho navio a irem para o outro lado e pular no Iate.

– “os piratas não podem levar a melhor! esses botes também não ajudam em nada, vou para o Iate”, diz um desiludido.

– “vou ficar bem aqui, não vou discutir com quem corre e grita”, diz um “tranquilo” raPAZ em uma das cabines, — “não quero extremos”, complementou ele.

– “baixem o volume da TV!”, diz um vizinho de cabine que não aguenta mais ouvir mentiras.

– “culpa daquele cruzeiro luxuoso que passou por nós”, resmunga um passageiro de smartphone.

– No convés já se ouve comentários como: “se esse navio não afundar agora, a viagem irá continuar do jeito que está”.

– Enquanto outros preveem: — “se continuar, a próxima rachadura será bem maior e acontecerá mais longe da praia, talvez nem o iate consiga nos alcançar”.

No iate:

– Um jovem tripulante pergunta: “você já conhece o iate?”.

– “parem de entrar nos botes, eles estão enferrujados e vocês podem pegar tétano, venham com a gente”, grita um passageiro do iate.

No convés do navio:

Um velho senhor reclama: “esqueçam o iate, não tem chance, é pequeno”.

Pelas PESQUISAS e cálculos mais otimistas, o iate conseguirá fazer somente mais uma viagem até a praia antes de o navio afundar por completo, não haverá segunda viagem após essa. É um momento dramático pois ainda faltam 5% dos botes para soltar e muitas pessoas precisam de ajuda para colocarem a boia salva-vidas para nadarem até a praia com mais segurança. E para piorar, o Capitão Ernest foi atingido por um gancho enquanto desamarrava os últimos botes.

– “temos que melhorar isso, se todos não se salvarem agora, não haverá segunda chance”, alerta um tripulante na proa, pois parte do navio já está debaixo d’água.

– “cuidado com a onda, não vá se afogar antes de chegar na praia”, dizem os voluntários do capitão Ernest enquanto colocam mais gente na água.

– “venham para este lado do navio, precisamos de ajuda”, conclama o CAPITÃO.

E agora? Qual fim você quer dar à essa história?


Na foto: o navio Endurance da lendária expedição à Antártida, em 1914, liderada por Sir Ernest Henry Shackleton e tendo James Caird, industrial e matemático escocês, como um dos principais financiadores da missão.

Fotógrafo: Frank Hurley

Betto (🐸 gab.ai/bettojcm )

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Se você for uma pessoa q busca realmente a verdade, é necessário q ao menos uma vez duvide de todas as coisas, da maneira mais profunda possível. René Descartes

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