Origens

Eu era um barco no meio do mar. Depois de uma tempestade que quase me derrubou. Eu era apenas eu, o mar e o sol que batia na pele. A tempestade limpou o céu e o dia que fazia era de um azul cheio de ternura, daqueles céus que a gente sabe que só existem depois de uma grande tempestade. Uma grande página azul a ser reescrita pela natureza das coisas.

O destino que a natureza nos reserva é o renascimento. Ganhamos todos os dias a chance de nos recriarmos, de começar de novo na amplitude do céu. Eu estava no meio de um recomeço, à deriva. No meio do mar eu não conseguia ver nenhum horizonte, por isso me deixei levar pelo vento. Ele que é sábio e já percorreu todos os cantos da terra fazendo vidas dançarem com seu sopro.

Me deixei levar e eu-barquinho atraquei numa ilha desconhecida, totalmente diferente de todas as ilhas que eu já havia estado. Nessa ilha o vento soprava calmo e o sol não ardia a pele, a natureza era silenciosa. Passei a tarde sentada na ilha, pensando nos horizontes e sentindo o cabelo esvoaçar bagunçando o que se passava pela cabeça.

No fim do dia repousei numa árvore, em busca de abrigo e um pouco de conforto pra minha alma perdida. Me despedi da lua num sono leve e fechei os olhos, me abrindo pra escuridão interna na esperança de num sonho encontrar respostas.

Acordei num pulo, o mar parecia me chamar. Algo na maneira como o vento envolvia me corpo me levou em direção a ele e, sem saber nadar, mergulhei. Não pensei na falta que me faria o oxigênio e de repente nos tornamos uma coisa só. Pulmão sem ar, me vi sereia. Fazia parte daquele todo submerso e era irmã daquelas criaturas desconhecidas e coloridas. Era ao mesmo tempo planta e bicho, terra e água.

Parecia que aquele era o lugar certo pra se estar. Não pertencia a um pedaço de terra específico e delimitado, mas banhava a todas elas. Podia estar onde quisesse e ainda podia sentir os raios de sol. Nesse momento me dei conta de que minha natureza é a profundidade. A superfície guarda paisagens lindas, mas o que me acende o coração é o que está lá embaixo, o que é desconhecido do homem. Coisas que eu nem conheço muito bem e que podem esconder segredos milenares ou monstros terríveis.

O que me faz respirar não é mais o ar e sim a chance de poder acessar lugares por onde ninguém nunca passou. Espaços mágicos fora do tempo e do espaço, nessa sensação de flutuar nas possibilidades. O medo que tanto existia na superfície se extingue no instante em que meu coração de faz leve para as descobertas que a imensidão da profundidade podem proporcionar. O medo se faz curiosidade que como uma correnteza me guia para onde devo estar. Meu lar é a profundeza do mar.