sobre mim, winston e nós todos

oito e treze da noite e eu preciso de um cigarro
em algum momento entre quando você percebe que a noite cai e as sombras ficam longas
e quando os galos cantam e parece tarde, tarde demais
eu queria viver todos os sonhos cobertos pelo asfalto
todas as vidas desperdiçadas sem querer
e assim
estancar toda a dor do abandono que inunda os enormes edifícios de concreto armado

frente essas enormes estruturas 
meu coração transeunte é indefeso
sinto como se os vergalhões me perfurassem a pele
e como se o concreto me fosse empurrado pela garganta
a construção, de fato, impressiona
20 andares, janelas de vidro, garagens e mais garagens
uma agulha que irrompe violentamente da terra
pela mão do operário 
que é todos os dias violentado
pelas garras da exploração

o brasil é o país mais empoeirado do mundo
talvez por isso mesmo a alegria adquira contornos trágicos 
essa terra tem sede de sangue
e as vezes ao povo falta água
tudo isso ajuda a imaginar 
as ruas imundas, as crianças que morrem muito cedo
mas não é fácil mensurar o peso da dor
medir cada lágrima, cada gota de sangue
mapear cada morte na infindável cadeia de desgraças 
um novelo que parece destruir cada um de nós, um pouco mais, um pouco mais e um pouco mais

são uma e meia da manhã
ainda não fumei o meu cigarro
destruí o nexo causal que há entre o meu presente e o meu futuro
e aguardo impassível o fim do mundo