Distorção

Barbara Fredianelli
Sep 4, 2018 · 2 min read
“Woman at the mirror”, Nicola Pucci.

Ninguém nunca viu seu próprio rosto.

Toda vez que seu reflexo bate no espelho, inevitavelmente parte da luz é absorvida pelo anteparo. Nada no mundo reflete o que quer que seja com exatidão.

Se sou muito mais que meu reflexo, quem é a figura que mora no espelho?

De quem são os olhos que percorrem cada curva do meu corpo, cada fio de cabelo, cada centímetro de pele e cada cicatriz? Quem é que mora aí dentro e se distorce até que eu passe a achar a cena verdadeiramente dantesca?

Quem é você, que todos veem exceto eu? Meus amores antigos, amigos de longa data ou estranhos na rua conhecem mais de meu exterior do que eu mesma?

Se é fisicamente impossível que eu e meu reflexo sejamos a mesma pessoa, será que encaramos uma à outra durante tanto tempo que meu cérebro já não mais processa sua imagem do jeito como deve ser?

A saída seria confiar nos olhos alheios? Mas com os olhos de quem eu me vejo? Das garotas vestidas como verdadeiras bonecas humanas e que exigem tanto de si mesmas a ponto de terem seus interiores se corroendo de dor e fome? Dos garotos que não sabem olhar sem tocar?

Se essa for a única saída, pode escrever: prefiro a imagem que meus olhos captam às distorções alheias.

Não quero me ver pelos olhos deles.

Eles não me conhecem.

Barbara Fredianelli

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Rabisco o que me transborda.

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