Distorção

Ninguém nunca viu seu próprio rosto.
Toda vez que seu reflexo bate no espelho, inevitavelmente parte da luz é absorvida pelo anteparo. Nada no mundo reflete o que quer que seja com exatidão.
Se sou muito mais que meu reflexo, quem é a figura que mora no espelho?
De quem são os olhos que percorrem cada curva do meu corpo, cada fio de cabelo, cada centímetro de pele e cada cicatriz? Quem é que mora aí dentro e se distorce até que eu passe a achar a cena verdadeiramente dantesca?
Quem é você, que todos veem exceto eu? Meus amores antigos, amigos de longa data ou estranhos na rua conhecem mais de meu exterior do que eu mesma?
Se é fisicamente impossível que eu e meu reflexo sejamos a mesma pessoa, será que encaramos uma à outra durante tanto tempo que meu cérebro já não mais processa sua imagem do jeito como deve ser?
A saída seria confiar nos olhos alheios? Mas com os olhos de quem eu me vejo? Das garotas vestidas como verdadeiras bonecas humanas e que exigem tanto de si mesmas a ponto de terem seus interiores se corroendo de dor e fome? Dos garotos que não sabem olhar sem tocar?
Se essa for a única saída, pode escrever: prefiro a imagem que meus olhos captam às distorções alheias.
Não quero me ver pelos olhos deles.
Eles não me conhecem.
