eu nunca soube desenhar as coisas

sempre tentava imaginar o desenho antes de fazê-lo, como se pudesse me encorajar a reproduzir aquela ideia e colocar no papel a bonita imagem que tinha dentro de mim.

mas isso nem sempre dá certo. muitas vezes imagino linhas coesas e quando dou por mim estão todas tortas no traçado da caneta.

penso nos sombreados, na luz, no contorno.

penso em complexas estruturas com as quais nunca verdadeiramente tive contato, e que, no entanto, espero às vezes que surjam como em um instantâneo aprendizado.

como se dali nunca tivessem saído.

como se dali nunca tivesse saído aquele conhecimento que é preciso para fazer coisas bonitas.

agradáveis e harmônicas ao olhar… ou desagradáveis e desarmônicas.

arte. tudo o que eu queria era uma receita para a arte.

se não me dava com lápis, canetas e pincéis, em que outros mundos poderia minha cabeça se aventurar?

moinhos, colinas, praças e castelos. a possibilidade da palavra multidimensional.

latitudes sintáticas, sintéticas, longitudes léxico-gramaticais,

põe-se à mesa a linha que a caneta traça e que eu, inquieta, inexorável e inevitavelmente sigo.

a poesia vem como quem mete os dois pés na porta.

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