Sustentabilidade para debaixo do tapete

A Teoria Populacional Malthusiana apontava já em meados do século XVIII a preocupação com o crescimento da população e das taxas de produção de alimentos. O estudioso, economista e demógrafo Thomas Malthus acreditava que a população estava crescendo em progressão geométrica — o número total multiplica-se por uma constante a cada geração — enquanto a indústria alimentícia se desenvolvia em progressão aritmética — número somado a uma constante a cada geração. Ou seja, quanto mais gente, menos alimentos disponíveis. Seria preciso controlar a natalidade ao redor do mundo para que pudéssemos ter comida para todas as bocas que aqui já estavam, para que não houvesse a fome.

O que Malthus não previu com a sua teoria foi o acelerado desenvolvimento das técnicas agrícolas, seguido da Revolução Industrial que trouxe as máquinas à vapor para o século XIX. “Até há alguns poucos séculos, a população mundial tinha, digamos, um equilíbrio natural, que fazia com que ela ficasse em torno dos 200 milhões de habitantes; a fome era um fator impeditivo para o crescimento das populações, que tinha uma expectativa de vida muito baixa”, explica Flávio Tayra, economista com mestrado, doutorado e pós-doutorado na área ambiental e professor adjunto na Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “As transformações econômicas dos séculos XIX e XX, principalmente, fizeram com que gradativamente as condições de vida fossem melhorando. Na lógica do capitalismo, fornecer alimentos é também uma atividade que passa a demandar escala de produção para sua comercialização. Se antes havia uma população de equilíbrio da ordem de 200 milhões de pessoas, hoje já temos 7 bilhões de pessoas e deveremos chegar a 9 bilhões na metade deste século”, reforça Tayra.

É desde os tempos bíblicos que temos registros da pecuária, quando o homem ainda capturava os animais para somente abatê-los, para unicamente suprir a necessidade básica da alimentação. Não demorou muito até perceber que poderia administrar a reprodução dos bovinos, suínos e aves, mantendo-os em cativeiro. Mas, foi só com o começo da agricultura que os grupos saíram de sua condição de nômades para se fixar em áreas de plantação e de manutenção do gado. Surgia o espírito da propriedade, da acumulação e do comércio.

As indústrias da agricultura e da pecuária hoje são responsáveis pela rotatividade da economia mundial e a mercantilização de insumos que sustentam o agronegócio — aos donos de fazendas, de cabeças de gado e de plantações, juntam-se os banqueiros, fornecedores de créditos, e empresários, fornecedores de vacinas, pesticidas, fertilizantes, sementes, herbicidas, etc., e tudo o mais que for necessário para o bom andamento da produção.

Com previsão de produção anual de 463 milhões de toneladas de carne até 2050, se seguir neste ritmo de desenvolvimento a pecuária mundial crescerá aproximadamente 103% nesse período se comparada aos números atuais, são 228 milhões de toneladas produzidas no mundo, de acordo com dados coletados em 2010 pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Proporcionalmente ao aumento das cabeças de gado vem a maior demanda de ração para os bovinos: 553 milhões de toneladas no mesmo período.

Também na agricultura os números cresceram, a tecnologia avançou e o mercado expandiu. “Para suprir tanta gente, ou melhor, uma parcela destes 7 bilhões, pois muita gente ainda passa fome, foi necessário um grande incremento de produtividade que foi conseguido com a chamada Revolução Verde, que tem como fundamento o uso de sementes de alto rendimento, fertilizantes, pesticidas, irrigação e mecanização. Mais recentemente, as sementes adulteradas geneticamente vieram complementar o pacote. Na indústria de alimentos, especificamente, os conservantes vieram dar uma vida útil mais longa aos produtos. Hoje é possível dizer que o problema atual da fome ainda existente não é decorrente da falta de alimentos, mas para os que ainda sofrem com esse mal, a razão do problema é a falta de recursos para comprar comida; na verdade, é um problema de distribuição de renda”, complementa o professor.

Iniciativas, politicagem, ou a mercantilização desenfreada

Aos fins do desenvolvimento econômico a humanidade por muito tempo ignorou as consequências ambientais que causava ao planeta: questões como a sustentabilidade e a preservação da natureza só foram colocadas na agenda política no final do século XX. A reunião de líderes mundiais na Cúpula da Terra, Eco-92 ou Rio-92, foi uma das diversas tentativas que vieram para frear a produção de viés unicamente capitalista, mudar as maneiras sem mudar os rumos, ora, o crescimento não precisa ser acompanhado da destruição do meio ambiente.

De acordo com dados do Prof. Dr. Flávio Tayra, a agricultura é responsável por 70% do consumo humano de água. “Para o futuro, a coisa pode ficar bem mais complicada. Além dos problemas sociais já existentes, ficarão mais evidentes também os problemas ambientais, dado que a Revolução Verde, no modo como a conhecemos, é insustentável a longo prazo pois traz consigo problemas como erosão e compactação do solo, poluição do ar e do solo, redução dos recursos hídricos, perda de matéria orgânica do solo, entre outros atributos não muito agradáveis”, alerta.

Segundo um relatório publicado em 2006 pela FAO, a pecuária é uma das maiores contribuintes para os mais graves problemas ambientais, em todos os níveis, do local ao global, incluindo problemas de degradação do solo, mudanças climáticas e poluição do ar, poluição e esgotamento da água e perda de biodiversidade. O desmatamento de florestas é uma prática já consolidada no mundo agropecuário. Só no Brasil, 90% da derrubada das matas entre os anos 2000 e 2012 foi de responsabilidade da agro-conversão comercial de agricultura — majoritariamente, de soja — e da pecuária. Números que não incluem os 79% de terras desmatadas no país para a produção ilegal (FOREST TRENDS, 2014). Da mercadoria resultante, a campeã de exportação é a soja, enquanto que apenas 17% da carne brasileira é enviada ao exterior — situação compreensível no país em que a média de consumo carnívoro é de 80 quilos per capita ao ano (FAO, 2009).

Problemas como o da preservação do meio ambiente possuem magnitude global e, consequentemente, exigem um posicionamento e tomadas de atitude globais. A primeira conferência mundial a tratar do assunto foi em Estocolmo, capital da Suécia, em 1972. Vinte anos depois foram elaboradas a Carta da Terra e a Agenda 21, um acordo estabelecido entre 179 países para a elaboração de estratégias de desenvolvimento sustentável, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento que aconteceu no Rio de Janeiro.

Mais uma tentativa de reunir as lideranças de governo e voltá-las ao tópico da sustentabilidade se deu em 2015, na cidade de Paris. A COP21 debate, entre 196 países, os novos rumos de políticas ambientais para o século XXI. Medida semelhante se deu em 1997, o Protocolo de Kyoto foi firmado para a redução da emissão de gases poluentes até 2012, não assinado por uma das maiores potências mundiais em produtividade industrial, os Estados Unidos da América.

A expansão de terras de pastagens “é um fator decisivo para o desmatamento, principalmente na América Latina. Uma parcela substancial da floresta amazônica foram usados para pastagens e para o cultivo de grãos para a alimentação do gado. Aproximadamente 70% das terras de pastagem está em zonas áridas estão degradadas, principalmente a causa do excesso de pastagem e pela erosão causadas pelo gado. No planeta, as regiões mais afetadas pela desertificação são as áreas produtoras de gado, como o oeste americano, a América Central e do Sul, a Austrália e a África subsaariana. A lógica que gere esses movimentos é puramente econômica”, reforça o Prof. Flávio.

“As florestas tropicais continuam desaparecendo a uma taxa alarmante, apesar do crescente reconhecimento internacional de seu papel crucial na mitigação das mudanças do clima. Esta perda gera cerca de 50% mais gases do efeito estufa do que o setor global de transportes (IPCC 2014). […] Estudos recentes sugerem que pelo menos metade do desmatamento global na última década foi motivado pela agricultura comercial, para suprir a crescente demanda global emergente por alimento, combustível e fibras. Isto é provavelmente subestimado, considerando a crescente área florestal sendo convertida a *commodities agrícolas — principalmente gado, soja e óleo de palma — bem como madeira tropical, celulose e papel e plantações madeireiras. O crescimento da agricultura comercial é citado como um importante vetor de desmatamento (REDD+)” (FOREST TRENDS, 2014).

Questão de oferta e de procura

A associação da crise ambiental com a necessidade de ações preventivas por parte dos governos e das indústrias é inevitável. A questão é, por que uma corporação como a Monsanto, por exemplo, que tem em suas mãos um monopólio de 90% do mercado de sementes transgênicas no mundo, se preocuparia com as consequências de suas ações, não só para o meio ambiente, bem como para a saúde das pessoas?

“A Associacão Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), assim como o Instituto Nacional do Câncer (INCA), alertam sobre o impacto que este consumo tem na saúde das pessoas. A Abrasco apontou que 70% dos produtos in natura que consumimos estão contaminados por agrotóxicos. Essas substâncias, como os fertilizantes e herbicidas, são inseridas nos cultivos agrícolas para controlar doenças e incrementar a produtividade. O uso dos agrotóxicos, sobretudo o excesso de aplicações e o uso de aqueles não autorizados, causam intoxicações agudas crônicas e câncer”, informa Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA).

Em um informe publicado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. De um lado, a majoritária ocupação das prateleiras dos supermercados com esses produtos. De outro, o apagamento da economia local. O consumidor compra aquilo que enxerga como realidade, mesmo que o mundo marche ano após ano contra os agrotóxicos e transgênicos nos alimentos. Sylvia Wachsner ensina que “os alimentos não são transgênicos. Eles podem conter ingredientes transgênicos como o milho ou a soja geneticamente modificados. A transgenia é aplicada nas atividades agrícolas para viabilizar o cultivo de espécies adaptadas, com o objetivo de obter resistência a pragas, adaptação a determinadas regiões, resistência à seca. No Brasil temos diversos alimentos como o óleo de soja e snacks para crianças feitos com milho transgênico que levam esse T na embalagem”.

Milhões de dólares são gastos com a alimentação de cabeças de gado e com a irrigação de plantações de sabe-se-lá quantos hectares de terra. A incoerência do agronegócio está clara: um problema que vai além da gestão e que comporta também os hábitos alimentares da humanidade. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação em seu relatório do ano passado, um terço dos alimentos consumidos na mesa dos brasileiros é contaminado por agroquímicos, sendo que mais de um quarto desses contém substâncias proibidas para consumo no Brasil.

Os alimentos disponíveis para comercialização no mercado são comumente de procedência de grandes empresas, e, com isso, borrifados de produtos químicos. Nas carnes vermelhas e brancas, hormônios. As tradicionais redes de supermercados negociam com potenciais e renomados fornecedores, apesar de 38% do Valor Bruto de Produção Nacional ser compreendido pela agricultura familiar — produção que vai para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), criado para assegurar uma alimentação mais saudável nas escolas e garantir a inclusão de produtos da agricultura familiar na merenda de alunos da Educação Básica.

Além do carimbo e adesivo da marca para vender frutas, legumes e verduras no Brasil eles também têm que estar em perfeitas condições… estéticas. “Sou de família de agricultores no Vale do Ribeira, banana, especificamente, e sei o quanto da fruta fica dentro do bananal por estar fora das especificações, tamanho, manchas. São descartadas na própria produção, mas são igualmente comestíveis. Imagino que isso também ocorra com tomate, cenoura, batata. Em mercados mais exigentes, o europeu, por exemplo, a fruta média brasileira tem dificuldade de entrar por não ter ‘qualidade’, mesmo que já tenha saído do sítio”, conta o Prof. Dr. Flávio Tayra.

“Esse é mais um problema da indústria de alimentos. Para alimentar tanta gente é preciso diminuir os desperdícios; e isso é um problema mundial. Em 2011, a FAO divulgou um estudo que mostrava que cerca de um terço dos alimentos produzidos todos os anos no mundo para consumo humano eram perdidos ou desperdiçados”.

Recentemente foi aprovado na França um projeto de lei que institui a doação de alimentos que não foram vendidos pelos supermercados, para tentar controlar o desperdício de comida no país. A lei, em vigor desde o mês de maio de 2015, faz parte de um planejamento do governo francês para solucionar os problemas de alimentação no país até 2025. As redes de supermercado são obrigadas a assinar contratos com organizações beneficentes para fornecer a comida que não foi vendida — ainda dentro, é claro, do prazo de validade. Políticas públicas como essa mostram-se cada vez mais essenciais em um mundo no qual, apesar da grande produção de alimento, não são todos que conseguem se alimentar. Redistribuir as mercadorias gratuitamente é uma maneira de compensar a desigualdade.

Um horizonte… distante?

A produção e o consumo de alimentos orgânicos aumenta a cada ano no Brasil e no resto do mundo. Ainda que nas grandes lojas o preço desses produtos seja elevado, e que o comércio em feiras municipais não consista na primeira opção de compras da maioria dos consumidores, a venda de orgânicos cresce 20% ao ano de acordo com o Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura. Em 10 anos, a produção de alimentos orgânicos cresceu 300% no Brasil.

“Os alimentos orgânicos são muito mais que do que produtos naturais sem agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes sintéticos. São resultantes de uma agricultura baseada em práticas sustentáveis, buscando o equilíbrio ecológico e o respeito ao homem”, defende Sylvia Wachsner do CI Orgânicos. “Os produtores orgânicos adotam práticas que preservam a saúde do homem, do meio ambiente, a biodiversidade e tornam a agricultura mais sustentável. Na agricultura orgânica, o solo é enriquecido naturalmente, sem receber agrotóxicos, pesticidas ou adubos químicos; os animais são criados livres, não tomam hormônios de crescimento, anabolizantes ou outras drogas, e tem o seu bem-estar assegurado; trabalhadores tem seus direitos e de sua família preservados; a legislação sanitária deve ser atendida e deve-se fazer a correta disposição do lixo”.

A agricultura e a pecuária sustentável são iniciativas que pretendem tornar a indústria alimentícia mais humanizada, com a preocupação de integrar a produção com a preservação do meio-ambiente. Na contramão do progresso unicamente pelo progresso e pelo retorno financeiro, esses modos de produção buscam um equilíbrio em meio ao universo do capital. “As várias definições para agricultura sustentável expressam, na sua maioria, insatisfação com o padrão de agricultura considerado moderno, e defendem a necessidade de um novo paradigma que garanta a segurança alimentar sem agredir o ambiente.

Nas propriedades agrícolas que adotam sistemas sustentáveis ocorre a complementaridade e a sinergia entre os componentes bióticos e abióticos, de forma que os meios de produção disponíveis possam ser utilizados de maneira mais eficiente. Dentre as suas proposições são planejadas e utilizadas estratégias que preconizam a diversificação das atividades agrícola e pastoril e melhoram a utilização dos recursos ambientais”, argumenta o Dr. Luiz Carlos Balbino, engenheiro agrônomo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA).

Por enquanto, encontra-se espaço para esses modelos na agricultura familiar e na produção orgânica, que conquista o consumidor pela promessa — cumprida — de uma vida mais consciente e natural. “A meta é sempre conseguir mais. Entre os países, o crescimento zero do PIB é uma catástrofe que derruba governos. Nos últimos anos, algumas iniciativas como as de certificação e rotulagem ambiental passaram a exigir mais esforços nessa área por parte das empresas, bem como a necessidade de comunicar a existência de uma preocupação ambiental a seus clientes e consumidores; o que muitas vezes leva a uma estratégia espúria chamada de green washing, uma maquiagem verde para melhorar a imagem, enquanto os processos continuam marrons”, critica o professor e economista Flávio Tayra.

Para o professor e especialista na área ambiental, uma das alternativas seria a diminuição do consumo de carne e produtos de origem animal. “Seria bem mais fácil prover alimentação para todo mundo se fossem consumidos menos carne e outros produtos animais. Os animais precisam ser nutridos e a produção de suas rações concorre com o cultivo de alimentos para a população humana.

Na década passada, no Brasil, cerca de 45% da produção agrícola era destinada aos animais que, transformados em alimentos, são consumidos por uma reduzida parcela da população, por conta do preço. Um número maior de pessoas poderia ter acesso a uma alimentação de qualidade, se a parcela da população com poder aquisitivo mais alto reduzisse seu consumo de carne. Nos Estados Unidos, a terra destinada a produzir alimento para o gado é da ordem de 60%. Ou seja, a tendência ainda é o aumento do consumo exacerbado de carne. Não é fácil mudar velhos hábitos”.

A possibilidade de uma dieta isenta de produtos de origem animal é uma saída para o desenvolvimento sustentável também na opinião da bióloga, médica nutróloga e clínica geral Amarantha Ribas. “A alimentação baseada em produtos animais é responsável direta e indiretamente por muitos problemas ambientais, como desmatamento, erosão do solo e desertificação, escassez de água, poluição dos oceanos, contribuição para o efeito estufa, além do extermínio da fauna e flora nativas. O vegetarianismo e a preservação dos recursos naturais são entidades que se coadunam visceralmente. Parar de consumir alimentos de origem animal pode ser uma ferramenta viável e eficaz para reduzir as mudanças climáticas e melhorar a saúde pública”, argumenta a profissional.

Muitas dúvidas podem surgir quanto ao que comer: o básico arroz, feijão e bife — acompanhado, quando muito, de uma salada. O senso comum sugere que a principal fonte de proteínas para uma alimentação saudável é a carne, seja ela vermelha ou branca, e isso desacredita propostas que retiram o elemento animal do cardápio.

“Os produtos de origem animal não precisam ser substituídos, pois são absolutamente desnecessários na nossa alimentação, ainda mais hoje em dia! Talvez fossem imprescindíveis em anos remotos quando o ser humano não dispunha de supermercados abertos praticamente 24 horas por dia vendendo todo o tipo de alimento. Temos acesso a uma enorme fartura atualmente. Gostaria de lembrar de que existem cerca de 300 mil espécies vegetais comestíveis e de que, apesar de basearmos nossa alimentação em cerca de 200 delas, é perfeitamente possível vivermos e estarmos bem alimentados e devidamente nutridos dessa forma, bastando para isso a variedade alimentar. Os vegetais são fontes de proteínas, ferro, lipídios, carboidratos e cálcio adequadas ao equilíbrio orgânico e saúde integral”, explica a Dra. Amarantha Ribas.

O vegetarianismo, dieta que não inclui carnes, mas ainda sim ovos e leite de vaca, é seguido pela opção do vegetarianismo estrito, dieta que é totalmente livre de produtos com ingredientes de origem animal e baseada na nutrição vegetal. Já o veganismo retira de todos os âmbitos cotidianos produtos que possam conter ingredientes animais, como roupas, calçados ou bolsas de couro, entre outros, cosméticos e produtos de limpeza que sejam testados em animais.

De acordo com a médica nutróloga, em 2011 as doenças crônicas não transmissíveis, ou seja, as que estão intimamente relacionadas com a alimentação e estilo de vida, foram responsáveis por dois terços das mortes do mundo, sendo as quatro principais causas as doenças cardiovasculares, o câncer, o diabetes e as doenças pulmonares crônicas. “O modelo alimentar baseado em derivados animais, uma construção histórico-cultural tão enraizada em nosso planeta, é excessivo em proteínas de origem animal o que, entre outras coisas, sobrecarrega os rins, acidifica o organismo, potencializa a desmineralização óssea bem como a formação de cálculos renais devido à perda de cálcio urinária”, explica a Dra. Amarantha.

A alimentação e o estilo de vida dos consumidores estão estreitamente conectados com a mudança de produção nas indústrias alimentícias. O que temos hoje, com foco na produção agropecuária e nenhuma atenção aos riscos e danos causados ao meio-ambiente, muito menos às consequências da ingestão de tantos químicos na saúde das pessoas que consomem esses produtos, poderia sim ser resolvido com políticas mais ecológicas por parte das indústrias — problema que os ativistas ambientais tentam solucionar há quarenta anos.

O insucesso na luta por um mercado consolidado mais sustentável sem dúvidas estimulou o surgimento de dietas como o vegetarianismo e o veganismo, que se apresentam aos cidadãos como uma alternativa que representa um estilo de vida mais saudável e que dá espaço para iniciativas orgânicas, de agricultura familiar. Uma forma de mudar o mundo, começando pelo próprio prato.

Referências:

O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO BRASIL: Um retrato multidimensional. Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), RELATÓRIO 2014. https://www.fao.org.br/download/SOFI_p.pdf

EL ESTADO MUNDIAL DE LA AGRICULTURA Y LA ALIMENTACIÓN. ORGANIZACIÓN DE LAS NACIONES UNIDAS PARA LA AGRICULTURA Y LA ALIMENTACIÓN Roma, 2009. https://www.fao.org.br/download/i0680s.pdf

Bens de Consumo e Desmatamento: Uma Análise da Extensão e Natureza da Ilegalidade na Conversão de Florestas para Agricultura e Plantações com fins Madeireiros. Série de Relatórios Forest Trends Financiamento e Comércio Florestal. Setembro, 2014. http://www.forest-trends.org/documents/files/doc_4825.pdf