A homenagem que Pedro Rocha merecia nunca esteve perto de ser concretizada

Peñarol e São Paulo, clubes em que ‘El Verdugo’ brilhou e foi ídolo, chegaram a falar em um amistoso, mas ideia não saiu do discurso

Pedro Rocha em campo pelo São Paulo (Crédito: Agência Estado)

A cada ano, os dias 2 e 3 de dezembro servem para lembrar fãs de futebol da existência de Pedro Virgilio Rocha Franchetti. Afinal, de 2013 em diante, as duas datas contíguas registram, respectivamente, a morte e o nascimento de um dos maiores jogadores de futebol em todos os tempos. Na opinião de Pelé, o Rei no assunto, um dos melhores que viu jogar. Pedro Rocha, ídolo de Peñarol e São Paulo, convivia desde 2009 com problemas decorrentes de uma atrofia no mesencéfalo, o que ocasionou em seu falecimento em dezembro de 2013 — um dia antes de completar 71 anos de idade. Durante o tempo em que sofreu com as complicações do problema de saúde, a diretoria são-paulina manifestou por meio de algumas declarações esparsas a vontade de organizar um jogo em homenagem a ‘El Verdugo’, mas o amistoso para ajudar o craque tricolor nos anos 70 nunca saiu do discurso.

Trabalhando para o LANCE! em 2013, perguntei a algumas pessoas (do São Paulo e do Peñarol) a respeito do porquê da não realização de uma partida que homenageasse Pedro Rocha até a data de sua morte. Os calendários eram colocados como entrave, já que o futebol brasileiro é extremamente inchado e o do futebol uruguaio, também confuso, segue o calendário europeu, com campeonatos que começam na segunda metade de um ano e terminam na primeira metade do ano seguinte, divididos em Apertura e Clausura. Em algumas entrevistas disponíveis na internet, pode-se verificar em palavras de dirigentes das duas instituições o desejo de fazer o evento, especialmente depois que Rocha ficou internado no fim de 2012. Contudo, a ideia desse amistoso não chegou a passar pelos departamentos internos competentes ao assunto: os departamentos de marketing de ambos os clubes, que não chegaram a conversar para planejar uma possível ação em parceria.

Em abril deste ano, o então diretor de marketing do Peñarol, Santiago Mizraji, esteve em São Paulo para uma palestra, na qual falou sobre o plano de reestruturação implementado no clube recentemente. Quando o evento abriu para perguntas, questionei Mizraji a respeito dessa homenagem que nunca aconteceu e o que o Peñarol fez após o falecimento do craque:

“Usamos uma camiseta especial de Rocha, fizemos uma homenagem com a família. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance… Sempre se pode fazer mais. Hoje procuramos trabalhar nisso com os grandes ídolos para não passar por essas más experiências”, disse Mizraji, reforçando que o Peñarol emprega alguns ex-atletas no clube, mas lamentando a ida de Rocha sem um último grade ato

Depois da palestra, me aproximei de Mizraji e conversamos um pouco sobre o tema e como seria importante São Paulo e Peñarol terem feito algo em conjunto, como por exemplo um jogo com a renda revertida à família e ao tratamento do Verdugo. As palavras dele foram no sentido de que essas iniciativas precisam passar pelos departamentos de marketing dos clubes, o que não aconteceu no caso de Rocha. De acordo com o profissional, que hoje não trabalha mais para o clube uruguaio, o futebol sul-americano ainda precisa aprender a integrar o departamento de futebol com o de marketing, para que, entre outras coisas, ideias como a de um amistoso em tributo a ídolos de fato saia da intenção e se torne realidade.

(Crédito: Agência Estado)

Por parte do São Paulo, Rocha ganhou quatro homenagens pontuais: uma camisa com o 10 às costas em uma linha de peças alusivas aos títulos brasileiros, uma camisa celeste com seu nome e o número 10 em uma linha de celebração aos uruguaios ilustres do Tricolor, o nome na camisa dos atletas em um clássico contra o Corinthians em 2012 às vésperas de completar 70 anos e, por fim, uma camiseta lançada depois de sua morte cuja renda teria uma parte revertida para a família.

Lembrei de Pedro Rocha nos últimos dias ao repassar no calendário as datas importantes no futebol neste mês de dezembro, como o aniversário e o falecimento do uruguaio. Tomados pelo luto à Chapecoense na tragédia de Medellín, vimos nesta semana que se passou inúmeras manifestações de carinho e solidariedade aos guerreiros de Chapecó. Além disso, iniciativas para a reconstrução da equipe também estão sendo sugeridas e elaboradas. Obviamente não estou comparando os lutos e os acontecimentos, mas o ponto é: quem quer ajudar de verdade não fica só no discurso. Vai lá e faz acontecer. Como certamente muitos já estão — e seguirão — fazendo pela Chapecoense daqui em diante. E como certamente poderia ter sido feito por Pedro Rocha, que se foi sem uma merecida mobilização para celebrá-lo ainda em vida.

Que o mundo do futebol faça mais do que entregar palavras de luto e não encontre entraves para homenagear a Chape com o tamanho e a importância que ela e o ocorrido do último 28 de novembro merecem. Para maiores informações, consultem o Atlético Nacional da Colômbia.